Diário de Bordo Mudanças Recentes www.dedalu.art.brTagsRSS RSS

Diário

2009-05-29 MAP reabre 2

Nada a ver com o MAP: um salão de Lingerie.
Nada a ver com o MAP: um salão de Lingerie.

Na postagem anterior, 2009-05-25 MAP reabre olhando para dentro, não resisti e coloquei o umbigo do Lula, que não tem nada a ver com o Museu de Arte da Pampulha. Dessa vez, procurei na internet por “salão de arte”, tencionando encontrar alguma imagem daqueles salões do século XIX. Novamente não resisti. O Google Images está virando um garimpo surrealista! Mas voltando ao assunto:

Uma atualização: conversei rapidamente com o Marcelo Drummond, irmão do Marconi do MAP, e perguntei se a nova exposição apontava para um retorno dos salões. Gostei muito da resposta enérgica: “Que coisa mais reacionária!”

Então a dúvida foi dirimida: a exposição é um corte histórico, cujo objetivo, inclusive, é confrontar as experiências do antigo Salão com a Bolsa Pampulha.

Talvez já seja possível falar em um padrão pendular no MAP: exposição de arte contemporânea e, em seguida, exposição do acervo. Alguns dizem que estas últimas são para “tapar buracos” na programação, em períodos de pouca verba… Mas isso não importa. Um museu, para ser museu, deve ter acervo – acredito, divergindo das concepções mais em voga hoje – e deve expô-lo. E, preferencialmente, de forma permanente. Talvez o projetado e ansiado anexo venha cumprir essa função que considero essencial no Museu.

Não conheço todo o acervo do Museu da Pampulha, mas os relances que tive dele não me agradaram muito… Fora as novas aquisições e algumas obras realmente pertinentes, muito do que vi ou já é ou está prestes a se tornar anacrônico.

Isso para não dizer pior. Em 2005-07-04, ocasião da exposição Acervo Espelhado, Paulo Schmidt e José Alberto Nemer escolheram – Nemer com picardia explícita, Schmidt, com alguma seriedade impossível de se levar a sério – uma pintura de Winston Churchill. Isso mesmo: o MAP tem em seu acervo uma pintura feita pelo Primeiro Ministro da Inglaterra durante a 2ª Guerra. Por que, diabos, o MAP tem uma pintura feita por Churchill?! Essa é a primeira pergunta de Nemer que conclui, no folheto mais ácido que recolhi no MAP:

E daí? Deixar como está para ver como é que fica. Ou então, se divertir com a ironia pragmática de um colecionador americano que, acostumado com a agilidade dos museus de seu país, sugeriu ao conhecer o MAP, sua história e suas dificuldades, que o prédio voltasse a ser cassino ou bingo, cuja renda sustentaria um museu como todos gostariam.

Essa exposição que abre dia 6 próximo mostrando o acervo adquirido em 26 edições do Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte será mais um teste para o acervo em si que uma historicização dos salões. Esclarecida a dúvida sobre a Bolsa Pampulha, resta a prova do acervo: o MAP tem o acervo que desejamos?

Um museu sempre contemporâneo (isto é, cronicamente sincrônico) não significa “sem acervo”; o grande lance é fazer com que a guarda reflita a arte contemporânea pelo constante movimento. Um museu hoje sincrônico não deve se tornar anacrônico amanhã; isto é, seu acervo não pode ser definido pela pura acumulação: uma obra que hoje merece estar no acervo, deve estar nele; se amanhã tal obra perder sua significação contemporânea, ou seja, se não é nem contemporânea nem influência para a contemporaneidade, deve passar a outro acervo, de tipo histórico, em outro museu, ou ser vendida.

O grande problema é que o MAP não tem independência para gerir seu acervo. Na verdade, não tem independência alguma. E nisso poderíamos voltar ainda ao problema da saída da Priscila Freire: a questão não é se ela merecia ou não permanecer no cargo; o problema foi a forma da substituição, incluindo, sem vexa alguma, o MAP no cabide-de-empregos políticos da Prefeitura… Ora, um museu precisa de uma equipe estável e capacitada, o que inclui sua diretoria. Sendo assim, tal equipe poderá formular uma filosofia igualmente estável e fundamentada de acervo, merecedora da independência necessária à gerência de um museu de arte.

A última avaliação daquela pintura do Churchill ficou entre US$ 35 e 40 mil. Seria um ótimo aporte financeiro, que poderia ser revertido na compra de uma obra realmente importante. Mas a decisão de venda não cabe ao Museu, é da Câmara dos Vereadores. É temerário no Brasil flexibilizar a gerência de quantias vultosas, mas submeter o acervo do Museu a voto no legislativo parece demais. O controle público sobre o MAP deveria ter outra forma, mais filosófica que pontual; e a gerência do Museu deveria ser pautada pela confiança em uma equipe de profissionais de museu e de artes. A substituição da Priscila pelo duvidosamente qualificado “gestor” indicado pelo Prefeito só torna mais distante o acervo que desejamos para o MAP.

Adicionar Comentário

2009-05-25 MAP reabre olhando para dentro

Nada a ver com o MAP: o umbigo do Lula
Nada a ver com o MAP: o umbigo do Lula

A imagem não tem nada a ver com o Museu de Arte da Pampulha. Procurei na internet por “umbigo” e, dentre belos e horripilantes, encontrei o Lula apontando para o umbigo, ou melhor, para o machucado feito por uma bala de borracha perto do umbigo. Nossa conversa é sobre “olhar para o próprio umbigo” e talvez perto dele também tenha um machucado… Não poderia deixar passar essa foto, está aí, respeitosamente e com admiração, o umbigo do Presidente: é por isso que eu gosto dele: seus gestos são diretos, quase ingênuos, e por isso tão abertos a re-significações. Mas voltando ao assunto do MAP:

Li hoje uma notícia dúbia: boa pois o Museu de Arte da Pampulha vai retomar as atividades depois da estranha (para não dizer mais…) saída da Priscila Freire (cf. 2009-04-04 e 2009-04-05); mas talvez não tão boa pois a exposição que abre dia 6 próximo será sobre as 26 edições do Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte.

O que causou minha dúvida foi essa frase de Sérgio Rodrigo Reis, autor da coluna Visuais (Estado de Minas, Caderno de Cultura, 25 mai. 2009, p. 5): “Nos últimos anos, a opção vinha sendo por uma temática contemporânea das exposições”. O verbo no passado me preocupou muito. Será que essa exposição demonstra uma vontade de retomar o modelo do Salão, extinguindo a Bolsa Pampulha? Ou pior, será que indica a intenção de direcionar o Museu para um rumo “histórico”, privilegiando os nomes já consagrados, isto é, tornando o MAP um museu modernista?

Entre 2001 e 2004, Adriano Pedrosa e Rodrigo Moura, respectivamente curador e curador assistente que virou curador em 2003, implementaram uma série de mudanças na política de colecionismo do Museu. Até então, a maior parte das obras entravam no MAP via “prêmio de aquisição”, nas diversas edições do Salão, desde 1930. O fato é que o MAP nunca tinha comprado nenhuma obra, tendo acumulado um acervo que espelhava o Salão e a vontade dos doadores; o que pode até ser interessante para a própria história do Museu, de seu Salão e das relações com a sociedade belo-horizontina, mas insuficiente para que seu acervo se tornasse significativo além da restrita área de influência do Salão e além do gosto dos colecionadores mineiros.

Vik Muniz foi a primeira aquisição do MAP, em 2002, que continuou comprando, recebendo contrapartidas e transferindo obras de outros museus de forma ativa até pelo menos agosto de 2008, quando, já sob curadoria de Marconi Drummond (que voltou agora), foi realizada a exposição Procedente >> MAP: novas aquisições, com Alexandre da Cunha, Ana Maria Tavares, Cristiano Rennó, Damian Ortega, Débora Bolsoni (BP, 2005, ie. 28º Salão), Fernanda Gomes, Gedley Braga, Gilvan Samico, Isaura Pena, Jac Leirner, Laura Belém (BP, 2004, ie. 27º Salão), Mabe Bethônico (com obra inédita no MAP), Marilá Dardot (BP, 2004, ie. 27º Salão), Mary Vieira (com obra inédita no MAP), Márcia Xavier, Máximo Soalheiro, Nuno Ramos, Patrícia Leite, Regina Silveira (com obra inédita no MAP), Rivane Neuenschwander, Roberto Bethônico, Rodrigo Andrade, Rosângela Rennó, Sandra Cinto, Sonia °S Labouriau, Sônia Lins e Valeska Soares. Além dessas aquisições, não tenho notícia de outras… Vou conferir depois.

Como assinalado, três artistas participantes da Bolsa Pampulha tiveram suas obras adquiridas pelo Museu, não como premiação, mas por terem sido consideradas importantes para o acervo. A diferença não é sutil, bem como não é sutil a diferença entre Bolsa Pampulha e o Salão. As três edições da Bolsa Pampulha foram oficialmente as 27ª, 28ª e 29ª edições do Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte, mas o modelo do salão de arte foi descartado em prol de uma residência artística de um ano, na qual os artistas contaram com a orientação de nomes importantes da arte brasileira. Oportunamente, vale dar uma lida no artigo A (im)pertinência dos salões, em que Paula Alzugaray relata um debate com Adriano Pedrosa, ainda na onda da Bolsa Pampulha.

Todos estes artistas, acredito, expuseram no Museu, mas ao menos três obras adquiridas eram inéditas no MAP. Isso demonstra uma certa continuidade entre história do Museu e aquisição, mas também uma importante maleabilidade. O que importa a um acervo não é necessariamente o que foi exposto na instituição que o abriga, mas o que é relevante para a coleção dessa instituição. Isso é ainda mais importante para o MAP, cujas características físicas geralmente tornam fúteis as tentativas de montar uma exposição tradicional. Em 2008-09-09, por exemplo, escrevi sobre a briga dos tapumes com a arquitetura na exposição de Adriana Varejão, o que considerei um retrocesso.

Era um retrocesso pois a maior mudança do MAP na virada do milênio foi privilegiar obras que dialogassem com o edifício projetado por Niemeyer nos anos 1940 para ser um cassino. Tratava-se de um duplo movimento: por um lado, acatava-se a invencível arquitetura, mas por outro, criava-se um diferencial em relação aos outros museus do país: as peculiaridades do espaço demandariam exposições verdadeiramente específicas. Específicas mesmo: o Salão Nobre é inclemente e não perdoa site-specifics portáteis, transportáveis, isto é, falsos site-specifics.

Um caso recente foi a exposição de Angela Detanico e Rafael Lain, em maio de 2008. As obras que estavam no Salão Nobre pareciam deslocadas e sem relação entre si – o que não parece ter sido intencional pois em outros espaços há um discurso homogêneo entre as obras. Um dado tempo, por exemplo, foi criado especificamente para o MAP, mas ficaria melhor em uma galeria tradicional, a não ser que a intenção tenha sido criar uma obra diluída, algo muito diferente do que apreendemos pela fotografia mostrada no simpático site da dupla. O objeto ficou perdido no teto como se fosse algo sem relação com Um dado lugar, que estava, por sua vez, perdido no piso.

Uma das questões centrais da Bolsa Pampulha foi preparar os jovens artistas para lidar com esse espaço indômito onde só há uma parede (no Mezanino): a proposta era substituir a metáfora do “cubo branco” pela “caixa de jóias”, substituindo também o portfolio pela convivência cúmplice, doméstica, visando, como disse Adriano Pedrosa, uma “personalização do museu” pelo contato estreito do artista com a instituição. Um museu que só tem uma parede não aceita portfolio, isto é, porta-fólio, folhas de papel… A metáfora da “caixa de jóias” parece bem apropriada: só aceita coisas pessoais.

Não sei se a exposição programada tem a intenção de preparar o retorno do modelo de salão, com seus portfolios e prêmios de aquisição. Para mim seria um grande erro, não só para o Museu, mas também para os artistas daqui e de fora que vêm para cá. O Museu perderia sua especificidade, reduziria a alguns dias a duração de sua influência, e restringiria novamente seu acervo a um desabrochar que raramente é coerente com o verdadeiro impulso colecionista de um museu importante. Os artistas, todos, não só os jovens, perderiam com o fim da convivência e da troca, bem como com o retorno de uma mineiridade que só deu mais ou menos certo na música… Isso sem falar no público, para quem ir à Pampulha vinha deixando de ser longe demais. Para ver um acervo estabelecido de arte contemporânea, teremos que voltar a viajar? Ao menos a viagem não será tão longa mais: Inhotim. (Bom, tem também o Palácio, mas não é sua função ter um acervo…) Mas porque não ter dois, três, dez museus com acervo de arte contemporânea?

Espero que o marco da exposição, o 26º Salão, seja apenas uma coincidência (as três aquisições da Bolsa Pampulha foram mostradas muito recentemente) ou um erro de comunicação com o jornalista. Espero mesmo que não seja uma pressão dos antigos contemplados para voltar com exclusividade ao Museu. Espero que não seja mais uma ameaça à Bolsa Pampulha e ao MAP como referência em arte contemporânea. Espero… que todos os meus medos sejam injustificados. Confio.

Sei que será uma ótima oportunidade para confrontar os catálogos dos Salões com as obras do acervo tão pouco visto. Olhar para dentro é bom: o Museu de Arte da Pampulha tem muitos espelhos que desviam nosso olhar para fora.

Adicionar Comentário

2008-09-09

Publiquei aqui no site meu artigo sobre o contexto artístico de Belo Horizonte, publicado no jornal Papel das Artes, nº8.

Não é, de longe, um artigo polêmico. Nem sei se alguém ficou contrariado. Mas se ficou, foi porque explicitei minhas preferências; principalmente pela Bolsa Pampulha – que, dizem, está sob “ataque”. Como não tenho certeza de tal ataque, optei pelo elogio rasgado.

O engraçado foi que o lançamento do artigo coincidiu com algo que identifico como um retrocesso dentro do MAP. A forma como a exposição da Varejão foi montada parece um retorno a anos atrás, com aqueles tapumes brigando contra a arquitetura. E o melhor foi o texto do panfleto distribuído na ocasião: “[…] o grid das telas de Adriana Varejão, tomado pela imensa ortogonalidade das linhas, dissolve-se nos reais elementos arquitetônicos do antigo cassino […]”.

Parece até o Galvão Bueno narrando futebol: ele vê um jogo, a gente outro. O Ronaldinho perde a bola e ele “QUAAASEEE que o Ronaldo faz um gol! Quaaaseee! Que pena: está tão bem…”: “QUAAASEEE que a pintura da Varejão se dissolve na arquitetura! Quaaaseee! Que pena: não fossem os tapumes… a gente veria isso acontecer.”

Adicionar Comentário