2009-04-03
Em Qui, 2009-04-02 às 00:56 -0300, Otto Ramos escreveu:
> E ainda tem gente dizendo que comunismo é coisa de gente doida!! > > ---------- Forwarded message ---------- > Subject: Fwd: O cálculo da crise... Interessante...
O cálculo da crise, puramente matemático, está correto, mas não é esse o maior absurdo. Dentro dos marcos do capitalismo, o que aconteceria se entregássemos U$ 104 milhões a cada pessoa do mundo? É esse o absurdo da coisa! Esses U$ 104 milhões passariam imediatamente a nada valer; haveria uma super-hiperinflação instantânea pois – e essa poderia ser uma frase de Marx: – dinheiro não cruza com dinheiro para parir dinheiro.
Até poucos meses atrás ainda se falava da infinita capacidade de regeneração do capital diante de seu paradoxo mais visível hoje, que é o capital especulativo. Um bom naco dos teóricos acreditavam até em uma necessidade cíclica de crise estrutural – isso mesmo, ou necessidade crise estrutural cíclica, o importante é a necessidade – para manter a máquina funcionando. Nesse sentido, a criação de “bolhas” e seu posterior “estouro” não deveria ser visto apenas como um sintoma da contradição essencial entre produção (trabalho, valor-de-uso, valor sem mais-valia etc.) e especulação. Para eles, tratava-se de ciclo vital mesmo, como se o capitalismo não pudesse viver sem suas crises, como se ele se alimentasse delas.
Sempre achei isso um fatalismo acomodador, mas nunca consegui organizar uma contraposição baseada em fatos históricos. Em termos teóricos, bastava ser teleológico, afirmar que, um dia… um dia… vai!
Mas em termos históricos, que são os termos do marxista, parecia haver uma coerência inelutável: a cada crise o capitalismo encontrava sua saída agudizando a exploração seja do trabalhador, seja imperialista. As crises, então, acabavam sendo uma maneira de retomar um capitalismo, digamos, “de raiz” – higienizado das impurezas social-democratas, lavadinho, brilhante. Entre uma crise e outra, a sujeira voltaria: os sindicatos atuariam, a sociedade civil faria pressão etc.
Antes de cada crise, então, observaríamos um período de acomodação social graças a pequenas melhorias, e de acomodação mundial pelo relaxamento da pressão imperialista. Entre as crises o capitalismo encontraria um patamar sustentável de exploração (“sustentável”, no sentido ecológico do termo).
O ciclo seria haver períodos de desequilíbrio muito curtos, precedidos e sucedidos por lentas recuperações não só econômicas, mas também político-sociais. Essas recuperações evitariam insurreições e rupturas revolucionárias, enquanto os períodos de desequilíbrio serviriam justamente para impedir que a continuidade dos ganhos político-sociais desembocasse em social-democracia de fato.
Esse fatalismo acomodador estava muito bem ancorado no próprio materialismo histórico. Ele entrava numa brecha (falha?) do método: na história, nem toda dialética encontra uma síntese conciliatória, com aniquilação dos termos contraditórios. Muitas vezes a síntese histórica mantém os mesmos elementos, só que com outra forma, com outra dinâmica.
O capitalismo das últimas décadas teria conseguido abrir uma dessas brechas? O neoliberalismo, que nunca foi liberal, mas cíclico, como descrevi, parece ter sido uma dessas brechas. E agora dizem que acabou. Mas qual será a resposta dos teóricos burgueses (eles existem!) que leram Marx e prestaram atenção nas aulas sobre estruturalismo e pós-estruturalismo? A brecha realmente se fechou?
Fiz todo esse arrazoado (essa regurgitação teórica) pensando na recente recuperação de Marx e na falsa “Frase de 1867”. Ficaria felicíssimo se Marx viesse a ser finalmente recuperado como marco científico e político, mas tenho muita preocupação com uma espécie de recuperação ipsis litteris, antidialética e sobretudo anistórica.
A dimensão da crise, essas cifras assustadoras e sua duração – aparentemente longa – poderia até vir a ser o fato histórico que sempre procurei para argumentar contra aquele fatalismo acomodador. Mas será mesmo? Estaríamos às portas de uma ruptura estrutural? O sistema teleológico – que é sobretudo “quanto pior melhor, agora posso ficar aqui de pijamas” (eu estou literalmente vestindo um) – voltaria a funcionar, agora com uma base material e não puramente teórica?
Continuo comunista, claro. Mas minha resposta agora é “devagar com o andor”. O PCdoB começou uma campanha de filiação que eu acho correta e indispensável, afinal, comunismo não é mais coisa de gente doida – para mim nunca foi, pois sempre fui muito equilibrado, hehehe. Mas tenho um conselho: é besteira virar comunista agora só porque acha que essa crise é de ruptura. Nem o PCdoB acha isso, senão não estaria fazendo campanha de filiação falando sobre queda dos juros.
Os velhinhos sempre me disseram que há três motivos para optar pelo comunismo: estômago, coração e cérebro. Quem é comunista por causa do estômago deve ser formado para que o seja também pelo coração e pelo cérebro. Quem é graças ao coração, deve vir a ser também pelo cérebro. E quem é pelo cérebro deve amaciar o coração. Um comunista, então, tem coração e cérebro comunistas. O estômago, claro, é uma fatalidade e ninguém precisa passar fome para ser comunista; afinal, o que queremos é distribuir a riqueza (fazendo um cálculo um pouco mais elaborado) e não a pobreza. Mas sem o cérebro e o coração, logo que o estômago se enche, vai-se o comunismo – e isso não pode acontecer: não há coisa pior que um ex-comunista!
Pensando no que escrevi sobre o PT, sobre os ex-PT, sobre os que se decepcionaram, achei que deveria concluir com o seguinte: o estômago e o coração podem até virar comunistas por causa da crise, mas o cérebro tem que acompanhar. O novo comunista deve investir sobretudo em sua formação para ser um militante efetivo, com voz no partido e ação na sociedade (e não o contrário, como ocorreu no PT).
Filiem-se! Não importa a qual: PCdoB, PCB, PCO, PCx. O importante é ser comunista de coração e cérebro.