2008-05-03
Hoje fui a uma exposição no mínimo intrigante: Narcissus, de Rodrigo Castro de Jesus, na Galeria de Arte da Copasa. O livro de assinaturas trazia alguns insultos nos quais se destaca certa incapacidade de classificar: “nojento”, “repugnante” etc. não são palavras pejorativas frente a obras que se encaixam sob a etiqueta da chamada “arte abjeta”. Nesse tipo de intervenção, a censura pelo público é uma expectativa e até uma estratégia do artista. Mas há algo nessa exposição que me faz pensar em um certo lirismo, numa entrega do artista ao público, numa exposição de suas vergonhas, até.
O trabalho de maior destaque, de onde – parece – surgem os demais, é Narciso no Mijo. Trata-se de um vídeo mostrando o artista refletido em sua própria urina, que depois é sublimada pela ação de um ferro de passar roupa. Não sei se é coincidência, mas sendo Jesus o nome do artista, acabei pensando em “Jesus no Mijo”, tal como no Wikipedia:Piss_Christ, de Andrés Serrano. Mas logo me desfiz da idéia. O mesmo ferro de passar roupa aparece depois em Ferro na Cueca, em F-Erro, em Ferro, Leite e Garrafa. O tema é molhar e secar. O trabalho Disciplina, com rodos, parece demonstrar isso.
Molhar e secar, incontinência – ou mais apropriadamente, enurese. Isso é o puro contrário do narcisismo; não há Narciso possível com insegurança.
Diz-se que numa das etapas de amadurecimento psicossexual a criança descobre que os adultos estão muito interessados no funcionamento de seus esfíncteres. Diz-se também que ela oferece ao mundo aquilo que faz, sendo reprimida no processo. E o excesso de repressão ou mesmo o constrangimento público criam distúrbios bem conhecidos.
Mas o que leva um artista a oferecer sua urina tão literalmente?
O trabalho Fonte – uma engenhoca que faz circular um líquido fisiológico filosófico entre um bule, uma cueca e um pinico --, por exemplo, pode remeter à Fonte de Duchamp, que era um urinol, indicando uma possível interpretação segundo a série de citações. Mas também é um trabalho cuja ingenuidade – um coador feito de cueca – nos remete a uma certa familiaridade interiorana, às piadinhas infantis sobre café passado na cueca.
O texto do catálogo propõe Narciso no Mijo como um jogo de reflexos – fluído do corpo formando a imagem desse corpo – e como um ritual, destacando a solidão e definindo-o como “vídeo de clausura”.
Para mim, entretanto, trata-se de uma exposição de quem sai da clausura, de um artista que propõe enfrentar o mundo, deixando de lado sua possível timidez para transformar insegurança em afirmação.
Talvez os insultos o deixem incomodado, pois, afinal, não se trata de “arte abjeta”. Mas eles não importam, principalmente quando o artista é honesto, como o foi Rodrigo.
2007-07-13
Ontem fui a duas exposições: Arqueologia, de Marcelino Peixoto, na Copasa e Reserva II, continuação do Projeto Território II, oficina orientada por Laís Myrrha e Cinthia Marcelle, no Museu Mineiro. Da primeira, saí com meu catálogo, da segunda com um post-it.
São propostas distintas, mas guardam algo em comum: os espaços discursivos de ‘arqueologia’ e de ‘reserva’ são bem próximos. O que fazer, senão forçar uma aproximação pela via da linguagem? A primeira palavra que vem à mente é escavação. E, dela, soterramento.
O que há de escavação e de soterramento nos trabalhos de Marcelino? São trabalhos de uma genealogia bem óbvia: formas aleatórias servem de base para um incessante trabalho de contorno e sobreposição. Enquanto o artista acumula camadas dessa tinta transparente e fina que é a aquarela, parece escavar em si suas próprias questões. Certa vez, em tom de brincadeira, falei para ele que esse tipo de compulsão é uma espécie de psiconeurose de defesa; eu estava relacionando seu labor repetivo com a pulsão de morte. Automaton e tiquê, entretanto, relacionam-se a algo inassimilável, a um eterno retorno diante do real, o que não me parece o caso, dadas as múltiplas implicações da translucidez. Jogando com a palavra, trans-lúcido poderia ser para além de lúcido, para além da posse de suas faculdades mentais. Acontece que, à forma automática inicial, parece suceder um processo construtivo, muito distinto dos procedimentos surrealistas, por exemplo. E o que me permite essa conclusão é justamente a translucidez da tinta: não me parece haver segredo ou repressão, não ocorre uma operação divergente do princípio do prazer: o que ele escava em si é o prazer da tinta e da cor – foi assim que compreendi primeiro ouvindo-o, depois olhando. Portanto, aí, soterramento é escavação, trazer à luz, abrir.
E o mesmo acontece com a instalação no Museu Mineiro. A imagem soterrada por post-its se torna mais visível justamente porque invisível. Na instalação anterior, com percianas cobrindo os quadros, já havia ocorrido isso. A interdição causa uma necessidade de aproximação; nosso olho busca focar dentro, atravessar a persiana e atravessar o vidro opacificado. O próprio conceito negativo de museu como um lugar que tira do invisível e leva para o invisível, para a reserva, é usado a favor da visibilidade. Essas camadas que os artistas da oficina vêm sobrepondo ao acervo do Museu Mineiro são também translúcidas.
Mas a escavação não pára aí. O conteúdo das notas foi colhido em uma dissertação sobre a conservação da obra. Em minha pesquisa PinturaCatálogos, abordo a necessidade de criar um tipo de catálogo que mostre os subterrâneos do museu e principalmente as operações “endoscópicas”, típicas da conservação. Nada melhor que colher o lembrete “Fig. 53 – início da limpeza das asas”. E, ao fazê-lo, abrir a tumba (como diria Didi-Huberman); mas com a certeza de que – como escreveu Carlos de Brito e Mello sobre o trabalho de Marcelino: “o trabalho arqueológico não consegue encerrar-se com a abertura da tumba.”
Após essa aproximação forçada de duas exposições tão díspares, visitadas na mesma noite, só me resta como alternativa:
→ Arte Crítica Marcelino Peixoto Copasa Museu Mineiro Pintura para catálogos Pesquisa Mestrado