2010-05-05 Dissertação em pdf
Conforme já havia anunciado, minha dissertação Pintura para catálogos foi chancelada com publique-se. Inicialmente fiquei animado com a possibilidade de transformá-la em livro, mas logo percebi que me custaria justamente transformá-la em livro e isso vai demorar: reduzir o ranço acadêmico, a gordura – a profusão de citações – e o rebolado – os pressupostos sobre a audiência.
Como a internet tem sido meu principal meio de publicação e como prefiro divulgar a mostrar-e-guardar, resolvi disponibilizar o texto completo e já com a seguinte mensagem:
- Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho, por qualquer meio tradicional ou eletrônico, para fins de estudo ou pesquisa, desde que citada a fonte.
Download da dissertação Pintura para Catálogos em PDF Ebook.
Download da dissertação Pintura para Catálogos em PDF Prepress.
Veja a dissertação Pintura para Catálogos online no SlideShare.
2009-12-21
Pintura para catálogos: notas sobre o arquivamento da arte, minha dissertação de mestrado, foi aprovada com indicação para publicação! Agradeço à minha banca – Edson Rosa da Silva (UFRJ), Patrícia Franca (UFMG) e Maria Angélica Melendi (Piti, minha orientadora, UFMG) – pela leitura atenta e pelo elogio mais desejado pelo pesquisador. Agradeço também a todos os amigos e colegas pela força e pela presença na defesa.
2009-12-15 Convite para minha defesa
Pintura para catálogos | resumo
A partir do estudo de catálogos de exposição evidentemente institucionais segundo as relações que produzem dentro da biblioteca, introduz o conceito/provocação pintura para catálogos e verifica sua possibilidade retomando a discussão da arte como fotografia, negligenciada em seu surto mais universal. A partir da pintura fotografada e da percepção de que o museu sucumbe a um vetor de valores cuja ponta é o valor de arquivamento, busca determinar as características da nova relação da arte com seu arquivo em nossa era digital, problematizando tal relação segundo dialéticas não conciliatórias inspiradas em Benjamin, sempre procurando a perspectiva da reanimação ante a reificação – no que obtém apenas sucesso parcial. Para isso, operacionaliza o conceito de museu imaginário de Malraux, defendendo-o ante as críticas de Crimp, transportando-o para o tempo presente, aguçando sua dubiedade e retrabalhando as noções de ressurreição e recriação fotográfica para propor uma pauta de engajamento que consiste em seguir-produzindo (conceito derivado de Foster) uma arte caracterizada pela difusão (metáfora luminosa) e pela diminuição (conceito derivado de Benjamin). Tal produção é marcada pela possibilidade de uma dupla substituição concomitante a um duplo registro da obra de arte, o que torna a distinção entre original e cópia desimportante e até indesejável, visto que a defesa dos “valores do original” geralmente garante o livre movimento do poder-saber em espaços diagramáticos identificados como fábricas de catálogo. Para sondar o funcionamento dessas fábricas e propor escapes, constrói outra definição de catálogo baseada no conceito de arquivo, segundo as concepções de Derrida e Foucault, e busca alternativas de uso. Explicita, então, essas questões no contexto artístico de Belo Horizonte, recorrendo a alguns “textos de artista” marcados pela informalidade.
2009-12-02 Tri-bi na EBA
Estou fixado em catálogos, todo mundo já sabe – pode ser que isso passe depois de minha defesa, dia 21. Se vejo um fora da estante, paro e vou logo perguntando o porquê dele estar ali em uso, como se todos os catálogos do mundo competissem a mim. Não por ciume. Sempre procuro demonstrações de minhas hipóteses sobre o catálogo, mas é raro encontrar um interlocutor que entenda minha euforia diante de um simples exemplar aberto.
Ontem tive uma ótima surpresa: a Liliza Mendes tinha montado uma pequena exposição na “piscina” da EBA-UFMG; segundo ela, Tri-bi, em referência às dimensões. Chamei atenção para o fato de quase todos os “bi” serem catálogos: —Realmente –concordou a Liliza– só conhecemos a maioria dessas obras pelo catálogo. —Até mesmo o Abaporu… –emendei. —Que está na Argentina –completou.
Fiquei pensando na falta do Abaporu, nas discussões se ele deveria estar no MALBA ou no Brasil, se realmente deveria haver essa “reserva nacional” de obras que merecem ganhar o mundo, e na contrapartida óbvia de que as obras de importância mundial raramente ficam no Brasil… Mas isso logo passou, pois mesmo que o Abaporu estivesse ali na galeria da EBA, ainda assim, o catálogo teria sido aberto.
A ausência física da obra é apenas um gatilho histórico para que o catálogo assuma papel substitutivo. Desde então não há mais volta: o catálogo sempre substituirá – inclusive a obra presente. Minha tese principal é que as pinturas não podem mais ser vistas fora do catálogo, isso é usadas, acessadas, compreendidas.
Essa fotografia demonstra isso. Apesar de distante fisicamente, o Abaporu, está presente, duplo-substituído pelo catálogo e complementado pelo “tri” dele derivado. Verificada essa presença junto com Antropofagia, notamos então uma ausência gritante: onde está o Sol Poente? O catálogo de Tarsila do Amaral passa a ser essencial ele domina nossa percepção e, por isso, nossos sentidos giram em falso: onde está a parte “bi” do complemento Tri-bi Sol Poente?
→ Arte Pintura para catálogos Liliza Mendes Mestrado Pesquisa
2009-09-24 Diálogo pelo catálogo
De: Hélio Nunes Assunto: Catálogo-obra, catalobra, obremcatálogo Para: Marcelino Peixoto

Diálogo pelo catálogo com sem título (Ação de tornar visível as seis faces de um cubo) de Marcelino Peixoto.
Olá Marcelino,
Obrigado! Recebi ontem seu catálogo e brinquei bastante com as várias possibilidades de remontagem sobre o cartaz, usando a sobrecapa como objeto tridimensional (ou um prisma triangular, ou um paralelepípedo aberto) e também como um plano adicional cobrindo algumas lacunas brancas de papel.
É engraçado como uma coisa tão simples quanto uma sobrecapa que fica de pé sozinha influencia tanto numa noção que me é muito cara, que é a de ter-reproduzido, isso é, fantasiar possuir a obra tocando sua reprodução.
Poderíamos pegar esse cartaz, emoldurar e colocar na parede. A moldura teria um papel de passagem semelhante ao arcaico: antes ela representava a passagem do ateliê ao espetáculo, agora, seria da reprodução para a obra rediviva. Mas sentimos logo a artificialidade disso, tal como nesse “Vicent” (escrito com letras douradas) aqui na minha frente, numa moldurinha azul; moldurinha igual à de outro Vicent, um pouco diferente, mas igual à do Picasso, que, por sua vez, é um pouco diferente, mas também igual à do Bosch etc.: no final, a moldura e a verticalidade da parede acabam atrapalhando o ter-reproduzido, as obras vão remorrendo, ficam distantes e se vão.
Então esse cartaz, saído da plataforma de uma impressora, fica melhor como plataforma ele mesmo, horizontal, desdobrado no chão de tacos parecido com o chão que aparece na fotografia de sem título (Ação de transferir 714 fitas adesivas pintadas em aquarela) que ele traz. Ele se torna uma superfície receptiva a qualquer artefato crítico que me ocorra, e transmite essa crítica – em atraso, mas transmite – para a obra que, nesse ter-reproduzido, se torna aderente às minhas manipulações.
Pois manipular a reprodução assim, aproveitando a gramatura, dobrando melhor, invertendo a dobra, alisando, é uma forma de reavaliar a obra, é uma pós-produção crítica.
O que essas fotos mostram, acho, é essa oportunidade que só o ter-reproduzido dá. Numa desfaço o caráter de demonstração de sem título (Ação de tornar visível as seis faces de um cubo), noutra o sem título (Díptico) vira um tríptico. E mais tentativas, outras novas críticas, me aproximando mais e mais da obra. E assim fazendo sinto melhor a presença da obra; presença em atraso, mas presença.
De: Marcelino Peixoto Assunto: Re: Catálogo-obra, catalobra, obremcatálogo Para: Hélio Nunes
Suas boas novas imagens me pegam em trabalho. Um papel grande horizontalizado de gramatura 400 e uma linha espessa de Malva. Abro, após esta escrita, outro papel a receber o deslizamento da tua escuta. Vou experimentar multiplicar esta imagem. Além dos despojos-obras de Transferência, recebi quinhentos outros catalobras desses. E, por um descuido dos cuidados, não tem data.
De: Hélio Nunes Assunto: Re: Catálogo-obra, catalobra, obremcatálogo Para: Marcelino Peixoto
Não tem data: é intemporal.
→ Arte Crítica Marcelino Peixoto Cemig Pintura para catálogos Pesquisa Mestrado
2009-09-05 O futuro da pintura
Dessa vez não há barganha possível com a morte da pintura…
2009-05-29 MAP reabre 2
Na postagem anterior, 2009-05-25 MAP reabre olhando para dentro, não resisti e coloquei o umbigo do Lula, que não tem nada a ver com o Museu de Arte da Pampulha. Dessa vez, procurei na internet por “salão de arte”, tencionando encontrar alguma imagem daqueles salões do século XIX. Novamente não resisti. O Google Images está virando um garimpo surrealista! Mas voltando ao assunto:
Uma atualização: conversei rapidamente com o Marcelo Drummond, irmão do Marconi do MAP, e perguntei se a nova exposição apontava para um retorno dos salões. Gostei muito da resposta enérgica: “Que coisa mais reacionária!”
Então a dúvida foi dirimida: a exposição é um corte histórico, cujo objetivo, inclusive, é confrontar as experiências do antigo Salão com a Bolsa Pampulha.
Talvez já seja possível falar em um padrão pendular no MAP: exposição de arte contemporânea e, em seguida, exposição do acervo. Alguns dizem que estas últimas são para “tapar buracos” na programação, em períodos de pouca verba… Mas isso não importa. Um museu, para ser museu, deve ter acervo – acredito, divergindo das concepções mais em voga hoje – e deve expô-lo. E, preferencialmente, de forma permanente. Talvez o projetado e ansiado anexo venha cumprir essa função que considero essencial no Museu.
Não conheço todo o acervo do Museu da Pampulha, mas os relances que tive dele não me agradaram muito… Fora as novas aquisições e algumas obras realmente pertinentes, muito do que vi ou já é ou está prestes a se tornar anacrônico.
Isso para não dizer pior. Em 2005-07-04, ocasião da exposição Acervo Espelhado, Paulo Schmidt e José Alberto Nemer escolheram – Nemer com picardia explícita, Schmidt, com alguma seriedade impossível de se levar a sério – uma pintura de Winston Churchill. Isso mesmo: o MAP tem em seu acervo uma pintura feita pelo Primeiro Ministro da Inglaterra durante a 2ª Guerra. Por que, diabos, o MAP tem uma pintura feita por Churchill?! Essa é a primeira pergunta de Nemer que conclui, no folheto mais ácido que recolhi no MAP:
- E daí? Deixar como está para ver como é que fica. Ou então, se divertir com a ironia pragmática de um colecionador americano que, acostumado com a agilidade dos museus de seu país, sugeriu ao conhecer o MAP, sua história e suas dificuldades, que o prédio voltasse a ser cassino ou bingo, cuja renda sustentaria um museu como todos gostariam.
Essa exposição que abre dia 6 próximo mostrando o acervo adquirido em 26 edições do Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte será mais um teste para o acervo em si que uma historicização dos salões. Esclarecida a dúvida sobre a Bolsa Pampulha, resta a prova do acervo: o MAP tem o acervo que desejamos?
Um museu sempre contemporâneo (isto é, cronicamente sincrônico) não significa “sem acervo”; o grande lance é fazer com que a guarda reflita a arte contemporânea pelo constante movimento. Um museu hoje sincrônico não deve se tornar anacrônico amanhã; isto é, seu acervo não pode ser definido pela pura acumulação: uma obra que hoje merece estar no acervo, deve estar nele; se amanhã tal obra perder sua significação contemporânea, ou seja, se não é nem contemporânea nem influência para a contemporaneidade, deve passar a outro acervo, de tipo histórico, em outro museu, ou ser vendida.
O grande problema é que o MAP não tem independência para gerir seu acervo. Na verdade, não tem independência alguma. E nisso poderíamos voltar ainda ao problema da saída da Priscila Freire: a questão não é se ela merecia ou não permanecer no cargo; o problema foi a forma da substituição, incluindo, sem vexa alguma, o MAP no cabide-de-empregos políticos da Prefeitura… Ora, um museu precisa de uma equipe estável e capacitada, o que inclui sua diretoria. Sendo assim, tal equipe poderá formular uma filosofia igualmente estável e fundamentada de acervo, merecedora da independência necessária à gerência de um museu de arte.
A última avaliação daquela pintura do Churchill ficou entre US$ 35 e 40 mil. Seria um ótimo aporte financeiro, que poderia ser revertido na compra de uma obra realmente importante. Mas a decisão de venda não cabe ao Museu, é da Câmara dos Vereadores. É temerário no Brasil flexibilizar a gerência de quantias vultosas, mas submeter o acervo do Museu a voto no legislativo parece demais. O controle público sobre o MAP deveria ter outra forma, mais filosófica que pontual; e a gerência do Museu deveria ser pautada pela confiança em uma equipe de profissionais de museu e de artes. A substituição da Priscila pelo duvidosamente qualificado “gestor” indicado pelo Prefeito só torna mais distante o acervo que desejamos para o MAP.
→ Arte Crítica Museu de Arte da Pampulha Bolsa Pampulha Marcelo Drummond Acervo Paulo Schmidt José Alberto Nemer Churchill Priscila Freire Pintura para catálogos Pesquisa Mestrado
2009-05-25 MAP reabre olhando para dentro
A imagem não tem nada a ver com o Museu de Arte da Pampulha. Procurei na internet por “umbigo” e, dentre belos e horripilantes, encontrei o Lula apontando para o umbigo, ou melhor, para o machucado feito por uma bala de borracha perto do umbigo. Nossa conversa é sobre “olhar para o próprio umbigo” e talvez perto dele também tenha um machucado… Não poderia deixar passar essa foto, está aí, respeitosamente e com admiração, o umbigo do Presidente: é por isso que eu gosto dele: seus gestos são diretos, quase ingênuos, e por isso tão abertos a re-significações. Mas voltando ao assunto do MAP:
Li hoje uma notícia dúbia: boa pois o Museu de Arte da Pampulha vai retomar as atividades depois da estranha (para não dizer mais…) saída da Priscila Freire (cf. 2009-04-04 e 2009-04-05); mas talvez não tão boa pois a exposição que abre dia 6 próximo será sobre as 26 edições do Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte.
O que causou minha dúvida foi essa frase de Sérgio Rodrigo Reis, autor da coluna Visuais (Estado de Minas, Caderno de Cultura, 25 mai. 2009, p. 5): “Nos últimos anos, a opção vinha sendo por uma temática contemporânea das exposições”. O verbo no passado me preocupou muito. Será que essa exposição demonstra uma vontade de retomar o modelo do Salão, extinguindo a Bolsa Pampulha? Ou pior, será que indica a intenção de direcionar o Museu para um rumo “histórico”, privilegiando os nomes já consagrados, isto é, tornando o MAP um museu modernista?
Entre 2001 e 2004, Adriano Pedrosa e Rodrigo Moura, respectivamente curador e curador assistente que virou curador em 2003, implementaram uma série de mudanças na política de colecionismo do Museu. Até então, a maior parte das obras entravam no MAP via “prêmio de aquisição”, nas diversas edições do Salão, desde 1930. O fato é que o MAP nunca tinha comprado nenhuma obra, tendo acumulado um acervo que espelhava o Salão e a vontade dos doadores; o que pode até ser interessante para a própria história do Museu, de seu Salão e das relações com a sociedade belo-horizontina, mas insuficiente para que seu acervo se tornasse significativo além da restrita área de influência do Salão e além do gosto dos colecionadores mineiros.
Vik Muniz foi a primeira aquisição do MAP, em 2002, que continuou comprando, recebendo contrapartidas e transferindo obras de outros museus de forma ativa até pelo menos agosto de 2008, quando, já sob curadoria de Marconi Drummond (que voltou agora), foi realizada a exposição Procedente >> MAP: novas aquisições, com Alexandre da Cunha, Ana Maria Tavares, Cristiano Rennó, Damian Ortega, Débora Bolsoni (BP, 2005, ie. 28º Salão), Fernanda Gomes, Gedley Braga, Gilvan Samico, Isaura Pena, Jac Leirner, Laura Belém (BP, 2004, ie. 27º Salão), Mabe Bethônico (com obra inédita no MAP), Marilá Dardot (BP, 2004, ie. 27º Salão), Mary Vieira (com obra inédita no MAP), Márcia Xavier, Máximo Soalheiro, Nuno Ramos, Patrícia Leite, Regina Silveira (com obra inédita no MAP), Rivane Neuenschwander, Roberto Bethônico, Rodrigo Andrade, Rosângela Rennó, Sandra Cinto, Sonia °S Labouriau, Sônia Lins e Valeska Soares. Além dessas aquisições, não tenho notícia de outras… Vou conferir depois.
Como assinalado, três artistas participantes da Bolsa Pampulha tiveram suas obras adquiridas pelo Museu, não como premiação, mas por terem sido consideradas importantes para o acervo. A diferença não é sutil, bem como não é sutil a diferença entre Bolsa Pampulha e o Salão. As três edições da Bolsa Pampulha foram oficialmente as 27ª, 28ª e 29ª edições do Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte, mas o modelo do salão de arte foi descartado em prol de uma residência artística de um ano, na qual os artistas contaram com a orientação de nomes importantes da arte brasileira. Oportunamente, vale dar uma lida no artigo A (im)pertinência dos salões, em que Paula Alzugaray relata um debate com Adriano Pedrosa, ainda na onda da Bolsa Pampulha.
Todos estes artistas, acredito, expuseram no Museu, mas ao menos três obras adquiridas eram inéditas no MAP. Isso demonstra uma certa continuidade entre história do Museu e aquisição, mas também uma importante maleabilidade. O que importa a um acervo não é necessariamente o que foi exposto na instituição que o abriga, mas o que é relevante para a coleção dessa instituição. Isso é ainda mais importante para o MAP, cujas características físicas geralmente tornam fúteis as tentativas de montar uma exposição tradicional. Em 2008-09-09, por exemplo, escrevi sobre a briga dos tapumes com a arquitetura na exposição de Adriana Varejão, o que considerei um retrocesso.
Era um retrocesso pois a maior mudança do MAP na virada do milênio foi privilegiar obras que dialogassem com o edifício projetado por Niemeyer nos anos 1940 para ser um cassino. Tratava-se de um duplo movimento: por um lado, acatava-se a invencível arquitetura, mas por outro, criava-se um diferencial em relação aos outros museus do país: as peculiaridades do espaço demandariam exposições verdadeiramente específicas. Específicas mesmo: o Salão Nobre é inclemente e não perdoa site-specifics portáteis, transportáveis, isto é, falsos site-specifics.
Um caso recente foi a exposição de Angela Detanico e Rafael Lain, em maio de 2008. As obras que estavam no Salão Nobre pareciam deslocadas e sem relação entre si – o que não parece ter sido intencional pois em outros espaços há um discurso homogêneo entre as obras. Um dado tempo, por exemplo, foi criado especificamente para o MAP, mas ficaria melhor em uma galeria tradicional, a não ser que a intenção tenha sido criar uma obra diluída, algo muito diferente do que apreendemos pela fotografia mostrada no simpático site da dupla. O objeto ficou perdido no teto como se fosse algo sem relação com Um dado lugar, que estava, por sua vez, perdido no piso.
Uma das questões centrais da Bolsa Pampulha foi preparar os jovens artistas para lidar com esse espaço indômito onde só há uma parede (no Mezanino): a proposta era substituir a metáfora do “cubo branco” pela “caixa de jóias”, substituindo também o portfolio pela convivência cúmplice, doméstica, visando, como disse Adriano Pedrosa, uma “personalização do museu” pelo contato estreito do artista com a instituição. Um museu que só tem uma parede não aceita portfolio, isto é, porta-fólio, folhas de papel… A metáfora da “caixa de jóias” parece bem apropriada: só aceita coisas pessoais.
Não sei se a exposição programada tem a intenção de preparar o retorno do modelo de salão, com seus portfolios e prêmios de aquisição. Para mim seria um grande erro, não só para o Museu, mas também para os artistas daqui e de fora que vêm para cá. O Museu perderia sua especificidade, reduziria a alguns dias a duração de sua influência, e restringiria novamente seu acervo a um desabrochar que raramente é coerente com o verdadeiro impulso colecionista de um museu importante. Os artistas, todos, não só os jovens, perderiam com o fim da convivência e da troca, bem como com o retorno de uma mineiridade que só deu mais ou menos certo na música… Isso sem falar no público, para quem ir à Pampulha vinha deixando de ser longe demais. Para ver um acervo estabelecido de arte contemporânea, teremos que voltar a viajar? Ao menos a viagem não será tão longa mais: Inhotim. (Bom, tem também o Palácio, mas não é sua função ter um acervo…) Mas porque não ter dois, três, dez museus com acervo de arte contemporânea?
Espero que o marco da exposição, o 26º Salão, seja apenas uma coincidência (as três aquisições da Bolsa Pampulha foram mostradas muito recentemente) ou um erro de comunicação com o jornalista. Espero mesmo que não seja uma pressão dos antigos contemplados para voltar com exclusividade ao Museu. Espero que não seja mais uma ameaça à Bolsa Pampulha e ao MAP como referência em arte contemporânea. Espero… que todos os meus medos sejam injustificados. Confio.
Sei que será uma ótima oportunidade para confrontar os catálogos dos Salões com as obras do acervo tão pouco visto. Olhar para dentro é bom: o Museu de Arte da Pampulha tem muitos espelhos que desviam nosso olhar para fora.
→ Arte Crítica Museu de Arte da Pampulha Bolsa Pampulha Marconi Drummond Rodrigo Moura Adriano Pedrosa Acervo Colecionismo Pintura para catálogos Pesquisa Mestrado
2008-10-28
Poucas vezes um pesquisador confirma assim suas hipóteses: deveria concluir minha dissertação PinturaCatálogos até o fim desse ano; por isso, estava dando muito pouca bola para a vindoura (que já chegou) 28ª Bienal de São Paulo. Sabia das polêmicas, da “Planta Livre”, da importância que seria dada ao Arquivo Histórico Wanda Svevo etc. Mas não tinha verdadeiramente atinado para a possibilidade dessa bienal ser a demonstração de minha hipótese de que o catálogo (coisa arquivada e arquivo em si) é mais importante que a exposição. Prazo de defesa prorrogado, viagem a SP marcada: a “Bienal do Catálogo” entra na dissertação “Pintura para catálogos: notas sobre a pintura arquivada”. Dá até vontade de mudar o título: “Arte para catálogos: notas sobre a arte arquivada”!
→ Bienal de São Paulo Arte Crítica Pintura para Catálogos PinturaCatálogos
2008-04-01
Hoje é dia da mentira e da Mentira! 64 NUNCA MAIS!
Uma série de coincidências me levaram hoje a Gilbert & George. O segundo filme, sobre como eles indexam tudo, parece interessante para PinturaCatálogos.
Mudando de assunto. Em 2007-05-14 fiz uma pequena anotação sobre a peripécia de Yuri Firmeza no Museu de Arte Contemporânea do Ceará. Ele agora é bolsista do MAP. Nas discussões após- MAPCríticaContexto, Elisa Campos resgatou da Agência Estado:
- Seria um acontecimento. O japonês Souzousareta Geijutsuka, anunciado pela imprensa cearense como um dos principais nomes da arte contemporânea universal, era ansiosamente esperado semana passada em Fortaleza, para abrir a exposição Geijitsu Kakuu. Convidado especial da curadoria do Museu de Arte Contemporânea do Ceará, Geijutsuka mostraria ao público cearense por que seu trabalho é aclamado em todo o planeta como uma obra revolucionária que, segundo o material de divulgação de sua eficiente assessoria de imprensa, incorpora “novos conceitos à arte”, como os de “operação em tempo real, simultaneidade, supressão do espaço e imaterialidade”. Os jornais locais deram amplos espaços para a divulgação da exposição. Um deles chegou a publicar, no dia marcado para a abertura do evento, uma entrevista de página inteira com Geijutsuka. Tudo perfeito, não fosse um detalhe: Souzousareta Geijutsuka não existe.
E o amigo Vicente Pessoa mandou a seguinte notícia:
- Isso [a performance do Yuri] é muito parecido com o que fizeram un grupo de artistas faz alguns anos ao criar o personagem-artista sérvio Darko Maver. Eles foram ainda melhores sucedidos pois enganaram até a 48° Bienal de Veneza com trabalhos que poderiam ser encontrados em sites de fotos violentas na internet. Tem uns links sobre a historinha: [1], [2] e Youtube:MrIfuFpOalA.
No final do vídeo, lemos:
- A performance that elevated media manipulation to the status of art, and that transformed the most radical mythopoeia in one of its highest forms.
Acabo acreditando nisso: a ação mais radical hoje é invadir o museu e/ou criar mitos que o destruam.
Na época, achei muito corajosa a iniciativa do Yuri e, agora, com tal background, gosto dela ainda mais: há duas camadas: 1) Souzousareta Geijutsuka não existe e 2) isso já havia sido feito.
→ Arte Crítica Museu de Arte da Pampulha Pintura para catálogos Pesquisa Mestrado







