2008-06-23
Sim. É hora de rediscutir a Ditadura Militar e principalmente a Anistia “ampla, geral e irrestrita”. Com a esquerda no poder, as vozes e ecos da Ditadura – os torturadores, apoiadores e covardes – se fazem ouvir cada vez mais alto. Estão realmente loucos! Apesar de o Governo Lula não ser nem a metade do que eu desejava, sem dúvida “a esperança venceu o medo”. E as forças do medo, do obscurantismo, do regime de exceção, agora buscam sua revanche.
Muitos sinais vêm demonstrando que a opção brasileira pelo esquecimento foi um erro. Deveríamos tê-los prendido, pois torturador que fica livre sempre carrega consigo seu estojo de instrumentos desumanos.
O que o senador Agripino Maia (DEM-RN) falou à ministra Dilma Rousseff no início de maio não foi ato falho, nem mancada. Ele perguntou se ela mentiria no depoimento à CPI como mentiu antes, na Ditadura, sob tortura. A imprensa amenizou o fato, disse que foi uma pergunta infeliz, que levantou a bola para a ministra, que ela saiu por cima e que utilizou o constrangimento para se livrar etc. Mas a verdadeira intenção do senador era torturá-la novamente, desestabilizá-la emocionalmente com a memória. Ele esperava fazer isso e ainda ser ovacionado, algo típico da moral corrompida do torturador. Foi ao menos absolvido: nenhum grande jornal abordou o assunto segundo um ponto de vista ético. E o Conselho de Ética? Só investiga dança no plenário? Tortura psicológica pode, desde que o autor não requebre?
Pois é. Em meados desse mês, a grande imprensa publicou várias reportagens denunciando indenizações “milionárias” para perseguidos pelo Regime Militar. As reportagens, geralmente cuidadosas, buscavam confrontar “verdadeiros perseguidos”, ganhando pouco, e “não tão perseguidos”, ganhando milhões. Isso gerou revolta até mesmo na esquerda, que anda, sim, engolindo muito do discurso reacionário travestido de ético. Mas o buraco é outro: o que essas reportagens buscam, na verdade, é desqualificar todo o trabalho da Comissão de Anistia; é impedir toda e qualquer indenização. Priscila Lobregatte escreveu uma ótima matéria sobre o que andam chamando, loucamente, de “Bolsa-Ditadura”, vale conferir: Indenização a jornalistas mostra que anistia ainda gera polêmica.
Alguns meses atrás, a revista Época publicou uma série de reportagens sobre livros didáticos de História, denunciando algo como um estratagema de doutrinamento das crianças pelos comunistas. Numa das matérias, chegam a falar sobre o risco de “incutir nelas [nas crianças] idéias que já se provaram equivocadas e torná-las menos capazes de lidar com as complexidades do mundo.” Ora! Não é que o velho conto do apolítico, do não-ideológico, continua pegando? Não-ideológico é dizer que as idéias socialistas são equivocadas. Ideológico é ensinar materialismo histórico logo depois das doutrinas liberais. Um livro didático realmente crítico, não-ideológico, então, deveria etiquetar todos os líderes populares de ditadores, falar principalmente “sobre os cerca de 70 milhões de chineses que morreram de fome ou por execuções por causa do regime de Mao”, deixando de lado todos os mortos pelo Imperador, pelo Japão e pelas potências européias colonialistas? Afinal, o “muro caiu” e a história tem que ser ensinada só segundo a perspectiva dos vencedores, senão é “doutrina”? Marcelo Rito escreveu um bom artigo, nada doutrinário, sobre o assunto, vale conferir: Época e a caça aos Livros didáticos.
E hoje li a gota d’água. Meu copo transbordou! Vamos prender esses merdas! Chega de esquecimento!
Saiu na Folha de São Paulo de hoje que, no final de 2007, o Conselho de Promotores do RS aprovou – por unanimidade! – relatório pedindo a “dissolução” do MST. Mas como o MST é um movimento e não uma empresa ou algo “solúvel”, não existe aplicabilidade dessa decisão, senão a proibição de que os indivíduos se congreguem como MST. O que os promotores do RS pedem é que se decrete a ilegalidade de um movimento popular!
As forças do medo e do obscurantismo estão é gritando! Vamos ficar calados? Vamos continuar buscando a amnésia? A anistia deve ser revisada, sim! Que se exclua dela os torturadores, apoiadores e covardes! Se não fizermos isso, sem dúvida, a ditadura vai voltar, de uma forma ou de outra…