2009-10-15 O professor e a Globo
Amore, Mamãe e Papai, amigos Fofão, Otto, Pinta, Paulinho, Rosana e tantos outros, Piti – A Minha Professora, ou como diz Laís, Oráculo –, a todos: feliz dia dos professores!
É uma profissão que me cerca, da qual sempre me cerquei, e que começo a exercer um pouco tardiamente, ainda esporadicamente, mas com empolgação de menino.
O lugar-comum tem sua razão: estudar tanto para ensinar e aprender tanto ensinando. Rever tantas imagens, tantas obras de arte, tantos discursos da arte, para mostrar, e mostrar-vendo; isto é, estar lá na sala de aula mostrando e discursando sem o atraso, o delay, sem o abrigo da escrita, e ver nesse contexto. Algo ocorre comigo em sala, um impulso para a sedimentação, como se a incorporação de uma função mais imediata – mas de repercussão duradoura – transformasse todos os anos pesquisa e arquivamento disponíveis e práticos. Dar aula exige a construção de decisões que na escrita deixaria a cargo da dubiedade. Decisões que são provisórias, que surgem muitas vezes do insight, conexões inéditas para mim até o segundo em que são proferidas por mim, e que são postas à prova imediatamente na sondagem de um olhar, numa interpelação, num brusco murmurinho. A história da arte como tentativas (de criação e de escrita) e a crítica de arte como por em crise assumem ampla significação nesse mostrar-vendo, nesse embate imediato de teses e antíteses que transformam as obras no instante de sua apreciação coletiva.
Dar aula é um desafio apaixonante pois reanima minha paixão pela arte e pela pesquisa da arte. Não é um fardo, mas um exercício que fortalece, pois eu confio na minha formação.
Essa frase – “Eu confio na minha formação!” – foi dita agora há pouco por um professor entrevistado pelo Bom Dia Brasil da Globo, cujos apresentadores, antes mesmo de nos parabenizar, disseram que o problema dos professores não é o salário, mas a formação. Nem seria necessário comentar a idiotice de tal separação: a remuneração ridícula é o principal obstáculo à formação, pois um professor horista tem que trabalhar três turnos para “fazer” alguns trocados. Revoltante como instrumentalizaram as entrevistas dos professores para impor o ponto de vista de que lecionar é “profissão de fé” e nos culpabilizar de todos os problemas educacionais brasileiros. O jornalismo da Globo é profissão de má-fé sem dúvida. Educar é apaixonante, mas é também ganha pão. Se somos dignos pelo que fazemos, devemos ser também ser reconhecidos com o pedaço de pão que merecemos. Nossos alunos não aprendem de barriga vazia, nem nós.
Mas o que eu fiquei mais impressionado foi a introdução da ladainha contra o ensino transformador das ciências humanas, contra a formação “ultrapassada”, dos teóricos da “cortina de ferro” etc. Alexandre Garcia seu pulha, porta-voz estrito senso da ditadura, você é ridículo! Devemos excluir apenas Marx ou todos os pensadores clássicos? Na história devemos deixar de lado um Hobsbawm, ou um Perry Anderson, para dar lugar a um bostinha feito Fukuiama?
Nas artes, devemos esquecer Benjamin, Adorno, Sartre e falar de quem? Que atualização você propõe? É… apesar de ler artigos acadêmicos todos os dias, não consigo me “atualizar” pois todos os autores pertinentes têm ao menos um pé em alguma teoria libertária… Foucault, Barthes, Deleuze, Derrida, Eco, Hal Foster: como fugir deles? Talvez algum norte-americano obscuro, pouco fiável, formalista?
“Viva a teoria neoconservadora, a única sempre atualizada” – é isso?
Ora. Ensinamos esses autores não só porque são clássicos, mas porque são transformadores. Se não é para transformar o mundo, para que ensinar? Que fique claro, é isso mesmo, tenham medo: queremos um mundo diferente e ensinamos para um mundo diferente.