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Diário

2008-05-15

Reunião do GrupoPesquisa. Discutimos o texto Antinomies in Art History, do livro Design and Crime, de Hal Foster. Adolfo apresentou o intertexto, destacando três antinomias (autonomia x subordinação, imagem x cultura, estudos visuais x estudos culturais) e propondo uma tautologia.

As palavras são difíceis, então, tal como fez Adolfo, começo com um glossário:

Antinomia
contradição entre duas correntes filosóficas igualmente críveis, mas que chegam a conclusões diametralmente opostas; duas asserções conflitantes que podem ser demonstradas ou refutadas com igual rigor; demonstra os limites da cognição.
Tautologia
uma definição que é o próprio termo definido ou este repetido em outras palavras (“X é X”); na contemporaneidade, freqüentemente, o conceito “arte” assume forma tautológica (“arte é arte”); é uma operação racional importante em alguns poucos casos, mas geralmente compreendida como solução simplista.
Oximoro
figura de linguagem que reúne palavras de sentidos originalmente opostos (“obscura claridade”, “música silenciosa” são os exemplos do Houaiss); geralmente agudiza um dos termos.

Antes de mais nada, quero adiantar a “tautologia” proposta pelo Adolfo:

[…] apesar dessas antinomias insolúveis (na antinomia, por definição, os dois lados opostos estão certos, ou então estão errados), apesar da política, da antropologia, do assédio da mídia, da economia e das ciências sociais em seus velhos ou novos paradigmas, mas também A PARTIR DELES, a arte continua achando sempre um espaço para ser produzida, para questionar e assinalar essas próprias antinomias.

Concordo com ela. Eu chamaria isso de oximoro, mas o que importa é a conclusão.

Pronto.

Quero trabalhar a primeira antinomia, entre autonomia e subordinação. Ela é muitas vezes discutida (penso eu) de maneira equivocada, como autonomia versus comprometimento ou engajamento. Acredito ser necessário resgatar essa palavra ruim, “autonomia”, ao menos filosoficamente, diferenciando-a de alienação e confrontando-a com heteronomia.

Discuti esse ponto no texto Autonomia e relação: uma ponte entre o longínquo Benedetto Croce e a arte de hoje. A questão mais importante a meu ver é evitar a imediata subordinação da arte ao contexto social. Na História (ciência) não devemos procurar explicar uma obra somente segundo os fatos externos a ela, sejam eles históricos ou biográficos. E também o inverso: uma obra de arte não pode por si ser usada como documento histórico.

Explicar uma obra apenas pelo contexto ou buscar a comprovação de um contexto diretamente em uma obra excluem uma questão que considero vital: o Fora. Trata-se de um conceito proposto por Blanchot para lidar com a literatura de Mallarmé, que escapava totalmente à expectativa da época. Sem entrar em detalhes desnecessários (cf. PensamentoFora), o que Blanchot propõe é que a literatura cria uma dobra no real, fazendo com que o Fora ali penetre. Muitas vezes ele chama o lado de fora de “deserto”, indicando o lugar do não pensado. Deleuze propõe, a partir daí, só ser possível pensar realmente o não pensado; isto é, que o que chamamos “pensar” não é verdadeiramente pensar.

A ausência de autonomia, portanto, parece excluir a possibilidade da arte criar sua própria realidade; nos impede de compreendê-la sugando o deserto para a intussuscepção (para a invaginação). Exclui, em suma, a possibilidade de criar realmente.

Por outro lado, entretanto, nenhuma esfera do pensamento e da práxis humana é autônoma. Não conheço suficientemente Kant para afirmar sobre ele, mas no caso da sua apropriação por Croce ocorre, sem dúvida, grande exagero da autonomia. Desligar a arte da moral, da religião e de todas as outras ingerências pré-modernas era sobretudo uma questão política. Mas daí autonomizar a arte de tudo o mais que não a própria poética resulta em puro idealismo. E esse idealismo, tão útil às instituições modernas e ao status quo capitalista, é a principal causa do desgaste do conceito de autonomia. A apropriação dele por um discurso dominante serviu para excluir da arte moderna qualquer significado socialmente engajado. A partir disso, “autonomia” tornou-se sinônimo de não-engajamento; o que, como se sabe, significa verdadeiramente engajamento conservador. Ora, esta “autonomia” é, na verdade, total vinculação; é o completo contrário.

Isso não ocorre apenas em um sentido. O realismo socialista, ao recusar a “autonomia” (significando engajamento de direita, contra-revolucionário), impondo por decreto um engajamento revolucionário, acabou dilacerando qualquer esperança da arte engajada ser realmente revolucionária. Há aí uma questão de competência: qual o significado e o alcance dessa noção “revolução” quando aplicada à arte? A meu ver, só é possível engajar a arte na luta simbólica se houver autonomia para criar realmente, para criar o não criado. Se a arte tem algum papel na construção do novo homem, não me parece ser outro senão ser arte do novo homem. Essa tautologia não é simplista: não existindo ainda este novo homem, não há como ele já ter sido pensado. E, portanto, é principalmente no não pensado, no Fora, que a arte engajada poderá encontrar aquilo que lhe compete revolucionar.

Essa questão me parece essencial quando analisamos, por exemplo, as acusações de não-engajamento da arte experimental brasileira dos anos 60, feitas pelos contemporâneos “engajados” (cf. texto Piti1). À distância e já em outro ponto da luta simbólica, podemos dizer que a arte dita “alienada” de Hélio Oiticica e Lygia Clark, por exemplo, avançou mais naquilo que competia à arte em um regime de exceção e dilaceração dos corpos, que a arte que figurava o próprio engajamento. O legado desta nos remete apenas a seu contexto; pouca coisa permanece dela senão a própria ditadura militar sendo combatida em um plano mais propagandístico que revolucionário. Mas H.O. e L.C. são hoje o cerne de uma tradição que dá corpo ao engajamento atual – arte processo, corpo como símbolo e como simbolizador, dissolução da separação entre espectador e criador (“todo mundo é artista”) etc.

Para mim, o verdadeiro engajamento artístico pressupõe autonomia artística. E a História, a crítica externa ao documento histórico, deve começar daí: da possibilidade (pois pode não haver) de existir na obra uma realidade própria, não pensada no contexto em que ela foi criada. Além disso, que talvez essa realidade criada seja o que a obra tem de interferência em seu contexto.

Essa proposta de autonomia porque engajamento progressista transforma a equação “autonomia versus determinação sócio-histórica” em oximoro.

Adolfo pergunta: “qual é o antônimo do conceito de Autonomia? Dependência? Vinculação? Conexão? Cumplicidade? Compromisso? Ela é sinônimo de Liberdade, de Capacidade de Autodeterminação, ou de Isolamento (na torre de marfim), de Auto-complacência, Autismo, ou ainda de Masturbação?” Eu diria que o antônimo é justamente o lexical, “heteronomia”; o que vale pouco analiticamente. Mas seus sinônimos são valiosos: liberdade e autodeterminação para vincular-se, conectar-se, para ser cúmplice e compromissar-se com o contexto social e histórico, sem, entretanto, abdicar daquilo que está Fora. Autonomia para dobrar seu contexto, portanto.

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Notas de rodapé:

1. MELENDI, “Entre censuras: escenas del arte brasilero durante la dictadura”, IVº Congreso Internacional de Teoría e Historia del Arte y XII Jornadas de CAIA “Imágenes Perdidas: Censura, Olvido, Descuido”