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Diário

2010-08-18 Isso só pode ser arte

Só pode ser arte, mas não é.
Só pode ser arte, mas não é.

Meu amigo blogueiro Fofão enviou o link Candidato posta vídeos 'picantes' no YouTube para fazer propaganda eleitoral, com o lacônico comentário: “Começou a criatividade… eu mereço…”

Com bom humor, fui ver os tais vídeos. O primeiro, Loira Sensual em Noite Secreta no Motel, chamou minha atenção pelo título planejado segundo os princípios SEO (Search Engine Optimization), de forma a coincidir com uma das buscas mais comuns no Google – “loira” e “motel”. Vi o vídeo e, diversamente dos demais espectadores que deixaram comentários irados, continuei achando graça, pois havia algo estranho, e não era a referência ao adultério – “Oi querido. Não, eu não estou sozinha. Estou com Jeferson Camillo!”

Fui ver o segundo, Negro e Loiro em Noite Secreta no Motel. O mesmo título com SEO, a mesma frase é dita, mas dessa vez, um casal homossexual. Daí não consegui mais parar de ver: Garota Revela seu Segredo no Motel – cujo segredo é óbvio desde o primeiro segundo; Loiro e Negro em Noite Secreta no Motel – isso mesmo, uma simples inversão do segundo vídeo; e por aí foi até Casal é Surpreendido em Banheira de Motel – que ganhou o seguinte comentário:

Se “algo novo” for um negão dividindo a banheira comigo num motel, morrerei votando nulo (rockmanbn).

Imediatamente pensei em Jeff Koons e numa possível apropriação da linguagem dele pelo movimento GLBTTTS, daí meu comentário:

Cara, isso só pode ser arte! É demais, muito legal como arte! Em outro contexto, talvez (aspas em cada palavra:), viria à baila o direito das minorias à auto-representação estética e política, o homoerotismo kitch e a estética GLBTTTS nas novas mídias e redes, e a forma guerrilheira/resistente como aborda o processo eleitoral e suas limitações intrínsecas em um país ainda marcado pelo preconceito de gênero etc.
Mas claro que não é nada disso, mas se fosse, o tal Camillo-artista seria fera mesmo; inclusive ao manipular o jornalista de forma que saísse no leading da matéria o jocoso “É um material provocativo desenvolvido com base em estudos sobre psicologia das massas”; que seria a etiqueta irônica característica da arte-política atual.

Se fosse arte, mereceria ir à Bienal! Trataria-se de hábil utilização de uma série de poéticas contemporâneas: 1º) um candidato fictício e uma campanha fictícia; 2º) vídeos que mimetizam perfeitamente um dos mais rentáveis braços da indústria cultural – com direito até a making of – , o pornográfico; 3º) um roteiro recursivo que reutiliza absurda, incansável e habilmente o mesmo cenário, o mesmo enredo, os mesmos personagens, a mesma música…

É uma pena não ser arte…

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2010-07-01 Porque desisti da pintura

Há alguns dias me fizeram essa pergunta: “Por que você desistiu da pintura?” Eu não soube responder e por isso acatei timidamente a tirada bem bolada da Piti: “A pintura é que desistiu dele.”

Anos atrás, quando concluí a disciplina Modelo I na EBA-UFMG, presenteei meu então professor e hoje amigo Zé Roberto Schneedorf com o livro Manual de Pintura e Caligrafia do Saramago. Minha motivação foi parte irônica, parte justificatória: a questão já era mais ou menos a mesma.

Ontem a pergunta se repetiu e respondi casualmente sobre minha já antiga inclinação para a teoria e como compreendo minha atual produção escrita quase como objeto artístico. Não bastou, então disparei uma meia-mentira: “Continuo pintando, só não acho que a pintura tem tanta relevância teórica hoje” – farei mistério sobre qual das orações é a mentirosa.

E agorinha assisti a um filme exemplar sobre o limite: Aquiles e a tartaruga, de Takeshi Kitano. Ainda sob o impacto da tragicomédia, talvez seja essa a resposta: é um limite meu, cujo sintoma é o fato de nunca ter tentado realmente vender uma pintura. É como se eu estivesse sempre pintando secretamente um segundo retrato, tal como o personagem de Saramago – no que admito uma boa dose de vaidade.

Bom, basta assistir ao filme; está passando na TV a cabo. Vale também essa bela resenha de Marcelo Rodrigues Souza Ribeiro.

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2010-06-09 VideoCasts para se manter atualizado sobre o mundo da arte

Captura de tela do Miro
Captura de tela do Miro.

Antigamente a melhor forma de ficar por dentro do que estava acontecendo na arte era frequentando um grupo de discussão por email, mas infelizmente houve um desaprendizado geral sobre como se comportar em comunidades desse tipo e discussão é o que menos ocorre hoje em dia. Em vez disso, recebemos enxurradas de “convites” para vernissages às quais nunca poderíamos atender. Tudo bem se a lista é regional, mas é ridículo receber tantos (mantenho as aspas) “convites” em uma lista nacional ou internacional. Dizer que vai expor na China é apenas uma tentativa fútil de autopromoção e todo mundo sabe disso: “Olha gente! Vou expor na China! Vocês obviamente não aparecerão, mas estão convidados!” Seria muito melhor mandar fotos da exposição, até para receber elogios… Mas isso nunca acontece. E nós temos mais o que fazer, não é? Então eu desisti da “discussão” e parei de ler listas. Se gosto do blog de alguém ou de alguma instituição, assino o WikipediaPT:RSS; se gosto ou desgosto do texto, então comento.

Mas muitas vezes o que quero mesmo é ver as vernissages, até porque parte da minha pesquisa é sobre o e[s|x]pectador habitual da arte contemporânea: com ‘s’ e com ‘x’, isto é, como o espectador se comporta frente ao que espera, já que não há muita surpresa hoje em dia (… mas isso é pauta para outra ocasião). Outros poderão se interessar pelos tipos, pelas roupas, pelas palavras e nomes-chave etc.

O Youtube e outros sites de vídeo não servem só para besteira. Há cada vez mais vídeos mostrando vernissages, intervenções e entrevistas no Brasil e no mundo, inclusive na China. Em geral, são gostosos de assistir e, às vezes, tiram aquela dúvida atroz sobre o trabalho que vimos em uma fotografia.

Acompanhar vários “canais” usando o navegador pode ser maçante; por isso, o mais prático é assisti-los através de WikipediaPT:VodCast (semelhante ao RSS dos blogs). Me adaptei muito bem ao Miro, software livre e multiplataforma que baixa os vídeos automaticamente (em HD se disponível), enquanto faço outras coisas. É realmente muito interessante!

Eis uma lista dos vodcasts que assino:

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2010-05-18 Documentário Grupo Poro

Saiu em fevereiro, mas só assisti agora; que pecado. O importante é que vale a pena ver o documentário sobre o Grupo Poro, não só pela qualidade e relevância das intervenções urbanas da Brígida e do Marcelo, mas também porque é um vídeo muito bem cuidado e informativo.

Interessante o “colofão” (não sei como se chama isso em vídeo):

[…] no intuito de incentivar jovens participantes de grupos e movimentos organizados a expressarem suas ideias no espaço público.

Sem dúvida é um incentivo. A meu ver, o trabalho do Poro se diferencia primeiro pelo lirismo no engajamento – “O que fazer diante de um Ronaldinho que ocupa um prédio de 30 andares?”, pergunta a Brígida, que responde “[…] na contra-mão: não é o prédio de 30 andares, mas a intervenção de 30 centímetros…”. Agora acrescento que se diferencia também pela qualidade do registro.

Isso me parece de suma importância: cada vez mais acredito que a arte deve aceitar diminuir-se para ser engajada. Entretanto, esse “diminuir-se” não é uma questão de escala, trata-se de um “caber no bolso”.

O lirismo dos 30 cm soma-se então à diminuição para a difusão.

Parabéns Poro!

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2010-05-05 Dissertação em pdf

Conforme já havia anunciado, minha dissertação Pintura para catálogos foi chancelada com publique-se. Inicialmente fiquei animado com a possibilidade de transformá-la em livro, mas logo percebi que me custaria justamente transformá-la em livro e isso vai demorar: reduzir o ranço acadêmico, a gordura – a profusão de citações – e o rebolado – os pressupostos sobre a audiência.

Como a internet tem sido meu principal meio de publicação e como prefiro divulgar a mostrar-e-guardar, resolvi disponibilizar o texto completo e já com a seguinte mensagem:

Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho, por qualquer meio tradicional ou eletrônico, para fins de estudo ou pesquisa, desde que citada a fonte.

Download da dissertação Pintura para Catálogos em PDF Ebook.

Download da dissertação Pintura para Catálogos em PDF Prepress.

Veja a dissertação Pintura para Catálogos online no SlideShare.

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2010-03-26 Convite A Construção do Real

Gostaria de convidá-los para o colóquio A construção do real: fotografia, documento, ficção que contará com a participação de André Rouillé, autor do livro A fotografia entre documento e arte contemporânea.

Convite para o colóquio A construção do real: fotografia, documento, ficção.
Convite para o colóquio A construção do real: fotografia, documento, ficção.

Minha palestra será dia 16 próximo, com a seguinte ementa:

A fotografia do museu
A partir de uma imagem paradigmática de 1965, digressaremos das teorias mais partilhadas sobre a fotografia e elaboraremos uma série de comparações com obras contemporâneas que também “fotografam o museu”, visando assim abordar politicamente o próprio museu e a obra de arte fotografada no momento de sua exposição. Com isso discutiremos a formação de um espaço discursivo específico pela radicalização da recriação fotográfica e procuraremos introduzir a noção de dupla substituição/duplo registro, que torna indesejável a oposição original/cópia ao revelar as verdadeiras razões da valorização da originalidade.

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2010-01-19 Uma foto de Ouro Preto

Não há melhor lugar para descansar. Wanda e eu vamos todos os anos, geralmente em janeiro – eu gosto do calor e de alguma chuva em Ouro Preto: para mim é uma cidade de veraneio, pois acho difícil suportar as noites frias e sempre arrumo uma torção no inverno…

É impressionante como sempre somos bem recebidos na Hospedaria Antiga, onde ficamos no quarto voltado para a ladeira de Santa Efigênia, de onde podemos ver também o Pico do Itacolomi. Além disso, sempre comemos maravilhosamente no que chamamos, brincando, de "truste" dos Tropia; e bebemos a “fresca” nos botecos “da última” espalhados nos cantinhos da parte mais baixa da cidade. Não há nada melhor que tomar uma cerveja sob as árvores próximas à Ponte da Barra ou no largo atrás da Igreja do Pilar.

Por isso, para achar esses lugares, andamos sempre a pé, sempre: não se conhece Ouro Preto de carro, é necessário andar e muito. Para mim, que geralmente fico uma semana, subir e descer as ladeiras só é difícil no primeiro e no último dias: no primeiro falta preparo físico, no último a panturrilha dói um pouco.

Mas vale a pena, pois há sempre um ângulo, uma figura, um acontecimento; e, sobretudo, há a população. Nos cafés geralmente há um artista ou intelectual para conversar, mas o especial é o trabalhador ouro-pretano. Na rua, pedimos informações mesmo sem precisar só para puxar papo: são todos sempre solícitos, amigáveis e altivos (ainda mais agora, com os avanços na área social do Governo Lula), sem a timidez e a falsa subserviência que incomoda em algumas cidades interioranas. Há claro, muita gente se oferecendo como guia turístico, mas nunca são incômodos; basta recusar uma vez.

Depois de subir a ladeira de Santa Efigênia, sempre encontramos um bom conversador – acho isso muito interessante. Dessa vez a Igreja de Santa Efigênia estava fechada, em restauração, mas visitamos o Centro de Cultura Afro-Brasileira ao lado, com uma boa exposição sobre o congado do fotógrafo Dimas Guedes. (Dicas para subir a ladeira: 1- compre água antes de subir; 2- para ir ao banheiro, basta pedir a chave na casa paroquial; 3- desça o outro lado até a Capela do Padre Faria). Dessa vez, então, a conversa foi sobre os personagens folclóricos de Ouro Preto e sobre a riqueza da “Igreja dos Pretos”, como é chamada.

Não bastasse a afinidade, a beleza de Ouro Preto é ímpar; e nós vamos lá principalmente para apreciar as formas, para sofrer um pouco a síndrome de Stendhal. Mas, por mais estranho que pareça, como artista, acho uma cidade ingrata para fotografar, pois constantemente tenho a impressão de captar as mesmas imagens clichê. É a cidade da democracia fotográfica, sem dúvida: qualquer turista tira fotos maravilhosas sem muito esforço… Do que se deduz que poucos artistas trabalharão com sucesso o casario e as igrejas de Ouro Preto…

Bom. Finalmente fiz uma fotografia de Ouro Preto que é “uma foto de Ouro Preto”, mas um pouco diferente:

Uma foto de Ouro Preto.
Uma foto de Ouro Preto.

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2009-12-21

Pintura para catálogos: publique-se!
Pintura para catálogos: publique-se!

Pintura para catálogos: notas sobre o arquivamento da arte, minha dissertação de mestrado, foi aprovada com indicação para publicação! Agradeço à minha banca – Edson Rosa da Silva (UFRJ), Patrícia Franca (UFMG) e Maria Angélica Melendi (Piti, minha orientadora, UFMG) – pela leitura atenta e pelo elogio mais desejado pelo pesquisador. Agradeço também a todos os amigos e colegas pela força e pela presença na defesa.

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2009-12-15 Convite para minha defesa

Convite para minha defesa de mestrado, dia 21 próximo (clique para ampliar).
Convite para minha defesa de mestrado, dia 21 próximo (clique para ampliar).

Pintura para catálogos | resumo

A partir do estudo de catálogos de exposição evidentemente institucionais segundo as relações que produzem dentro da biblioteca, introduz o conceito/provocação pintura para catálogos e verifica sua possibilidade retomando a discussão da arte como fotografia, negligenciada em seu surto mais universal. A partir da pintura fotografada e da percepção de que o museu sucumbe a um vetor de valores cuja ponta é o valor de arquivamento, busca determinar as características da nova relação da arte com seu arquivo em nossa era digital, problematizando tal relação segundo dialéticas não conciliatórias inspiradas em Benjamin, sempre procurando a perspectiva da reanimação ante a reificação – no que obtém apenas sucesso parcial. Para isso, operacionaliza o conceito de museu imaginário de Malraux, defendendo-o ante as críticas de Crimp, transportando-o para o tempo presente, aguçando sua dubiedade e retrabalhando as noções de ressurreição e recriação fotográfica para propor uma pauta de engajamento que consiste em seguir-produzindo (conceito derivado de Foster) uma arte caracterizada pela difusão (metáfora luminosa) e pela diminuição (conceito derivado de Benjamin). Tal produção é marcada pela possibilidade de uma dupla substituição concomitante a um duplo registro da obra de arte, o que torna a distinção entre original e cópia desimportante e até indesejável, visto que a defesa dos “valores do original” geralmente garante o livre movimento do poder-saber em espaços diagramáticos identificados como fábricas de catálogo. Para sondar o funcionamento dessas fábricas e propor escapes, constrói outra definição de catálogo baseada no conceito de arquivo, segundo as concepções de Derrida e Foucault, e busca alternativas de uso. Explicita, então, essas questões no contexto artístico de Belo Horizonte, recorrendo a alguns “textos de artista” marcados pela informalidade.

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2009-12-02 Tri-bi na EBA

“Tri-bi”, proposta da Liliza para seus alunos na EBA UFMG.
“Tri-bi”, proposta da Liliza para seus alunos na EBA UFMG.

Estou fixado em catálogos, todo mundo já sabe – pode ser que isso passe depois de minha defesa, dia 21. Se vejo um fora da estante, paro e vou logo perguntando o porquê dele estar ali em uso, como se todos os catálogos do mundo competissem a mim. Não por ciume. Sempre procuro demonstrações de minhas hipóteses sobre o catálogo, mas é raro encontrar um interlocutor que entenda minha euforia diante de um simples exemplar aberto.

Ontem tive uma ótima surpresa: a Liliza Mendes tinha montado uma pequena exposição na “piscina” da EBA-UFMG; segundo ela, Tri-bi, em referência às dimensões. Chamei atenção para o fato de quase todos os “bi” serem catálogos: —Realmente –concordou a Liliza– só conhecemos a maioria dessas obras pelo catálogo. —Até mesmo o Abaporu… –emendei. —Que está na Argentina –completou.

Fiquei pensando na falta do Abaporu, nas discussões se ele deveria estar no MALBA ou no Brasil, se realmente deveria haver essa “reserva nacional” de obras que merecem ganhar o mundo, e na contrapartida óbvia de que as obras de importância mundial raramente ficam no Brasil… Mas isso logo passou, pois mesmo que o Abaporu estivesse ali na galeria da EBA, ainda assim, o catálogo teria sido aberto.

A ausência física da obra é apenas um gatilho histórico para que o catálogo assuma papel substitutivo. Desde então não há mais volta: o catálogo sempre substituirá – inclusive a obra presente. Minha tese principal é que as pinturas não podem mais ser vistas fora do catálogo, isso é usadas, acessadas, compreendidas.

Essa fotografia demonstra isso. Apesar de distante fisicamente, o Abaporu, está presente, duplo-substituído pelo catálogo e complementado pelo “tri” dele derivado. Verificada essa presença junto com Antropofagia, notamos então uma ausência gritante: onde está o Sol Poente? O catálogo de Tarsila do Amaral passa a ser essencial ele domina nossa percepção e, por isso, nossos sentidos giram em falso: onde está a parte “bi” do complemento Tri-bi Sol Poente?

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