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Diário

2010-08-18 Isso só pode ser arte

Só pode ser arte, mas não é.
Só pode ser arte, mas não é.

Meu amigo blogueiro Fofão enviou o link Candidato posta vídeos 'picantes' no YouTube para fazer propaganda eleitoral, com o lacônico comentário: “Começou a criatividade… eu mereço…”

Com bom humor, fui ver os tais vídeos. O primeiro, Loira Sensual em Noite Secreta no Motel, chamou minha atenção pelo título planejado segundo os princípios SEO (Search Engine Optimization), de forma a coincidir com uma das buscas mais comuns no Google – “loira” e “motel”. Vi o vídeo e, diversamente dos demais espectadores que deixaram comentários irados, continuei achando graça, pois havia algo estranho, e não era a referência ao adultério – “Oi querido. Não, eu não estou sozinha. Estou com Jeferson Camillo!”

Fui ver o segundo, Negro e Loiro em Noite Secreta no Motel. O mesmo título com SEO, a mesma frase é dita, mas dessa vez, um casal homossexual. Daí não consegui mais parar de ver: Garota Revela seu Segredo no Motel – cujo segredo é óbvio desde o primeiro segundo; Loiro e Negro em Noite Secreta no Motel – isso mesmo, uma simples inversão do segundo vídeo; e por aí foi até Casal é Surpreendido em Banheira de Motel – que ganhou o seguinte comentário:

Se “algo novo” for um negão dividindo a banheira comigo num motel, morrerei votando nulo (rockmanbn).

Imediatamente pensei em Jeff Koons e numa possível apropriação da linguagem dele pelo movimento GLBTTTS, daí meu comentário:

Cara, isso só pode ser arte! É demais, muito legal como arte! Em outro contexto, talvez (aspas em cada palavra:), viria à baila o direito das minorias à auto-representação estética e política, o homoerotismo kitch e a estética GLBTTTS nas novas mídias e redes, e a forma guerrilheira/resistente como aborda o processo eleitoral e suas limitações intrínsecas em um país ainda marcado pelo preconceito de gênero etc.
Mas claro que não é nada disso, mas se fosse, o tal Camillo-artista seria fera mesmo; inclusive ao manipular o jornalista de forma que saísse no leading da matéria o jocoso “É um material provocativo desenvolvido com base em estudos sobre psicologia das massas”; que seria a etiqueta irônica característica da arte-política atual.

Se fosse arte, mereceria ir à Bienal! Trataria-se de hábil utilização de uma série de poéticas contemporâneas: 1º) um candidato fictício e uma campanha fictícia; 2º) vídeos que mimetizam perfeitamente um dos mais rentáveis braços da indústria cultural – com direito até a making of – , o pornográfico; 3º) um roteiro recursivo que reutiliza absurda, incansável e habilmente o mesmo cenário, o mesmo enredo, os mesmos personagens, a mesma música…

É uma pena não ser arte…

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2010-08-04

“Os poetas têm que se armar” – disse o poeta.

“Se armar” contra a crítica, seria o caso… Mas ele não viu o que eu vi imediatamente depois que ouvi essa frase. Eu estava assistindo televisão. E têm mesmo que se armar, penso eu: “Cidades e soluções”, Rede Globo (que apoia Serra, mas antes a mulher verde, Marina Silva, para ver se vem um 2º turno): um pimentão com uma pintinha vai para o lixo orgânico, que fica armazenado nos fundos do ‘Zona Sul’, a 5 grau centígrados, para não dar cheiro ruim, que os clientes sentiriam, mas cujo gasto em energia tem compensação, pois virá uma destinação nobre: adubo!

Vão a merda! E os empregados carregando aquele pimentão com uma pintinha… sem dúvida gostariam de ter aquele fenômeno agricultural em sua mesa! Que coisa é essa que a classe idiotamente rica e “ecológica” dispensa? E os empregados que não têm grana para comprar no ‘Zona Sul’ carregando o tal pimentão com pintinha para uma geladeira e depois para o adubo! Nem xepa, nem beira: num país de fome, isso é ecologia? Tudo muito verde, com muita responsabilidade ecológica…

Sim, os poetas têm que se armar de indignação e parar de aparecer na Rede Globo.

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2010-05-18 Documentário Grupo Poro

Saiu em fevereiro, mas só assisti agora; que pecado. O importante é que vale a pena ver o documentário sobre o Grupo Poro, não só pela qualidade e relevância das intervenções urbanas da Brígida e do Marcelo, mas também porque é um vídeo muito bem cuidado e informativo.

Interessante o “colofão” (não sei como se chama isso em vídeo):

[…] no intuito de incentivar jovens participantes de grupos e movimentos organizados a expressarem suas ideias no espaço público.

Sem dúvida é um incentivo. A meu ver, o trabalho do Poro se diferencia primeiro pelo lirismo no engajamento – “O que fazer diante de um Ronaldinho que ocupa um prédio de 30 andares?”, pergunta a Brígida, que responde “[…] na contra-mão: não é o prédio de 30 andares, mas a intervenção de 30 centímetros…”. Agora acrescento que se diferencia também pela qualidade do registro.

Isso me parece de suma importância: cada vez mais acredito que a arte deve aceitar diminuir-se para ser engajada. Entretanto, esse “diminuir-se” não é uma questão de escala, trata-se de um “caber no bolso”.

O lirismo dos 30 cm soma-se então à diminuição para a difusão.

Parabéns Poro!

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2009-10-29 Uma charge

O que fazer num dia de chuva senão uma charge?

O pintor na exposição descolado e/ou Tatogarta em nume.
O pintor na exposição descolado e/ou Tatogarta em nume.

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2009-09-24 Diálogo pelo catálogo

 De: Hélio Nunes
 Assunto: Catálogo-obra, catalobra, obremcatálogo
 Para: Marcelino Peixoto
Diálogo pelo catálogo com sem título (Ação de tornar visível as seis faces de um cubo) de Marcelino Peixoto
Diálogo pelo catálogo com sem título (Ação de tornar visível as seis faces de um cubo) de Marcelino Peixoto.

Olá Marcelino,

Obrigado! Recebi ontem seu catálogo e brinquei bastante com as várias possibilidades de remontagem sobre o cartaz, usando a sobrecapa como objeto tridimensional (ou um prisma triangular, ou um paralelepípedo aberto) e também como um plano adicional cobrindo algumas lacunas brancas de papel.

É engraçado como uma coisa tão simples quanto uma sobrecapa que fica de pé sozinha influencia tanto numa noção que me é muito cara, que é a de ter-reproduzido, isso é, fantasiar possuir a obra tocando sua reprodução.

Poderíamos pegar esse cartaz, emoldurar e colocar na parede. A moldura teria um papel de passagem semelhante ao arcaico: antes ela representava a passagem do ateliê ao espetáculo, agora, seria da reprodução para a obra rediviva. Mas sentimos logo a artificialidade disso, tal como nesse “Vicent” (escrito com letras douradas) aqui na minha frente, numa moldurinha azul; moldurinha igual à de outro Vicent, um pouco diferente, mas igual à do Picasso, que, por sua vez, é um pouco diferente, mas também igual à do Bosch etc.: no final, a moldura e a verticalidade da parede acabam atrapalhando o ter-reproduzido, as obras vão remorrendo, ficam distantes e se vão.

Então esse cartaz, saído da plataforma de uma impressora, fica melhor como plataforma ele mesmo, horizontal, desdobrado no chão de tacos parecido com o chão que aparece na fotografia de sem título (Ação de transferir 714 fitas adesivas pintadas em aquarela) que ele traz. Ele se torna uma superfície receptiva a qualquer artefato crítico que me ocorra, e transmite essa crítica – em atraso, mas transmite – para a obra que, nesse ter-reproduzido, se torna aderente às minhas manipulações.

Pois manipular a reprodução assim, aproveitando a gramatura, dobrando melhor, invertendo a dobra, alisando, é uma forma de reavaliar a obra, é uma pós-produção crítica.

O que essas fotos mostram, acho, é essa oportunidade que só o ter-reproduzido dá. Numa desfaço o caráter de demonstração de sem título (Ação de tornar visível as seis faces de um cubo), noutra o sem título (Díptico) vira um tríptico. E mais tentativas, outras novas críticas, me aproximando mais e mais da obra. E assim fazendo sinto melhor a presença da obra; presença em atraso, mas presença.

Diálogo pelo catálogo com sem título (Ação de tornar visível as seis faces de um cubo) de Marcelino Peixoto Diálogo pelo catálogo com sem título (Ação de tornar visível as seis faces de um cubo) de Marcelino Peixoto Diálogo pelo catálogo com sem título (Díptico), de Marcelino Peixoto Diálogo pelo catálogo com sem título (Díptico), de Marcelino Peixoto

 De: Marcelino Peixoto
 Assunto: Re: Catálogo-obra, catalobra, obremcatálogo
 Para: Hélio Nunes

Suas boas novas imagens me pegam em trabalho. Um papel grande horizontalizado de gramatura 400 e uma linha espessa de Malva. Abro, após esta escrita, outro papel a receber o deslizamento da tua escuta. Vou experimentar multiplicar esta imagem. Além dos despojos-obras de Transferência, recebi quinhentos outros catalobras desses. E, por um descuido dos cuidados, não tem data.

 De: Hélio Nunes
 Assunto: Re: Catálogo-obra, catalobra, obremcatálogo
 Para: Marcelino Peixoto

Não tem data: é intemporal.

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2009-09-04 Caderno diário de viagem

Trabalho de Carlos Fonseca

Vale a pena dar uma conferida no blog Caderno diário: registro de percursos, resultante de oficina ministrada pela Giovanna Martins no 41º Festival de Inverno da UFMG (junho de 2009).

Quem acompanha meu trabalho sabe que há muito barganho com a morte da pintura. Todo dia me pergunto para que ela serve ainda hoje… Mas ao contrário do que isso pode levar a crer, gosto muito desse bucolismo anacrônico na pintura (quanta redundância!), mas só e somente só quando isso está claro para o artista e faz parte de sua poética.

Citando do blog:

“este trabalho, proposto pela artista e professora da escola de belas artes, giovanna martins, ao retomar a tradição dos diários de viagem (como os de dürer, turner, debret e delacroix, entre outros), visava percorrer a cidade e seus arredores na busca de traduzir os vários aspectos daqueles lugares”.

Há páginas muito legais como essa de meu velho amigo Carlos Fonseca, com uma incômoda plaquinha da Kaiser e carros estacionados. Esse tipo de decisão – no caso, de não excluir esses elementos hodiernos – é o que cria uma verdadeira imagem crítica – ie. que suscita a crise. Acho que todo mundo já cansou de fotografias de cidades históricas, ao menos em Minas. E o que cansa é que elas são quase – quase históricas, quase bucólicas, quase sem carros, quase sem placas! Quando uma pintura alcança esse quase, produz uma teoria, não é?

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2009-06-25 Canal Fofão

Fofão em seu lugar predileto.
Fofão em seu lugar predileto.

Não sei se o segundo lugar predileto desse atleticano é o Buteco do Zé Maria ou a poltrona em frente à TV. Sei que o Fofão, vulgo Mauro Teixeira, meu grande camarada desde os tempos de História, tem demonstrado excepcional talento como blogueiro: Canal Fofão: TV, Cinema e o que mais me der na telha. Vale a pena conferir e até assinar o RSS.

Hoje ele postou uma ótima sobre os Cocorocas no século 21. A lista dele é a seguinte: Arnaldo Esteves Lima, Luiz Carlos Hauly, D. José Cardoso Sobrinho, Nicolas Sarkozy, Pedro Cardoso.

Um cocoroca, segundo o Fofão é “uma pessoa metida a regulamentar a vida particular alheia, ou a recusar o girar do planeta, aferrada a tradições pelo único fato de serem tradições”.

Além de Affonso Romano de Sant’Anna (alerta aos pais: letras dobradas no nome causam cocoroquice crônica), quem poderíamos adicionar à lista de cocorocas específicos da arte?

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2009-06-06 A ausência da empatia

Deanna Troi: no futuro, só um betazóide terá empatia pelos humanos.
Deanna Troi: no futuro, só um betazóide terá empatia pelos humanos.

Essa postura da Conselheira Deanna Troi da Nave Estelar Enterprise deve estar descrita no livro O corpo fala… Quando liam o livro, se postavam assim, significando “tenho algum interesse no que você está dizendo”. Faz muito tempo não vejo alguém se sentar assim. Talvez por isso o livro não faça mais nenhum sucesso: no futuro, só os betazóides terão empatia pelos humanos?

Ontem li o seguinte, da Piti, em um texto sobre as Bienais de São Paulo:

“[…] postular que, se a arte não é eficaz para solucionar os males sociais, ao menos pode servir como testemunha de nossa capacidade de sentir empatia com os outros.”

Ao menos isso: dicionário: '''empatia''': 1. faculdade de compreender emocionalmente (pessoa, objeto); 2. capacidade de se identificar com outra pessoa; entendimento; 3. PSICOLOGIA identificação emocional com o eu de outro. (De em-+gr. páthos, «estado de alma» +-ia).

Duas festas: uma festa de artistas, outra de intelectuais e políticos. Tinha que comentar esse fenômeno que me assusta cada vez mais. Ninguém, absolutamente ninguém, cultiva alguma empatia: só se ouve o “eu, eu, eu”… Chega a ser desconcertante!

O monstro criador já acabou. Arte, bem como produção intelectual, passa a ser ver o outro, percebê-lo e dar-lhe a vez. E a política sempre foi isso, mas há muito assumiu uma forma muito estranha de falar pelo/com o outro, uma espécie de populismo 24/7, até nas relações mais íntimas.

Seria importante definir essas três profissões pela chave da empatia. Na arte, o altermodernismo de Nicolas Bourriaud parece uma tentativa nesse sentido; é assim que leio “3. Travelling as a new way to produce forms”. Mas como os artistas conseguirão viajar em um mundo “eu, eu, eu”?

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2009-05-29 MAP reabre 2

Nada a ver com o MAP: um salão de Lingerie.
Nada a ver com o MAP: um salão de Lingerie.

Na postagem anterior, 2009-05-25 MAP reabre olhando para dentro, não resisti e coloquei o umbigo do Lula, que não tem nada a ver com o Museu de Arte da Pampulha. Dessa vez, procurei na internet por “salão de arte”, tencionando encontrar alguma imagem daqueles salões do século XIX. Novamente não resisti. O Google Images está virando um garimpo surrealista! Mas voltando ao assunto:

Uma atualização: conversei rapidamente com o Marcelo Drummond, irmão do Marconi do MAP, e perguntei se a nova exposição apontava para um retorno dos salões. Gostei muito da resposta enérgica: “Que coisa mais reacionária!”

Então a dúvida foi dirimida: a exposição é um corte histórico, cujo objetivo, inclusive, é confrontar as experiências do antigo Salão com a Bolsa Pampulha.

Talvez já seja possível falar em um padrão pendular no MAP: exposição de arte contemporânea e, em seguida, exposição do acervo. Alguns dizem que estas últimas são para “tapar buracos” na programação, em períodos de pouca verba… Mas isso não importa. Um museu, para ser museu, deve ter acervo – acredito, divergindo das concepções mais em voga hoje – e deve expô-lo. E, preferencialmente, de forma permanente. Talvez o projetado e ansiado anexo venha cumprir essa função que considero essencial no Museu.

Não conheço todo o acervo do Museu da Pampulha, mas os relances que tive dele não me agradaram muito… Fora as novas aquisições e algumas obras realmente pertinentes, muito do que vi ou já é ou está prestes a se tornar anacrônico.

Isso para não dizer pior. Em 2005-07-04, ocasião da exposição Acervo Espelhado, Paulo Schmidt e José Alberto Nemer escolheram – Nemer com picardia explícita, Schmidt, com alguma seriedade impossível de se levar a sério – uma pintura de Winston Churchill. Isso mesmo: o MAP tem em seu acervo uma pintura feita pelo Primeiro Ministro da Inglaterra durante a 2ª Guerra. Por que, diabos, o MAP tem uma pintura feita por Churchill?! Essa é a primeira pergunta de Nemer que conclui, no folheto mais ácido que recolhi no MAP:

E daí? Deixar como está para ver como é que fica. Ou então, se divertir com a ironia pragmática de um colecionador americano que, acostumado com a agilidade dos museus de seu país, sugeriu ao conhecer o MAP, sua história e suas dificuldades, que o prédio voltasse a ser cassino ou bingo, cuja renda sustentaria um museu como todos gostariam.

Essa exposição que abre dia 6 próximo mostrando o acervo adquirido em 26 edições do Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte será mais um teste para o acervo em si que uma historicização dos salões. Esclarecida a dúvida sobre a Bolsa Pampulha, resta a prova do acervo: o MAP tem o acervo que desejamos?

Um museu sempre contemporâneo (isto é, cronicamente sincrônico) não significa “sem acervo”; o grande lance é fazer com que a guarda reflita a arte contemporânea pelo constante movimento. Um museu hoje sincrônico não deve se tornar anacrônico amanhã; isto é, seu acervo não pode ser definido pela pura acumulação: uma obra que hoje merece estar no acervo, deve estar nele; se amanhã tal obra perder sua significação contemporânea, ou seja, se não é nem contemporânea nem influência para a contemporaneidade, deve passar a outro acervo, de tipo histórico, em outro museu, ou ser vendida.

O grande problema é que o MAP não tem independência para gerir seu acervo. Na verdade, não tem independência alguma. E nisso poderíamos voltar ainda ao problema da saída da Priscila Freire: a questão não é se ela merecia ou não permanecer no cargo; o problema foi a forma da substituição, incluindo, sem vexa alguma, o MAP no cabide-de-empregos políticos da Prefeitura… Ora, um museu precisa de uma equipe estável e capacitada, o que inclui sua diretoria. Sendo assim, tal equipe poderá formular uma filosofia igualmente estável e fundamentada de acervo, merecedora da independência necessária à gerência de um museu de arte.

A última avaliação daquela pintura do Churchill ficou entre US$ 35 e 40 mil. Seria um ótimo aporte financeiro, que poderia ser revertido na compra de uma obra realmente importante. Mas a decisão de venda não cabe ao Museu, é da Câmara dos Vereadores. É temerário no Brasil flexibilizar a gerência de quantias vultosas, mas submeter o acervo do Museu a voto no legislativo parece demais. O controle público sobre o MAP deveria ter outra forma, mais filosófica que pontual; e a gerência do Museu deveria ser pautada pela confiança em uma equipe de profissionais de museu e de artes. A substituição da Priscila pelo duvidosamente qualificado “gestor” indicado pelo Prefeito só torna mais distante o acervo que desejamos para o MAP.

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2009-05-25 MAP reabre olhando para dentro

Nada a ver com o MAP: o umbigo do Lula
Nada a ver com o MAP: o umbigo do Lula

A imagem não tem nada a ver com o Museu de Arte da Pampulha. Procurei na internet por “umbigo” e, dentre belos e horripilantes, encontrei o Lula apontando para o umbigo, ou melhor, para o machucado feito por uma bala de borracha perto do umbigo. Nossa conversa é sobre “olhar para o próprio umbigo” e talvez perto dele também tenha um machucado… Não poderia deixar passar essa foto, está aí, respeitosamente e com admiração, o umbigo do Presidente: é por isso que eu gosto dele: seus gestos são diretos, quase ingênuos, e por isso tão abertos a re-significações. Mas voltando ao assunto do MAP:

Li hoje uma notícia dúbia: boa pois o Museu de Arte da Pampulha vai retomar as atividades depois da estranha (para não dizer mais…) saída da Priscila Freire (cf. 2009-04-04 e 2009-04-05); mas talvez não tão boa pois a exposição que abre dia 6 próximo será sobre as 26 edições do Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte.

O que causou minha dúvida foi essa frase de Sérgio Rodrigo Reis, autor da coluna Visuais (Estado de Minas, Caderno de Cultura, 25 mai. 2009, p. 5): “Nos últimos anos, a opção vinha sendo por uma temática contemporânea das exposições”. O verbo no passado me preocupou muito. Será que essa exposição demonstra uma vontade de retomar o modelo do Salão, extinguindo a Bolsa Pampulha? Ou pior, será que indica a intenção de direcionar o Museu para um rumo “histórico”, privilegiando os nomes já consagrados, isto é, tornando o MAP um museu modernista?

Entre 2001 e 2004, Adriano Pedrosa e Rodrigo Moura, respectivamente curador e curador assistente que virou curador em 2003, implementaram uma série de mudanças na política de colecionismo do Museu. Até então, a maior parte das obras entravam no MAP via “prêmio de aquisição”, nas diversas edições do Salão, desde 1930. O fato é que o MAP nunca tinha comprado nenhuma obra, tendo acumulado um acervo que espelhava o Salão e a vontade dos doadores; o que pode até ser interessante para a própria história do Museu, de seu Salão e das relações com a sociedade belo-horizontina, mas insuficiente para que seu acervo se tornasse significativo além da restrita área de influência do Salão e além do gosto dos colecionadores mineiros.

Vik Muniz foi a primeira aquisição do MAP, em 2002, que continuou comprando, recebendo contrapartidas e transferindo obras de outros museus de forma ativa até pelo menos agosto de 2008, quando, já sob curadoria de Marconi Drummond (que voltou agora), foi realizada a exposição Procedente >> MAP: novas aquisições, com Alexandre da Cunha, Ana Maria Tavares, Cristiano Rennó, Damian Ortega, Débora Bolsoni (BP, 2005, ie. 28º Salão), Fernanda Gomes, Gedley Braga, Gilvan Samico, Isaura Pena, Jac Leirner, Laura Belém (BP, 2004, ie. 27º Salão), Mabe Bethônico (com obra inédita no MAP), Marilá Dardot (BP, 2004, ie. 27º Salão), Mary Vieira (com obra inédita no MAP), Márcia Xavier, Máximo Soalheiro, Nuno Ramos, Patrícia Leite, Regina Silveira (com obra inédita no MAP), Rivane Neuenschwander, Roberto Bethônico, Rodrigo Andrade, Rosângela Rennó, Sandra Cinto, Sonia °S Labouriau, Sônia Lins e Valeska Soares. Além dessas aquisições, não tenho notícia de outras… Vou conferir depois.

Como assinalado, três artistas participantes da Bolsa Pampulha tiveram suas obras adquiridas pelo Museu, não como premiação, mas por terem sido consideradas importantes para o acervo. A diferença não é sutil, bem como não é sutil a diferença entre Bolsa Pampulha e o Salão. As três edições da Bolsa Pampulha foram oficialmente as 27ª, 28ª e 29ª edições do Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte, mas o modelo do salão de arte foi descartado em prol de uma residência artística de um ano, na qual os artistas contaram com a orientação de nomes importantes da arte brasileira. Oportunamente, vale dar uma lida no artigo A (im)pertinência dos salões, em que Paula Alzugaray relata um debate com Adriano Pedrosa, ainda na onda da Bolsa Pampulha.

Todos estes artistas, acredito, expuseram no Museu, mas ao menos três obras adquiridas eram inéditas no MAP. Isso demonstra uma certa continuidade entre história do Museu e aquisição, mas também uma importante maleabilidade. O que importa a um acervo não é necessariamente o que foi exposto na instituição que o abriga, mas o que é relevante para a coleção dessa instituição. Isso é ainda mais importante para o MAP, cujas características físicas geralmente tornam fúteis as tentativas de montar uma exposição tradicional. Em 2008-09-09, por exemplo, escrevi sobre a briga dos tapumes com a arquitetura na exposição de Adriana Varejão, o que considerei um retrocesso.

Era um retrocesso pois a maior mudança do MAP na virada do milênio foi privilegiar obras que dialogassem com o edifício projetado por Niemeyer nos anos 1940 para ser um cassino. Tratava-se de um duplo movimento: por um lado, acatava-se a invencível arquitetura, mas por outro, criava-se um diferencial em relação aos outros museus do país: as peculiaridades do espaço demandariam exposições verdadeiramente específicas. Específicas mesmo: o Salão Nobre é inclemente e não perdoa site-specifics portáteis, transportáveis, isto é, falsos site-specifics.

Um caso recente foi a exposição de Angela Detanico e Rafael Lain, em maio de 2008. As obras que estavam no Salão Nobre pareciam deslocadas e sem relação entre si – o que não parece ter sido intencional pois em outros espaços há um discurso homogêneo entre as obras. Um dado tempo, por exemplo, foi criado especificamente para o MAP, mas ficaria melhor em uma galeria tradicional, a não ser que a intenção tenha sido criar uma obra diluída, algo muito diferente do que apreendemos pela fotografia mostrada no simpático site da dupla. O objeto ficou perdido no teto como se fosse algo sem relação com Um dado lugar, que estava, por sua vez, perdido no piso.

Uma das questões centrais da Bolsa Pampulha foi preparar os jovens artistas para lidar com esse espaço indômito onde só há uma parede (no Mezanino): a proposta era substituir a metáfora do “cubo branco” pela “caixa de jóias”, substituindo também o portfolio pela convivência cúmplice, doméstica, visando, como disse Adriano Pedrosa, uma “personalização do museu” pelo contato estreito do artista com a instituição. Um museu que só tem uma parede não aceita portfolio, isto é, porta-fólio, folhas de papel… A metáfora da “caixa de jóias” parece bem apropriada: só aceita coisas pessoais.

Não sei se a exposição programada tem a intenção de preparar o retorno do modelo de salão, com seus portfolios e prêmios de aquisição. Para mim seria um grande erro, não só para o Museu, mas também para os artistas daqui e de fora que vêm para cá. O Museu perderia sua especificidade, reduziria a alguns dias a duração de sua influência, e restringiria novamente seu acervo a um desabrochar que raramente é coerente com o verdadeiro impulso colecionista de um museu importante. Os artistas, todos, não só os jovens, perderiam com o fim da convivência e da troca, bem como com o retorno de uma mineiridade que só deu mais ou menos certo na música… Isso sem falar no público, para quem ir à Pampulha vinha deixando de ser longe demais. Para ver um acervo estabelecido de arte contemporânea, teremos que voltar a viajar? Ao menos a viagem não será tão longa mais: Inhotim. (Bom, tem também o Palácio, mas não é sua função ter um acervo…) Mas porque não ter dois, três, dez museus com acervo de arte contemporânea?

Espero que o marco da exposição, o 26º Salão, seja apenas uma coincidência (as três aquisições da Bolsa Pampulha foram mostradas muito recentemente) ou um erro de comunicação com o jornalista. Espero mesmo que não seja uma pressão dos antigos contemplados para voltar com exclusividade ao Museu. Espero que não seja mais uma ameaça à Bolsa Pampulha e ao MAP como referência em arte contemporânea. Espero… que todos os meus medos sejam injustificados. Confio.

Sei que será uma ótima oportunidade para confrontar os catálogos dos Salões com as obras do acervo tão pouco visto. Olhar para dentro é bom: o Museu de Arte da Pampulha tem muitos espelhos que desviam nosso olhar para fora.

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