2010-11-12 Fotografia e mercado
“Mercado de arte” sempre foi um tema espinhoso e geralmente muito mal compreendido, dadas as posições sintomaticamente antinômicas: negação, aceitação tácita, aceitação comemorativa etc. (Seria uma proposta válida criar uma disciplina específica nos cursos de arte?)
Some-se a isso uma das características mais essenciais da fotografia, a reprodutibilidade técnica, que bem serviu de arma contra a reificação das obras de arte, pela possibilidade de desfazer o fetichismo; mas cujo controle – tiragem e encarniçamento dos direitos autorais – transforma-a tão-só num mecanismo de equilíbrio do valor de mercado, resultando na capacidade de transformar uma produção, por definição, ilimitada quantitativa e qualitativamente – me refiro aos inúmeros formatos e materializações possíveis de uma mesma foto – em um objeto artístico ou artificado (por definição, limitado e com aderência de alguma aura, por mais fina que seja).
Ora, então “fotografia e mercado” é um tema dos mais emocionantes e é muito bem-vindo o simpósio A Fotografia e o Mercado das Artes, promovido pela Fototech-MG, “junto ao Departamento de Fotografia, Teatro e Cinema da UFMG”, segundo email que recebi.
Não creio que o tema venha a ser tratado nesses termos que expus, mas confio, principalmente, que o amigo João Castilho – cuja palestra é “O fotógrafo e a obra artística” – trará boas questões para o debate.
2010-03-26 Convite A Construção do Real
Gostaria de convidá-los para o colóquio A construção do real: fotografia, documento, ficção que contará com a participação de André Rouillé, autor do livro A fotografia entre documento e arte contemporânea.
Minha palestra será dia 16 próximo, com a seguinte ementa:
- A fotografia do museu
- A partir de uma imagem paradigmática de 1965, digressaremos das teorias mais partilhadas sobre a fotografia e elaboraremos uma série de comparações com obras contemporâneas que também “fotografam o museu”, visando assim abordar politicamente o próprio museu e a obra de arte fotografada no momento de sua exposição. Com isso discutiremos a formação de um espaço discursivo específico pela radicalização da recriação fotográfica e procuraremos introduzir a noção de dupla substituição/duplo registro, que torna indesejável a oposição original/cópia ao revelar as verdadeiras razões da valorização da originalidade.
2010-01-19 Uma foto de Ouro Preto
Não há melhor lugar para descansar. Wanda e eu vamos todos os anos, geralmente em janeiro – eu gosto do calor e de alguma chuva em Ouro Preto: para mim é uma cidade de veraneio, pois acho difícil suportar as noites frias e sempre arrumo uma torção no inverno…
É impressionante como sempre somos bem recebidos na Hospedaria Antiga, onde ficamos no quarto voltado para a ladeira de Santa Efigênia, de onde podemos ver também o Pico do Itacolomi. Além disso, sempre comemos maravilhosamente no que chamamos, brincando, de "truste" dos Tropia; e bebemos a “fresca” nos botecos “da última” espalhados nos cantinhos da parte mais baixa da cidade. Não há nada melhor que tomar uma cerveja sob as árvores próximas à Ponte da Barra ou no largo atrás da Igreja do Pilar.
Por isso, para achar esses lugares, andamos sempre a pé, sempre: não se conhece Ouro Preto de carro, é necessário andar e muito. Para mim, que geralmente fico uma semana, subir e descer as ladeiras só é difícil no primeiro e no último dias: no primeiro falta preparo físico, no último a panturrilha dói um pouco.
Mas vale a pena, pois há sempre um ângulo, uma figura, um acontecimento; e, sobretudo, há a população. Nos cafés geralmente há um artista ou intelectual para conversar, mas o especial é o trabalhador ouro-pretano. Na rua, pedimos informações mesmo sem precisar só para puxar papo: são todos sempre solícitos, amigáveis e altivos (ainda mais agora, com os avanços na área social do Governo Lula), sem a timidez e a falsa subserviência que incomoda em algumas cidades interioranas. Há claro, muita gente se oferecendo como guia turístico, mas nunca são incômodos; basta recusar uma vez.
Depois de subir a ladeira de Santa Efigênia, sempre encontramos um bom conversador – acho isso muito interessante. Dessa vez a Igreja de Santa Efigênia estava fechada, em restauração, mas visitamos o Centro de Cultura Afro-Brasileira ao lado, com uma boa exposição sobre o congado do fotógrafo Dimas Guedes. (Dicas para subir a ladeira: 1- compre água antes de subir; 2- para ir ao banheiro, basta pedir a chave na casa paroquial; 3- desça o outro lado até a Capela do Padre Faria). Dessa vez, então, a conversa foi sobre os personagens folclóricos de Ouro Preto e sobre a riqueza da “Igreja dos Pretos”, como é chamada.
Não bastasse a afinidade, a beleza de Ouro Preto é ímpar; e nós vamos lá principalmente para apreciar as formas, para sofrer um pouco a síndrome de Stendhal. Mas, por mais estranho que pareça, como artista, acho uma cidade ingrata para fotografar, pois constantemente tenho a impressão de captar as mesmas imagens clichê. É a cidade da democracia fotográfica, sem dúvida: qualquer turista tira fotos maravilhosas sem muito esforço… Do que se deduz que poucos artistas trabalharão com sucesso o casario e as igrejas de Ouro Preto…
Bom. Finalmente fiz uma fotografia de Ouro Preto que é “uma foto de Ouro Preto”, mas um pouco diferente:
2008-05-21
Vale a pena conferir na página de Luiz Monforte a parte “Fotografia pensante”, com fórmulas e procedimentos para várias técnicas fotográficas e de fotogravura. Já estou procurando os produtos químicos!
2008-02-29
Hoje as imagens passam bem sem uma legenda. Das discussões sobre a relação entre texto e imagem, fico com Barthes quando fala de uma comunicação logoicônica: “que não é a imagem nem a linguagem, mas essa imagem acompanhada de linguagem”1. A legenda, então, acompanharia a imagem, sem duelar com ela, sem determiná-la.
Mas nem sempre foi assim. Antigamente (vamos dizer: até 1950), o texto fazia a imagem falar. Marin2, lidando com o século XVII, nos diz que o texto era compreendido como aquilo que supre a falta na/da imagem. “Falta” com duplo sentido: de ausência na imagem e de erro da imagem. O texto emprestava uma linguagem à imagem, que era muda.
Vai daí que… Quando li sobre o fim da foto instantânea, pensei no fim de um lugar que o filme Polaroid representava como nenhum outro: o lugar da legenda, a borda inferior que dá ao filme seu formato sui generis, a comunhão perfeita entre soluções técnica e estética.
Na arte, é impossível mencionar “Polaroid” sem “Andy Warhol”. O interessante é que talvez tenha sido ele um dos principais responsáveis pela imagem que prescinde de legenda, ao adotar a re-produção técnica como poética.
“Re-produção”, pois é importante notar que a fotografia produzida com Polaroid é única, reprodutível apenas por outros meios. Nas obras de Warhol, a margem inconfundível não é apenas o lugar da legenda, mas também e principalmente o lugar da assinatura. É esse o punctum dolens: assinar arte, tornar única, uma imagem que é semelhante àquelas que nos soterram – as embalagens, os anúncios, os ícones pop…
A forma como Warhol tira obras de arte com sua Polaroid (veja Youtube:FYO5pN25jSc) parece demonstrar a vontade de agudizar um processo de transformação da imagem; é ontológico: acelerar uma viragem no próprio ser da imagem.
Esse novo ser da imagem artística, parece, foi alcançado hoje. Trata-se de uma imagem que – para além de não ter código, para além de ser muda – é simplesmente incomunicante e, por isso, paradoxalmente bela desde que não esteja legendada.
O fim da Polaroid não é, portanto, obsolescência de uma técnica, mas de um certo tipo de imagem. E o mais interessante disso é que a técnica nasceu justamente na fase terminal, contribuindo nela.

