2009-03-12
O Palácio das Artes volta à vida depois do Carnaval. Das três exposições que abriram ontem, ao menos uma tem que ser vista, a de André Hauck, Rastros.
Fotografias digitais coloridas de interiores urbanos deteriorados, ampliadas a dimensões consideráveis e montadas de maneira tradicional, lado a lado, igualmente espaçadas, todas de mesmo tamanho. Dito assim, parece clichê. Mas não: há algo sutil nas fotos; uma proximidade estranha…
Palavra interessante essa, “clichê”: tenho aqui um manual antigo (a ponto de não ter data impressa), Como obter boas fotografias; nele a palavra é usada em sua acepção original, que é “prova fotográfica”. Mas, ao mesmo tempo, ele é a demonstração do que é clichê no sentido de lugar-comum. Recorri a ele para relembrar qual o efeito da grande-angular: “O mais pequeno quarto fotografado com uma objectiva grande-angular tomará proporções gigantescas. A grande-angular faz aparecer os planos situados próximo de nós bem mais afastados e separados do que verdadeiramente estão na realidade.” Minha memória não tinha falhado. Um dos exemplos do livro mostrava isso: uma distância perturbadora, uma fotografia sanitária.
Há nas fotos uma dissonância visual familiar como vergonha de banheiro sujo e fedorento com visita em casa. Justamente o contrário do que se espera nesse tipo de assunto. E isso não é coincidência, nem recurso fácil. O quê diferente da abordagem de André Hauck sobre esse tema recorrente não é um fenômeno técnico, não é o uso da grande-angular o que transforma estes lugares-sem-lugar em domésticos.
Alguns dos cenários eu conheci durante a intervenção da Kaza Vazia no Mercado Novo de Belo Horizonte, em fevereiro de 2008. Em um deles, me lembro de uma performance de Jéssica Azevedo e Fabiana Bergamini: as moças se enlameavam ali naquele local fétido e aquilo me pareceu muito sensual.
As fotos do André também me fizeram sentir certa depravação. O que mais atrairia um “bom cidadão” a lugares como esses? Citando Krauss, Corpus delicti. Mas não há corpos… Há um portão vermelho com sacos plásticos pretos (dos filmes de Hollywood). Soube pelo André se tratar de um mausoléu. Adequado.
O nome Rastros me fez pensar em “rastros de um crime”. Deve haver um livro ou um filme B com esse nome, sem dúvida. Por isso não gostei do título. No texto de divulgação da exposição[1], encontrei um nome melhor: “dramas discretos”. Talvez seja pedante, mas gosto mais.
Nome é nome, besteira. O que vale é dar um pulo na galeria, trajado de bom cidadão e sentir-se suavemente pervertido vendo fotografias não sanitarizadas em um ambiente familiar. Boa exposição.