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Diário

2011-02-09 Samba e Imagens de Afeto

Fim de férias… Ainda não totalmente.

A maioria das pessoas procura um viés artístico como parte de suas férias. Afinal, arte é uma necessidade do tempo livre. Melhor dizendo: arte é uma necessidade, ponto. Mas boa parcela só pode necessitar dela em seu tempo livre. (Caso a pensar: maioria, parte, parcela: viva a língua portuguesa!)

Bom. Como minha profissão é arte, minhas férias são mais ou menos sem arte. Mais ou menos porque é necessidade, então há alguma arte, como o caso do grupo Rubim do Bandolim que provou que Timóteo (cidade do interior de Minas Gerais, não tão interiorana) não só faz samba também, como faz melhor que os sambas burocráticos que andei ouvindo em Belo Horizonte (capital de Minas). Vai aí um e-mail de um ótimo sábado: rubimdb@uai.com.br, bem como dois telefones: 3848-1776 e 9126-1959 (o código, acho, é 31, 55 31).

Ainda não fui à reedição da Bienal de SP em BH, vou amanhã e comento.

Mas vi uma boa exposição, daquelas que gosto, isto é, sem a pompa que a arte anda exigindo: Imagens de Afeto na COPASA, na galeria vitrine da empresa COPASA, que é parte (maioria, parcela) do que sobra aos artistas de Minas para expor: duas paredes. Algum dia alguém vai entender essa minha implicância, indo à empresa COPASA (e a qualquer outro espaço expositivo de BH) e percebendo que são apenas duas paredes em ‘L’ para as quais há concorrência…

Fui porque duas amigas minhas estão expondo, senão continuaria de férias.

Há um quê de dor em todas as obras, nalgumas dor explícita, noutras, latente. Nas que gosto mais, a dor aparece como uma sorte de desconforto.

Camila Otto alcançou uma regularidade interessante, talvez uma síntese cujo alcance é um abismo: fotografias de rostos e mãos, separados uns dos outros, uma série de sorrisos meio amarelos e mãos postas meio tímidas, de pessoas não tão jovens, donde depreendemos mortas. Há uma retícula nas fotos, “artificação” desnecessária, acho.

Camila Otto, série Muito mais que raízes, 2009
Camila Otto, série Muito mais que raízes, 2009
Nilcéa Moraleida, Rafael, 2009
Nilcéa Moraleida, Rafael, 2009

Nilcéa Moraleida é pintora, caso raro. Mas faz fotos, digo, retratos, não, fotos. Faz buracos onde se cai, retratos de família pintados, num exercício que nos diz que as obras de arte (em geral) terminam sempre autobiográficas. Me explico: tenho intolerância com autobiografias de artistas, digo que as obras terminam sempre autobiográficas porque, no fim, é a própria vida o que o espectador coloca na obra que admira.

Rachel Leão, da série Remendando o tempo ponto por ponto, 2009
Rachel Leão, da série Remendando o tempo ponto por ponto, 2009

Rachel Leão faz pintura, mas é desenhista. Diz algo em francês sobre o tempo e a inevitabilidade da perda; explica o que são esses retratos que não precisavam explicação, do que gostei. Só não gostei do exagero dos penduricalhos pulmão, estômago e coração: eles morreram disso? de que mais morrem as pessoas? Bastariam os retratos, acho, suficientemente pungentes.

Bom quase fim de férias, vale a pena ir à COPASA e ligar para os sambistas de Timóteo.

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2010-11-28 Grupo de Pesquisa realiza mesa e lançamentos

Como sabem, faço parte do grupo de pesquisa Estratégias da Arte numa Era de Catástrofes (Grupo), coordenado pela Profª Maria Angélica Melendi (Piti), da EBA-UFMG. Há muito tínhamos intenção de fazer um novo site para o Grupo, bem como publicar uma revista eletrônica, a Lindonéia. Depois de muito trabalho, vamos lançar ambos nesse dia 3 de dezembro:

O Grupo recebe Eduardo de Jesus para mesa e lançamentos
O Grupo recebe Eduardo de Jesus para mesa e lançamentos

O site http://www.estrategiasarte.net.br foi desenvolvido por mim, usando o Drupal. Ainda estamos preenchendo os conteúdos, mas o site já se destaca pela qualidade das imagens publicadas pelos membros do Grupo.

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2010-11-27 Seminário Conservação

Cartaz do 1º Seminário Ciência e Conservação
Cartaz do 1º Seminário Ciência e Conservação

A convite da Profª Drª Yacy-Ara Froner, participarei do 1º Seminário Ciência e Conservação, que ocorre entre 1º e dia 3 de dezembro. Confira a programação e demais informações em: http://www.eba.ufmg.br/pos/teoriacontexto/.

Minha comunicação, que ocorrerá dia 3, será Hipótese da dupla substituição / duplo registro em um museu-limite, cujo resumo segue:

Narra a apropriação anárquica de alguns temas da ciência da conservação (especialmente a marca inespecífica do operador e formas inovadoras de reintegração, como o Projeto Mantegna), relacionando-os à arte contemporânea e à proposição conceitual Fotografia do Museu, para sugerir a hipótese de dupla substituição / duplo registro da obra de arte (uma redundância propiciada pela técnica), cuja radicalidade aponta para o fim de qualquer originalidade fundamental, resultando na possibilidade de um museu totalmente substituído, ausente. Discute então a tensão da aura nos fac-símiles da Factum Art (como a “devolução” fac-similar do painel Bodas de Canaã de Veronese ao Refeitório Paladino de Veneza) e na utilização destes por Peter Greenaway na 53a Bienal de Beneza, bem como a diferença desses em relação à reintegração digital do afresco de Mantegna em Pádua.

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2010-11-12 Fotografia e mercado

“Mercado de arte” sempre foi um tema espinhoso e geralmente muito mal compreendido, dadas as posições sintomaticamente antinômicas: negação, aceitação tácita, aceitação comemorativa etc. (Seria uma proposta válida criar uma disciplina específica nos cursos de arte?)

Some-se a isso uma das características mais essenciais da fotografia, a reprodutibilidade técnica, que bem serviu de arma contra a reificação das obras de arte, pela possibilidade de desfazer o fetichismo; mas cujo controle – tiragem e encarniçamento dos direitos autorais – transforma-a tão-só num mecanismo de equilíbrio do valor de mercado, resultando na capacidade de transformar uma produção, por definição, ilimitada quantitativa e qualitativamente – me refiro aos inúmeros formatos e materializações possíveis de uma mesma foto – em um objeto artístico ou artificado (por definição, limitado e com aderência de alguma aura, por mais fina que seja).

Ora, então “fotografia e mercado” é um tema dos mais emocionantes e é muito bem-vindo o simpósio A Fotografia e o Mercado das Artes, promovido pela Fototech-MG, “junto ao Departamento de Fotografia, Teatro e Cinema da UFMG”, segundo email que recebi.

Não creio que o tema venha a ser tratado nesses termos que expus, mas confio, principalmente, que o amigo João Castilho – cuja palestra é “O fotógrafo e a obra artística” – trará boas questões para o debate.

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2010-08-18 Isso só pode ser arte

Só pode ser arte, mas não é.
Só pode ser arte, mas não é.

Meu amigo blogueiro Fofão enviou o link Candidato posta vídeos 'picantes' no YouTube para fazer propaganda eleitoral, com o lacônico comentário: “Começou a criatividade… eu mereço…”

Com bom humor, fui ver os tais vídeos. O primeiro, Loira Sensual em Noite Secreta no Motel, chamou minha atenção pelo título planejado segundo os princípios SEO (Search Engine Optimization), de forma a coincidir com uma das buscas mais comuns no Google – “loira” e “motel”. Vi o vídeo e, diversamente dos demais espectadores que deixaram comentários irados, continuei achando graça, pois havia algo estranho, e não era a referência ao adultério – “Oi querido. Não, eu não estou sozinha. Estou com Jeferson Camillo!”

Fui ver o segundo, Negro e Loiro em Noite Secreta no Motel. O mesmo título com SEO, a mesma frase é dita, mas dessa vez, um casal homossexual. Daí não consegui mais parar de ver: Garota Revela seu Segredo no Motel – cujo segredo é óbvio desde o primeiro segundo; Loiro e Negro em Noite Secreta no Motel – isso mesmo, uma simples inversão do segundo vídeo; e por aí foi até Casal é Surpreendido em Banheira de Motel – que ganhou o seguinte comentário:

Se “algo novo” for um negão dividindo a banheira comigo num motel, morrerei votando nulo (rockmanbn).

Imediatamente pensei em Jeff Koons e numa possível apropriação da linguagem dele pelo movimento GLBTTTS, daí meu comentário:

Cara, isso só pode ser arte! É demais, muito legal como arte! Em outro contexto, talvez (aspas em cada palavra:), viria à baila o direito das minorias à auto-representação estética e política, o homoerotismo kitch e a estética GLBTTTS nas novas mídias e redes, e a forma guerrilheira/resistente como aborda o processo eleitoral e suas limitações intrínsecas em um país ainda marcado pelo preconceito de gênero etc.
Mas claro que não é nada disso, mas se fosse, o tal Camillo-artista seria fera mesmo; inclusive ao manipular o jornalista de forma que saísse no leading da matéria o jocoso “É um material provocativo desenvolvido com base em estudos sobre psicologia das massas”; que seria a etiqueta irônica característica da arte-política atual.

Se fosse arte, mereceria ir à Bienal! Trataria-se de hábil utilização de uma série de poéticas contemporâneas: 1º) um candidato fictício e uma campanha fictícia; 2º) vídeos que mimetizam perfeitamente um dos mais rentáveis braços da indústria cultural – com direito até a making of – , o pornográfico; 3º) um roteiro recursivo que reutiliza absurda, incansável e habilmente o mesmo cenário, o mesmo enredo, os mesmos personagens, a mesma música…

É uma pena não ser arte…

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2010-07-01 Porque desisti da pintura

Há alguns dias me fizeram essa pergunta: “Por que você desistiu da pintura?” Eu não soube responder e por isso acatei timidamente a tirada bem bolada da Piti: “A pintura é que desistiu dele.”

Anos atrás, quando concluí a disciplina Modelo I na EBA-UFMG, presenteei meu então professor e hoje amigo Zé Roberto Schneedorf com o livro Manual de Pintura e Caligrafia do Saramago. Minha motivação foi parte irônica, parte justificatória: a questão já era mais ou menos a mesma.

Ontem a pergunta se repetiu e respondi casualmente sobre minha já antiga inclinação para a teoria e como compreendo minha atual produção escrita quase como objeto artístico. Não bastou, então disparei uma meia-mentira: “Continuo pintando, só não acho que a pintura tem tanta relevância teórica hoje” – farei mistério sobre qual das orações é a mentirosa.

E agorinha assisti a um filme exemplar sobre o limite: Aquiles e a tartaruga, de Takeshi Kitano. Ainda sob o impacto da tragicomédia, talvez seja essa a resposta: é um limite meu, cujo sintoma é o fato de nunca ter tentado realmente vender uma pintura. É como se eu estivesse sempre pintando secretamente um segundo retrato, tal como o personagem de Saramago – no que admito uma boa dose de vaidade.

Bom, basta assistir ao filme; está passando na TV a cabo. Vale também essa bela resenha de Marcelo Rodrigues Souza Ribeiro.

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2010-06-09 VideoCasts para se manter atualizado sobre o mundo da arte

Captura de tela do Miro
Captura de tela do Miro.

Antigamente a melhor forma de ficar por dentro do que estava acontecendo na arte era frequentando um grupo de discussão por email, mas infelizmente houve um desaprendizado geral sobre como se comportar em comunidades desse tipo e discussão é o que menos ocorre hoje em dia. Em vez disso, recebemos enxurradas de “convites” para vernissages às quais nunca poderíamos atender. Tudo bem se a lista é regional, mas é ridículo receber tantos (mantenho as aspas) “convites” em uma lista nacional ou internacional. Dizer que vai expor na China é apenas uma tentativa fútil de autopromoção e todo mundo sabe disso: “Olha gente! Vou expor na China! Vocês obviamente não aparecerão, mas estão convidados!” Seria muito melhor mandar fotos da exposição, até para receber elogios… Mas isso nunca acontece. E nós temos mais o que fazer, não é? Então eu desisti da “discussão” e parei de ler listas. Se gosto do blog de alguém ou de alguma instituição, assino o WikipediaPT:RSS; se gosto ou desgosto do texto, então comento.

Mas muitas vezes o que quero mesmo é ver as vernissages, até porque parte da minha pesquisa é sobre o e[s|x]pectador habitual da arte contemporânea: com ‘s’ e com ‘x’, isto é, como o espectador se comporta frente ao que espera, já que não há muita surpresa hoje em dia (… mas isso é pauta para outra ocasião). Outros poderão se interessar pelos tipos, pelas roupas, pelas palavras e nomes-chave etc.

O Youtube e outros sites de vídeo não servem só para besteira. Há cada vez mais vídeos mostrando vernissages, intervenções e entrevistas no Brasil e no mundo, inclusive na China. Em geral, são gostosos de assistir e, às vezes, tiram aquela dúvida atroz sobre o trabalho que vimos em uma fotografia.

Acompanhar vários “canais” usando o navegador pode ser maçante; por isso, o mais prático é assisti-los através de WikipediaPT:VodCast (semelhante ao RSS dos blogs). Me adaptei muito bem ao Miro, software livre e multiplataforma que baixa os vídeos automaticamente (em HD se disponível), enquanto faço outras coisas. É realmente muito interessante!

Eis uma lista dos vodcasts que assino:

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2010-05-18 Documentário Grupo Poro

Saiu em fevereiro, mas só assisti agora; que pecado. O importante é que vale a pena ver o documentário sobre o Grupo Poro, não só pela qualidade e relevância das intervenções urbanas da Brígida e do Marcelo, mas também porque é um vídeo muito bem cuidado e informativo.

Interessante o “colofão” (não sei como se chama isso em vídeo):

[…] no intuito de incentivar jovens participantes de grupos e movimentos organizados a expressarem suas ideias no espaço público.

Sem dúvida é um incentivo. A meu ver, o trabalho do Poro se diferencia primeiro pelo lirismo no engajamento – “O que fazer diante de um Ronaldinho que ocupa um prédio de 30 andares?”, pergunta a Brígida, que responde “[…] na contra-mão: não é o prédio de 30 andares, mas a intervenção de 30 centímetros…”. Agora acrescento que se diferencia também pela qualidade do registro.

Isso me parece de suma importância: cada vez mais acredito que a arte deve aceitar diminuir-se para ser engajada. Entretanto, esse “diminuir-se” não é uma questão de escala, trata-se de um “caber no bolso”.

O lirismo dos 30 cm soma-se então à diminuição para a difusão.

Parabéns Poro!

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2010-05-05 Dissertação em pdf

Conforme já havia anunciado, minha dissertação Pintura para catálogos foi chancelada com publique-se. Inicialmente fiquei animado com a possibilidade de transformá-la em livro, mas logo percebi que me custaria justamente transformá-la em livro e isso vai demorar: reduzir o ranço acadêmico, a gordura – a profusão de citações – e o rebolado – os pressupostos sobre a audiência.

Como a internet tem sido meu principal meio de publicação e como prefiro divulgar a mostrar-e-guardar, resolvi disponibilizar o texto completo e já com a seguinte mensagem:

Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho, por qualquer meio tradicional ou eletrônico, para fins de estudo ou pesquisa, desde que citada a fonte.

Download da dissertação Pintura para Catálogos em PDF Ebook.

Download da dissertação Pintura para Catálogos em PDF Prepress.

Veja a dissertação Pintura para Catálogos online no SlideShare.

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2010-03-26 Convite A Construção do Real

Gostaria de convidá-los para o colóquio A construção do real: fotografia, documento, ficção que contará com a participação de André Rouillé, autor do livro A fotografia entre documento e arte contemporânea.

Convite para o colóquio A construção do real: fotografia, documento, ficção.
Convite para o colóquio A construção do real: fotografia, documento, ficção.

Minha palestra será dia 16 próximo, com a seguinte ementa:

A fotografia do museu
A partir de uma imagem paradigmática de 1965, digressaremos das teorias mais partilhadas sobre a fotografia e elaboraremos uma série de comparações com obras contemporâneas que também “fotografam o museu”, visando assim abordar politicamente o próprio museu e a obra de arte fotografada no momento de sua exposição. Com isso discutiremos a formação de um espaço discursivo específico pela radicalização da recriação fotográfica e procuraremos introduzir a noção de dupla substituição/duplo registro, que torna indesejável a oposição original/cópia ao revelar as verdadeiras razões da valorização da originalidade.

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