2009-09-24 Diálogo pelo catálogo
De: Hélio Nunes Assunto: Catálogo-obra, catalobra, obremcatálogo Para: Marcelino Peixoto

Diálogo pelo catálogo com sem título (Ação de tornar visível as seis faces de um cubo) de Marcelino Peixoto.
Olá Marcelino,
Obrigado! Recebi ontem seu catálogo e brinquei bastante com as várias possibilidades de remontagem sobre o cartaz, usando a sobrecapa como objeto tridimensional (ou um prisma triangular, ou um paralelepípedo aberto) e também como um plano adicional cobrindo algumas lacunas brancas de papel.
É engraçado como uma coisa tão simples quanto uma sobrecapa que fica de pé sozinha influencia tanto numa noção que me é muito cara, que é a de ter-reproduzido, isso é, fantasiar possuir a obra tocando sua reprodução.
Poderíamos pegar esse cartaz, emoldurar e colocar na parede. A moldura teria um papel de passagem semelhante ao arcaico: antes ela representava a passagem do ateliê ao espetáculo, agora, seria da reprodução para a obra rediviva. Mas sentimos logo a artificialidade disso, tal como nesse “Vicent” (escrito com letras douradas) aqui na minha frente, numa moldurinha azul; moldurinha igual à de outro Vicent, um pouco diferente, mas igual à do Picasso, que, por sua vez, é um pouco diferente, mas também igual à do Bosch etc.: no final, a moldura e a verticalidade da parede acabam atrapalhando o ter-reproduzido, as obras vão remorrendo, ficam distantes e se vão.
Então esse cartaz, saído da plataforma de uma impressora, fica melhor como plataforma ele mesmo, horizontal, desdobrado no chão de tacos parecido com o chão que aparece na fotografia de sem título (Ação de transferir 714 fitas adesivas pintadas em aquarela) que ele traz. Ele se torna uma superfície receptiva a qualquer artefato crítico que me ocorra, e transmite essa crítica – em atraso, mas transmite – para a obra que, nesse ter-reproduzido, se torna aderente às minhas manipulações.
Pois manipular a reprodução assim, aproveitando a gramatura, dobrando melhor, invertendo a dobra, alisando, é uma forma de reavaliar a obra, é uma pós-produção crítica.
O que essas fotos mostram, acho, é essa oportunidade que só o ter-reproduzido dá. Numa desfaço o caráter de demonstração de sem título (Ação de tornar visível as seis faces de um cubo), noutra o sem título (Díptico) vira um tríptico. E mais tentativas, outras novas críticas, me aproximando mais e mais da obra. E assim fazendo sinto melhor a presença da obra; presença em atraso, mas presença.
De: Marcelino Peixoto Assunto: Re: Catálogo-obra, catalobra, obremcatálogo Para: Hélio Nunes
Suas boas novas imagens me pegam em trabalho. Um papel grande horizontalizado de gramatura 400 e uma linha espessa de Malva. Abro, após esta escrita, outro papel a receber o deslizamento da tua escuta. Vou experimentar multiplicar esta imagem. Além dos despojos-obras de Transferência, recebi quinhentos outros catalobras desses. E, por um descuido dos cuidados, não tem data.
De: Hélio Nunes Assunto: Re: Catálogo-obra, catalobra, obremcatálogo Para: Marcelino Peixoto
Não tem data: é intemporal.
→ Arte Crítica Marcelino Peixoto Cemig Pintura para catálogos Pesquisa Mestrado
2007-07-13
Ontem fui a duas exposições: Arqueologia, de Marcelino Peixoto, na Copasa e Reserva II, continuação do Projeto Território II, oficina orientada por Laís Myrrha e Cinthia Marcelle, no Museu Mineiro. Da primeira, saí com meu catálogo, da segunda com um post-it.
São propostas distintas, mas guardam algo em comum: os espaços discursivos de ‘arqueologia’ e de ‘reserva’ são bem próximos. O que fazer, senão forçar uma aproximação pela via da linguagem? A primeira palavra que vem à mente é escavação. E, dela, soterramento.
O que há de escavação e de soterramento nos trabalhos de Marcelino? São trabalhos de uma genealogia bem óbvia: formas aleatórias servem de base para um incessante trabalho de contorno e sobreposição. Enquanto o artista acumula camadas dessa tinta transparente e fina que é a aquarela, parece escavar em si suas próprias questões. Certa vez, em tom de brincadeira, falei para ele que esse tipo de compulsão é uma espécie de psiconeurose de defesa; eu estava relacionando seu labor repetivo com a pulsão de morte. Automaton e tiquê, entretanto, relacionam-se a algo inassimilável, a um eterno retorno diante do real, o que não me parece o caso, dadas as múltiplas implicações da translucidez. Jogando com a palavra, trans-lúcido poderia ser para além de lúcido, para além da posse de suas faculdades mentais. Acontece que, à forma automática inicial, parece suceder um processo construtivo, muito distinto dos procedimentos surrealistas, por exemplo. E o que me permite essa conclusão é justamente a translucidez da tinta: não me parece haver segredo ou repressão, não ocorre uma operação divergente do princípio do prazer: o que ele escava em si é o prazer da tinta e da cor – foi assim que compreendi primeiro ouvindo-o, depois olhando. Portanto, aí, soterramento é escavação, trazer à luz, abrir.
E o mesmo acontece com a instalação no Museu Mineiro. A imagem soterrada por post-its se torna mais visível justamente porque invisível. Na instalação anterior, com percianas cobrindo os quadros, já havia ocorrido isso. A interdição causa uma necessidade de aproximação; nosso olho busca focar dentro, atravessar a persiana e atravessar o vidro opacificado. O próprio conceito negativo de museu como um lugar que tira do invisível e leva para o invisível, para a reserva, é usado a favor da visibilidade. Essas camadas que os artistas da oficina vêm sobrepondo ao acervo do Museu Mineiro são também translúcidas.
Mas a escavação não pára aí. O conteúdo das notas foi colhido em uma dissertação sobre a conservação da obra. Em minha pesquisa PinturaCatálogos, abordo a necessidade de criar um tipo de catálogo que mostre os subterrâneos do museu e principalmente as operações “endoscópicas”, típicas da conservação. Nada melhor que colher o lembrete “Fig. 53 – início da limpeza das asas”. E, ao fazê-lo, abrir a tumba (como diria Didi-Huberman); mas com a certeza de que – como escreveu Carlos de Brito e Mello sobre o trabalho de Marcelino: “o trabalho arqueológico não consegue encerrar-se com a abertura da tumba.”
Após essa aproximação forçada de duas exposições tão díspares, visitadas na mesma noite, só me resta como alternativa:
→ Arte Crítica Marcelino Peixoto Copasa Museu Mineiro Pintura para catálogos Pesquisa Mestrado



