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Diário

2008-02-29

Hoje as imagens passam bem sem uma legenda. Das discussões sobre a relação entre texto e imagem, fico com Barthes quando fala de uma comunicação logoicônica: “que não é a imagem nem a linguagem, mas essa imagem acompanhada de linguagem”1. A legenda, então, acompanharia a imagem, sem duelar com ela, sem determiná-la.

O lugar da legenda "Com amigos no Lucas"
O lugar da legenda "Com amigos no Lucas"

Mas nem sempre foi assim. Antigamente (vamos dizer: até 1950), o texto fazia a imagem falar. Marin2, lidando com o século XVII, nos diz que o texto era compreendido como aquilo que supre a falta na/da imagem. “Falta” com duplo sentido: de ausência na imagem e de erro da imagem. O texto emprestava uma linguagem à imagem, que era muda.

Vai daí que… Quando li sobre o fim da foto instantânea, pensei no fim de um lugar que o filme Polaroid representava como nenhum outro: o lugar da legenda, a borda inferior que dá ao filme seu formato sui generis, a comunhão perfeita entre soluções técnica e estética.

Na arte, é impossível mencionar “Polaroid” sem “Andy Warhol”. O interessante é que talvez tenha sido ele um dos principais responsáveis pela imagem que prescinde de legenda, ao adotar a re-produção técnica como poética.

“Re-produção”, pois é importante notar que a fotografia produzida com Polaroid é única, reprodutível apenas por outros meios. Nas obras de Warhol, a margem inconfundível não é apenas o lugar da legenda, mas também e principalmente o lugar da assinatura. É esse o punctum dolens: assinar arte, tornar única, uma imagem que é semelhante àquelas que nos soterram – as embalagens, os anúncios, os ícones pop…

A forma como Warhol tira obras de arte com sua Polaroid (veja Youtube:FYO5pN25jSc) parece demonstrar a vontade de agudizar um processo de transformação da imagem; é ontológico: acelerar uma viragem no próprio ser da imagem.

Esse novo ser da imagem artística, parece, foi alcançado hoje. Trata-se de uma imagem que – para além de não ter código, para além de ser muda – é simplesmente incomunicante e, por isso, paradoxalmente bela desde que não esteja legendada.

O fim da Polaroid não é, portanto, obsolescência de uma técnica, mas de um certo tipo de imagem. E o mais interessante disso é que a técnica nasceu justamente na fase terminal, contribuindo nela.

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Notas de rodapé:

1. A civilização da imagem. In: Imagem e Moda, Martins Fontes, 2005. p. 79.
2. Ler um quadro em 1639, segundo uma carta de Poussin. In: Sublime Poussin, Edusp, 2000