2009-05-29 MAP reabre 2
Na postagem anterior, 2009-05-25 MAP reabre olhando para dentro, não resisti e coloquei o umbigo do Lula, que não tem nada a ver com o Museu de Arte da Pampulha. Dessa vez, procurei na internet por “salão de arte”, tencionando encontrar alguma imagem daqueles salões do século XIX. Novamente não resisti. O Google Images está virando um garimpo surrealista! Mas voltando ao assunto:
Uma atualização: conversei rapidamente com o Marcelo Drummond, irmão do Marconi do MAP, e perguntei se a nova exposição apontava para um retorno dos salões. Gostei muito da resposta enérgica: “Que coisa mais reacionária!”
Então a dúvida foi dirimida: a exposição é um corte histórico, cujo objetivo, inclusive, é confrontar as experiências do antigo Salão com a Bolsa Pampulha.
Talvez já seja possível falar em um padrão pendular no MAP: exposição de arte contemporânea e, em seguida, exposição do acervo. Alguns dizem que estas últimas são para “tapar buracos” na programação, em períodos de pouca verba… Mas isso não importa. Um museu, para ser museu, deve ter acervo – acredito, divergindo das concepções mais em voga hoje – e deve expô-lo. E, preferencialmente, de forma permanente. Talvez o projetado e ansiado anexo venha cumprir essa função que considero essencial no Museu.
Não conheço todo o acervo do Museu da Pampulha, mas os relances que tive dele não me agradaram muito… Fora as novas aquisições e algumas obras realmente pertinentes, muito do que vi ou já é ou está prestes a se tornar anacrônico.
Isso para não dizer pior. Em 2005-07-04, ocasião da exposição Acervo Espelhado, Paulo Schmidt e José Alberto Nemer escolheram – Nemer com picardia explícita, Schmidt, com alguma seriedade impossível de se levar a sério – uma pintura de Winston Churchill. Isso mesmo: o MAP tem em seu acervo uma pintura feita pelo Primeiro Ministro da Inglaterra durante a 2ª Guerra. Por que, diabos, o MAP tem uma pintura feita por Churchill?! Essa é a primeira pergunta de Nemer que conclui, no folheto mais ácido que recolhi no MAP:
- E daí? Deixar como está para ver como é que fica. Ou então, se divertir com a ironia pragmática de um colecionador americano que, acostumado com a agilidade dos museus de seu país, sugeriu ao conhecer o MAP, sua história e suas dificuldades, que o prédio voltasse a ser cassino ou bingo, cuja renda sustentaria um museu como todos gostariam.
Essa exposição que abre dia 6 próximo mostrando o acervo adquirido em 26 edições do Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte será mais um teste para o acervo em si que uma historicização dos salões. Esclarecida a dúvida sobre a Bolsa Pampulha, resta a prova do acervo: o MAP tem o acervo que desejamos?
Um museu sempre contemporâneo (isto é, cronicamente sincrônico) não significa “sem acervo”; o grande lance é fazer com que a guarda reflita a arte contemporânea pelo constante movimento. Um museu hoje sincrônico não deve se tornar anacrônico amanhã; isto é, seu acervo não pode ser definido pela pura acumulação: uma obra que hoje merece estar no acervo, deve estar nele; se amanhã tal obra perder sua significação contemporânea, ou seja, se não é nem contemporânea nem influência para a contemporaneidade, deve passar a outro acervo, de tipo histórico, em outro museu, ou ser vendida.
O grande problema é que o MAP não tem independência para gerir seu acervo. Na verdade, não tem independência alguma. E nisso poderíamos voltar ainda ao problema da saída da Priscila Freire: a questão não é se ela merecia ou não permanecer no cargo; o problema foi a forma da substituição, incluindo, sem vexa alguma, o MAP no cabide-de-empregos políticos da Prefeitura… Ora, um museu precisa de uma equipe estável e capacitada, o que inclui sua diretoria. Sendo assim, tal equipe poderá formular uma filosofia igualmente estável e fundamentada de acervo, merecedora da independência necessária à gerência de um museu de arte.
A última avaliação daquela pintura do Churchill ficou entre US$ 35 e 40 mil. Seria um ótimo aporte financeiro, que poderia ser revertido na compra de uma obra realmente importante. Mas a decisão de venda não cabe ao Museu, é da Câmara dos Vereadores. É temerário no Brasil flexibilizar a gerência de quantias vultosas, mas submeter o acervo do Museu a voto no legislativo parece demais. O controle público sobre o MAP deveria ter outra forma, mais filosófica que pontual; e a gerência do Museu deveria ser pautada pela confiança em uma equipe de profissionais de museu e de artes. A substituição da Priscila pelo duvidosamente qualificado “gestor” indicado pelo Prefeito só torna mais distante o acervo que desejamos para o MAP.
→ Arte Crítica Museu de Arte da Pampulha Bolsa Pampulha Marcelo Drummond Acervo Paulo Schmidt José Alberto Nemer Churchill Priscila Freire Pintura para catálogos Pesquisa Mestrado
2009-05-25 MAP reabre olhando para dentro
A imagem não tem nada a ver com o Museu de Arte da Pampulha. Procurei na internet por “umbigo” e, dentre belos e horripilantes, encontrei o Lula apontando para o umbigo, ou melhor, para o machucado feito por uma bala de borracha perto do umbigo. Nossa conversa é sobre “olhar para o próprio umbigo” e talvez perto dele também tenha um machucado… Não poderia deixar passar essa foto, está aí, respeitosamente e com admiração, o umbigo do Presidente: é por isso que eu gosto dele: seus gestos são diretos, quase ingênuos, e por isso tão abertos a re-significações. Mas voltando ao assunto do MAP:
Li hoje uma notícia dúbia: boa pois o Museu de Arte da Pampulha vai retomar as atividades depois da estranha (para não dizer mais…) saída da Priscila Freire (cf. 2009-04-04 e 2009-04-05); mas talvez não tão boa pois a exposição que abre dia 6 próximo será sobre as 26 edições do Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte.
O que causou minha dúvida foi essa frase de Sérgio Rodrigo Reis, autor da coluna Visuais (Estado de Minas, Caderno de Cultura, 25 mai. 2009, p. 5): “Nos últimos anos, a opção vinha sendo por uma temática contemporânea das exposições”. O verbo no passado me preocupou muito. Será que essa exposição demonstra uma vontade de retomar o modelo do Salão, extinguindo a Bolsa Pampulha? Ou pior, será que indica a intenção de direcionar o Museu para um rumo “histórico”, privilegiando os nomes já consagrados, isto é, tornando o MAP um museu modernista?
Entre 2001 e 2004, Adriano Pedrosa e Rodrigo Moura, respectivamente curador e curador assistente que virou curador em 2003, implementaram uma série de mudanças na política de colecionismo do Museu. Até então, a maior parte das obras entravam no MAP via “prêmio de aquisição”, nas diversas edições do Salão, desde 1930. O fato é que o MAP nunca tinha comprado nenhuma obra, tendo acumulado um acervo que espelhava o Salão e a vontade dos doadores; o que pode até ser interessante para a própria história do Museu, de seu Salão e das relações com a sociedade belo-horizontina, mas insuficiente para que seu acervo se tornasse significativo além da restrita área de influência do Salão e além do gosto dos colecionadores mineiros.
Vik Muniz foi a primeira aquisição do MAP, em 2002, que continuou comprando, recebendo contrapartidas e transferindo obras de outros museus de forma ativa até pelo menos agosto de 2008, quando, já sob curadoria de Marconi Drummond (que voltou agora), foi realizada a exposição Procedente >> MAP: novas aquisições, com Alexandre da Cunha, Ana Maria Tavares, Cristiano Rennó, Damian Ortega, Débora Bolsoni (BP, 2005, ie. 28º Salão), Fernanda Gomes, Gedley Braga, Gilvan Samico, Isaura Pena, Jac Leirner, Laura Belém (BP, 2004, ie. 27º Salão), Mabe Bethônico (com obra inédita no MAP), Marilá Dardot (BP, 2004, ie. 27º Salão), Mary Vieira (com obra inédita no MAP), Márcia Xavier, Máximo Soalheiro, Nuno Ramos, Patrícia Leite, Regina Silveira (com obra inédita no MAP), Rivane Neuenschwander, Roberto Bethônico, Rodrigo Andrade, Rosângela Rennó, Sandra Cinto, Sonia °S Labouriau, Sônia Lins e Valeska Soares. Além dessas aquisições, não tenho notícia de outras… Vou conferir depois.
Como assinalado, três artistas participantes da Bolsa Pampulha tiveram suas obras adquiridas pelo Museu, não como premiação, mas por terem sido consideradas importantes para o acervo. A diferença não é sutil, bem como não é sutil a diferença entre Bolsa Pampulha e o Salão. As três edições da Bolsa Pampulha foram oficialmente as 27ª, 28ª e 29ª edições do Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte, mas o modelo do salão de arte foi descartado em prol de uma residência artística de um ano, na qual os artistas contaram com a orientação de nomes importantes da arte brasileira. Oportunamente, vale dar uma lida no artigo A (im)pertinência dos salões, em que Paula Alzugaray relata um debate com Adriano Pedrosa, ainda na onda da Bolsa Pampulha.
Todos estes artistas, acredito, expuseram no Museu, mas ao menos três obras adquiridas eram inéditas no MAP. Isso demonstra uma certa continuidade entre história do Museu e aquisição, mas também uma importante maleabilidade. O que importa a um acervo não é necessariamente o que foi exposto na instituição que o abriga, mas o que é relevante para a coleção dessa instituição. Isso é ainda mais importante para o MAP, cujas características físicas geralmente tornam fúteis as tentativas de montar uma exposição tradicional. Em 2008-09-09, por exemplo, escrevi sobre a briga dos tapumes com a arquitetura na exposição de Adriana Varejão, o que considerei um retrocesso.
Era um retrocesso pois a maior mudança do MAP na virada do milênio foi privilegiar obras que dialogassem com o edifício projetado por Niemeyer nos anos 1940 para ser um cassino. Tratava-se de um duplo movimento: por um lado, acatava-se a invencível arquitetura, mas por outro, criava-se um diferencial em relação aos outros museus do país: as peculiaridades do espaço demandariam exposições verdadeiramente específicas. Específicas mesmo: o Salão Nobre é inclemente e não perdoa site-specifics portáteis, transportáveis, isto é, falsos site-specifics.
Um caso recente foi a exposição de Angela Detanico e Rafael Lain, em maio de 2008. As obras que estavam no Salão Nobre pareciam deslocadas e sem relação entre si – o que não parece ter sido intencional pois em outros espaços há um discurso homogêneo entre as obras. Um dado tempo, por exemplo, foi criado especificamente para o MAP, mas ficaria melhor em uma galeria tradicional, a não ser que a intenção tenha sido criar uma obra diluída, algo muito diferente do que apreendemos pela fotografia mostrada no simpático site da dupla. O objeto ficou perdido no teto como se fosse algo sem relação com Um dado lugar, que estava, por sua vez, perdido no piso.
Uma das questões centrais da Bolsa Pampulha foi preparar os jovens artistas para lidar com esse espaço indômito onde só há uma parede (no Mezanino): a proposta era substituir a metáfora do “cubo branco” pela “caixa de jóias”, substituindo também o portfolio pela convivência cúmplice, doméstica, visando, como disse Adriano Pedrosa, uma “personalização do museu” pelo contato estreito do artista com a instituição. Um museu que só tem uma parede não aceita portfolio, isto é, porta-fólio, folhas de papel… A metáfora da “caixa de jóias” parece bem apropriada: só aceita coisas pessoais.
Não sei se a exposição programada tem a intenção de preparar o retorno do modelo de salão, com seus portfolios e prêmios de aquisição. Para mim seria um grande erro, não só para o Museu, mas também para os artistas daqui e de fora que vêm para cá. O Museu perderia sua especificidade, reduziria a alguns dias a duração de sua influência, e restringiria novamente seu acervo a um desabrochar que raramente é coerente com o verdadeiro impulso colecionista de um museu importante. Os artistas, todos, não só os jovens, perderiam com o fim da convivência e da troca, bem como com o retorno de uma mineiridade que só deu mais ou menos certo na música… Isso sem falar no público, para quem ir à Pampulha vinha deixando de ser longe demais. Para ver um acervo estabelecido de arte contemporânea, teremos que voltar a viajar? Ao menos a viagem não será tão longa mais: Inhotim. (Bom, tem também o Palácio, mas não é sua função ter um acervo…) Mas porque não ter dois, três, dez museus com acervo de arte contemporânea?
Espero que o marco da exposição, o 26º Salão, seja apenas uma coincidência (as três aquisições da Bolsa Pampulha foram mostradas muito recentemente) ou um erro de comunicação com o jornalista. Espero mesmo que não seja uma pressão dos antigos contemplados para voltar com exclusividade ao Museu. Espero que não seja mais uma ameaça à Bolsa Pampulha e ao MAP como referência em arte contemporânea. Espero… que todos os meus medos sejam injustificados. Confio.
Sei que será uma ótima oportunidade para confrontar os catálogos dos Salões com as obras do acervo tão pouco visto. Olhar para dentro é bom: o Museu de Arte da Pampulha tem muitos espelhos que desviam nosso olhar para fora.
→ Arte Crítica Museu de Arte da Pampulha Bolsa Pampulha Marconi Drummond Rodrigo Moura Adriano Pedrosa Acervo Colecionismo Pintura para catálogos Pesquisa Mestrado
2009-04-05
“Na minha opinião ela já foi tarde!”, disse um colega.
Mas colocar no lugar uma pessoa que nada tem a ver nem mesmo com Belo Horizonte, ainda menos com arte? Nas palavras do Sr. Martim de Andrada: “A escolha foi por critérios do prefeito e da Fundação. Eu aceitei porque entendo ter algo a somar. O fato de eu ser advogado e ex-prefeito pode agregar na função de gestor do museu.” (Tempo) E aí fica a pergunta: o que, afinal, um advogado (como advogado) e ex-prefeito (como ex-prefeito) pode “agregar” a um museu? Um museu de arte, sabemos, exige um diretor que pelo menos saiba o que é um “museu de arte”.
O MAP tem ido bem nos últimos anos justamente porque os responsáveis por ele finalmente compreenderam seu papel para a arte contemporânea de BH. A Bolsa Pampulha, já tão ameaçada, vai continuar? E o que o Museu passará a exibir? Digamos que o Marconi ou outro curador venha a propor uma exposição polêmica e que seja essencial hoje; um Leon Ferrari, que adoramos, por exemplo. Será que o Sr. Martim, o “gestor”, terá cacife ou vontade para sustentá-la? A Priscila ao menos teria vontade.
Na verdade, todas as indicações da Fundação Municipal de Cultura foram estritamente “políticas”. Excetuando o Carlão, que tem alguma relação com o teatro e entrou na Diretoria dos Teatros, nenhum dos outros, parece, jamais trabalhou com cultura. Incluíram MAP, Casa do Baile, CRAV e MHAB no loteamento comum de cargos. Isso é um problema sério, acho. Será que essas instituições devem ser tratadas como SLU, Sudecap e BHTrans? Não havia nos partidos da coligação nenhum artista, curador, crítico ou “amigo do Museu” para colocar no MAP; nenhum cineasta, artista do audiovisual, historiador do cinema ou “amigo do CRAV”; nenhum historiador ou cientista da conservação para o MHAB? Será que não?
Talvez o pior seja isso: o critério de escolha, parece, foi não ter qualquer relação com os movimentos artísticos e culturais, como se tal relação fosse, antes de tudo, suspeita.
→ Arte Museu de Arte da Pampulha Priscila Freire Martim de Andrada
2009-04-04
Saiu ontem (só li o jornal agora) e já deve estar todo mundo sabendo. A prefeitura Lacerda e seus “gestores” mostraram as mangas na cultura de BH. Todos os diretores foram substituídos por pessoas totalmente alheias à cultura. O caso que mais me condoeu foi o Museu de Arte da Pampulha: a Priscila Freire, que cuidou muito bem do MAP por anos, foi substituída por Martim Francisco Borges de Andrada, ex-prefeito de Barbacena, que é um advogado-“gestor”!
Pelo menos o Marconi e a Fabíola continuam.
Pelos votos da Priscila, acho que estamos fu! :
- E que o novo diretor tenha força de fazer caminhar o pensamento dos artistas jovens de Belo Horizonte, desses artistas que estão fazendo coisas novas, revolucionárias, e que estão sendo acolhidas pelas galerias de arte do Rio e de São Paulo. Agora, quem não acompanha isso não percebe a importância. (Tempo)
→ Arte Museu de Arte da Pampulha Priscila Freire Martim de Andrada Marconi Drummond Fabíola Moulin
2008-09-09
Publiquei aqui no site meu artigo sobre o contexto artístico de Belo Horizonte, publicado no jornal Papel das Artes, nº8.
Não é, de longe, um artigo polêmico. Nem sei se alguém ficou contrariado. Mas se ficou, foi porque explicitei minhas preferências; principalmente pela Bolsa Pampulha – que, dizem, está sob “ataque”. Como não tenho certeza de tal ataque, optei pelo elogio rasgado.
O engraçado foi que o lançamento do artigo coincidiu com algo que identifico como um retrocesso dentro do MAP. A forma como a exposição da Varejão foi montada parece um retorno a anos atrás, com aqueles tapumes brigando contra a arquitetura. E o melhor foi o texto do panfleto distribuído na ocasião: “[…] o grid das telas de Adriana Varejão, tomado pela imensa ortogonalidade das linhas, dissolve-se nos reais elementos arquitetônicos do antigo cassino […]”.
Parece até o Galvão Bueno narrando futebol: ele vê um jogo, a gente outro. O Ronaldinho perde a bola e ele “QUAAASEEE que o Ronaldo faz um gol! Quaaaseee! Que pena: está tão bem…”: “QUAAASEEE que a pintura da Varejão se dissolve na arquitetura! Quaaaseee! Que pena: não fossem os tapumes… a gente veria isso acontecer.”
→ Arte Crítica Belo Horizonte Papel das Artes Museu de Arte da Pampulha Bolsa Pampulha Adriana Varejão
2008-04-08
Ontem fui ao lançamento de três belas exposições no Palácio: Patrícia Franca, Os Quatro Temperamentos; Marcelino Peixoto, Aquarela entre Aquarela; e Fernando Augusto, A Biblioteca do Artista.
Este último trabalha, entre outras coisas, com catálogos, “violando-os”. O tema da biblioteca tem aparecido freqüentemente, como em trabalhos de Rosângela Rennó, por exemplo. Mas Fernando o trata de maneira bem diferente. Tenho que rever com mais calma para PinturaCatálogos.
O Marcelino está numa fase maravilhosa! Em 2007-07-13, falei sobre “o incessante trabalho de contorno e sobreposição” e como isso me parecia compulsivo. O contorno cedeu a uma espécie de pulsação horizontal; e a “compulsão” parece agora aceitar sistemas de repetição, como o reaproveitamento da fita crepe que antes havia sido usada como máscara. Sem dúvida não há nas aquarelas automaton e tiquê, mas prazer: o prazer de fazer e o de ver.
A princípio, o trabalho de Patrícia Franca me pareceu um entre hermético e óbvio, estando, portanto, num lugar impossível… O convite da exposição é ilustrado com quebra-cabeças (mesmo) e a exposição é um quebra-cabeça sobre os três estados propostos por Hipócrates: colérico, fleumático, melancólico e sangüíneo. OU não: é óbvia? Esse entre me pareceu cada vez mais interessante: parece haver possibilidade de decifração dos diagramas, imagens, cores e textos que Patrícia mostra, mas assim que a chave interpretativa vem à mente, foge. Há ali um não-sei-o-quê e isso é ótimo.
→ Arte Palácio das Artes Exposição
Mudando de assunto. Saiu o número da A-Desk com os textos resultantes do workshop MAPCríticaContexto. O meu texto, Absorber el espíritu de resistencia, não foi dos mais inspirados… O que melhor resume nossas discussões é a “tira” de Fabrício Carvalho: Soluções práticas para pequenos problemas temporários. Vou dar uma lida em todos os trabalhos e volto a comentar aqui.
2008-04-01
Hoje é dia da mentira e da Mentira! 64 NUNCA MAIS!
Uma série de coincidências me levaram hoje a Gilbert & George. O segundo filme, sobre como eles indexam tudo, parece interessante para PinturaCatálogos.
Mudando de assunto. Em 2007-05-14 fiz uma pequena anotação sobre a peripécia de Yuri Firmeza no Museu de Arte Contemporânea do Ceará. Ele agora é bolsista do MAP. Nas discussões após- MAPCríticaContexto, Elisa Campos resgatou da Agência Estado:
- Seria um acontecimento. O japonês Souzousareta Geijutsuka, anunciado pela imprensa cearense como um dos principais nomes da arte contemporânea universal, era ansiosamente esperado semana passada em Fortaleza, para abrir a exposição Geijitsu Kakuu. Convidado especial da curadoria do Museu de Arte Contemporânea do Ceará, Geijutsuka mostraria ao público cearense por que seu trabalho é aclamado em todo o planeta como uma obra revolucionária que, segundo o material de divulgação de sua eficiente assessoria de imprensa, incorpora “novos conceitos à arte”, como os de “operação em tempo real, simultaneidade, supressão do espaço e imaterialidade”. Os jornais locais deram amplos espaços para a divulgação da exposição. Um deles chegou a publicar, no dia marcado para a abertura do evento, uma entrevista de página inteira com Geijutsuka. Tudo perfeito, não fosse um detalhe: Souzousareta Geijutsuka não existe.
E o amigo Vicente Pessoa mandou a seguinte notícia:
- Isso [a performance do Yuri] é muito parecido com o que fizeram un grupo de artistas faz alguns anos ao criar o personagem-artista sérvio Darko Maver. Eles foram ainda melhores sucedidos pois enganaram até a 48° Bienal de Veneza com trabalhos que poderiam ser encontrados em sites de fotos violentas na internet. Tem uns links sobre a historinha: [1], [2] e Youtube:MrIfuFpOalA.
No final do vídeo, lemos:
- A performance that elevated media manipulation to the status of art, and that transformed the most radical mythopoeia in one of its highest forms.
Acabo acreditando nisso: a ação mais radical hoje é invadir o museu e/ou criar mitos que o destruam.
Na época, achei muito corajosa a iniciativa do Yuri e, agora, com tal background, gosto dela ainda mais: há duas camadas: 1) Souzousareta Geijutsuka não existe e 2) isso já havia sido feito.
→ Arte Crítica Museu de Arte da Pampulha Pintura para catálogos Pesquisa Mestrado
2008-03-27
Reunião do GrupoPesquisa. Este semestre, vamos discutir textos essenciais do Hal Foster, a começar do Artista Como Etnógrafo.
Aproveitamos para conversar sobre as novidades em Inhotim – quem viu gostou muito dos novos pavilhões, um de Doris Salcedo, com a obra Neither, e outro de Adriana Varejão. E também sobre o panorama das artes em BH. Comentamos a decisão da curadoria do MAP de obrigar os participantes da Bolsa Pampulha a exporem fora do Museu (na cidade), e aventou-se a possibilidade de isso ser – apesar das aparências – um retrocesso na proposta da Bolsa: não estaria a “velha cepa” loteando novamente o espaço expositivo do Museu, empurrando para fora do “lugar nobre” os jovens artistas? Há, parece, atas da Fundação Municipal de Cultura que comprovam essa suspeita. Hei de procurá-las ainda hoje.
Essas questões me interessam muito. Desde o artigo que escrevi para o MAPCríticaContexto, ando pensando se não houve mesmo uma mudança significativa em Belo Horizonte. Iniciei a pesquisa PinturaCatálogos com o pressuposto de que BH ainda era muito carente de instituições sólidas, apesar das experiências importantíssimas de Inhotim, da Bolsa Pampulha e do Palácio. Talvez tenha sido exagero meu ou realmente uma mudança radical no panorama nesses últimos dois anos.
Esta semana, o jornal Pampulha (pequeno semanário da família Medioli) foi inteiramente dedicado ao recente boom aqui. Uma das matérias tem como título “BH se firma como pólo produtor e difusor de arte contemporânea com exposições significativas e sedutoras”. Cheguei a ser procurado por uma das jornalistas, mas acabei não tendo tempo para contribuir. Na ocasião, me chateou um pouco a (insistente) inclusão da mostra de Gringo Cardia que, apesar de muito significativa, não deve (a meu ver) ser confundida com arte contemporânea. Para mim, trata-se de um importante e prolífico designer, que merece reconhecimento como tal e não como artista. Fora isso, a iniciativa do jornal é muito bem vinda.
Então talvez tenha mesmo ocorrido uma mudança em BH. Dois anos atrás, por exemplo, encarava o Inhotim com muitas reticências. Acreditava ser iniciativa descolada da vida artística belorizontina, algo afastado da cidade física e filosoficamente. Mas tive notícia de que tem sido notável o salto de qualidade dos alunos da EBA que trabalham lá como monitores. Isso muda tudo: a formação é (para mim) a principal tarefa dos museus, notadamente os de arte contemporânea.
Parece ter se estabelecido sim uma ponte entre Inhotim e BH; o que talvez seja fruto da contratação do curador Rodrigo Moura em 2006 – a quem cabe nossos parabéns.
→ Arte Museu de Arte da Pampulha Inhotim Palácio das Artes Belo Horizonte
2008-03-06
Lançamento do catálogo Neovanguardas do MAP. Pouca gente gostou das palestras de Frederico Morais e de Márcio Sampaio. “– Ficaram só contando estorinhas”, disseram. Mas eu gostei muito! Não eram estórias, mas história. Acho que o papel deles era esse mesmo, resgatar um passado – no mínimo – brilhante da arte brasileira. Havia muita coisa para anotar, mas acabei não tomando nota de quase nada, absorto que estava. Um punctum dolens foi:
- A curadoria deve ser uma extensão da crítica de arte e esta não deve ficar limitada à palavra escrita. (Frederico Morais)
(Parêntesis: No workshop MAPCríticaContexto, foi muito discutida a relação entre crítica independente e institucional. Nele escrevi uma pequena resenha sobre o imperativo “ir para fora do museu” naquela época e hoje, lidando com essa relação segundo o que penso ser uma espécie de esquizofrenia. Se o texto não for publicado na revista A-Desk, publicarei aqui.)
Depois fui tomar uma cerveja com o Ariel. Discutindo sobre a palestra do Márcio Sampaio, que repetiu inúmeras vezes a palavra “sacada”, concluímos:
- Sacada é outro nome de insight. Se em inglês vale, porque não deve valer em português? Então, vamos respeitar!
Piadas a parte, vale mencionar que o catálogo é talvez o melhor já lançado pelo Museu:
Catálogo Neovanguardas do MAP, com a série Quinze Lições sobre Arte e História da Arte de Frederico Morais
2005-07-04
Assisti à mesa-redonda Acervo Espelhado: Histórias da Coleção no Museu de Arte da Pampulha, com a Mabe, a Piti, Marília Andrés e Paulo Schmidt. Cada um discutiu sobre a obra que escolheu (como artista-curador) para a exposição.
| artista-curador | artista escolhido |
| Marília Andrés | Iole de Freitas |
| Mabe | Frederico Morais |
| Piti | Amadeu Lorenzato |
| Paulo Schmidt | Winston Churchill |
Marília Andrés ressaltou o papel da exposição Território Vazado, realizada no MAP em 1999, para o desenvolvimento dos trabalhos site-especific de Iole. Sua escolha, ao que parece, foi bastante influenciada pela linha curatorial do Museu nestes últimos anos.
A Mabe, justificando sua escolha pelo audio-visual de Frederico Morais sobre os trabalhos de Artur Barrio, descreveu como se propôs a fazer uma espécie de negociação forçada com o crítico-artista, constrangendo-o a se posicionar e a participar da atualização (do virtual para o real) de sua obra. No relato sobre essa negociação, lançou diversas questões sobre a coleção do Museu, sobre a ausência de um catálogo ilustrado, sobre o desconhecimento do acervo por parte dos próprios artistas, sobre a conservação…
A Piti levantou questões muito relevantes sobre os projetos político-culturais por trás do modernismo brasileiro (incluindo ai o Conjunto Arquitetônico da Pampulha) e justificou sua escolha por Lorenzato como contraponto que nos permite “lembrar das cidades ocultas que sobrevivem e perduram nas bordas de nossa orgulhosa modernidade”.
Sobre Paulo Schmidt falo mais tarde, se der.
→ Arte Museu de Arte da Pampulha Acervo Mabe Bethônico Piti Marília Andrés
Tarde!
– Anônimo 2009-04-15 23:10 UTC
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