2010-05-21 Tema Ambience e impacto no trabalho com cores
Sempre gosto de personalizar MeuLinux, buscando um ambiente de trabalho atraente mas também eficiente e neutro. Fuço, fuço, fuço, mas geralmente não mudo muito o tema padrão (cf., p. ex., MeuLinux20081031, que ainda uso no velho desktop) e isso sempre me incomodou. Como todo mundo, eu também quero um visual legal e diferente.
Com o tema Ambience do Ubuntu Lucid Lynx não mudei (quase) nada e – pela primeira vez! – me senti feliz.
Há muitos, muitos temas por aí. Como artista, sempre achei interessante essa produção visual à qual tantos dedicam tantas horas, obtendo resultados estéticos notáveis, mas em geral falhos em sua finalidade. É difícil acreditar que alguém utilize o que posta no http://gnome-look.org/; não dá para trabalhar – principalmente com imagens – em ambientes visualmente apelativos e, infelizmente, a maior parte dos temas peca nesse aspecto.
Feliz com o tema Ambience e com um conkyrc pouco modificado (baseado nessa postagem sobre conkyrc do FabMak), resolvi refletir sobre as razões que tornam tão difícil para mim sair dos cinzas neutros se a ideia é produtividade.
Pensei algum tempo e resolvi admitir para mim mesmo que o tema ideal:
- não é colorido;
- é composto somente por cinzas (sem branco ou preto absolutos);
- mede bem o lugar do cinza escuro e do claro;
- possui decoração de janela sóbria, mas com efeito tridimensional;
- usa fonte sem serifa;
- obedece a ordem da leitura.
Trabalho com a cor (todo mundo hoje trabalha com cores, na verdade) e por isso prestei maior atenção ao impacto do tema nesse aspecto. Isso, claro, é uma questão de usabilidade, mas minha preocupação maior é a percepção.
Conteúdo
O tema ideal e a percepção das cores
Sempre há dois fatores ditando nossa percepção das cores: primeiro o fato de não existir cor absoluta, depois a escolha que nosso cérebro faz sobre qual cor é qual, quando uma outra escolha depende dessa decisão. O tema interfere em ambos.
Como parede e não como quadro
O primeiro fator é fácil: uma cor sempre se relaciona com outra, seja por afinidade e analogia, seja por dissonância. O Agave, por exemplo, automatiza muitos dos usos do disco cromático (cf. WikipediaPT:Portal:Cores) e por isso é tão útil ao designer: a oposição de cores complementares, por exemplo, é uma fórmula mágica para conseguir vibrações e destaque com harmonia. A ideia de esquemas de cores resulta do fato de que algumas relações, como a complementariedade, agradam nossa percepção; e salpicando um pouco de uma cor na outra, encontramos toda uma série de harmonias.
Usar um esquema de cores bem estudado em um tema parece algo acertado: haverá tendência à neutralidade e, portanto, à harmonia; bastando escolher, então, o acorde principal – se frio ou quente, vibrante ou pálido. O problema, entretanto, é que não há como saber se tal esquema se aplicará também às outras cores que aparecerão no navegador, no editor de imagens, no texto.
Você já se perguntou por que o plano de fundo vem incluído na maioria dos temas? O primeiro teste para um tema é justamente mudar a imagem do plano de fundo. No screenshot do alto da página dá para ver como meu trabalho Depois de Fernando Bryce coube bem no Ambience. Ele não ficaria agradável em nenhum tema colorido justamente porque há um complexo esquema de cores interno nessa imagem multicolorida.
Eis o limite: todos os conteúdos que trabalhamos hoje em dia são multicoloridos. E qualquer esquema de cores só funciona isoladamente. Se o usamos em uma página web, por exemplo, presumimos que a soma dele com o entorno (o tema) resultará em algum neutro. Usar um esquema de cores em um tema, portanto, é um contra-senso: o tema não pode ser o quadro, ele é a parede – e por isso deve conter apenas valores (branco, preto ou cinza) se pretende ser universal em sua finalidade.
O problema dos screenshots do http://gnome-look.org/ é justamente mostrar o tema como quadro.
Como paleta de pintura
O segundo fator que dita nossa percepção é mais sub-reptício: para a nossa percepção, as cores e valores mudam na relação; entretanto, se prestarmos atenção justamente à questão cromática, nosso cérebro tenderá a absolutizar as cores, nomeando-as e tornando-as invariáveis.
Dois exemplos:
- O abacate é sempre mais verde no supermercado
- ao chegar em casa ele está pálido, mas imediatamente lembramos do tom que vimos antes e o abacate volta a ficar verde escuro. O supermercado nos engana com a luz azulada e nós somos obrigados a aceitar essa luz depois.
- A mudança mágica da cor das roupas, muito comum para as mulheres
- a amiga diz “Que lindo esse azul-sei-lá-qual!”, apontando o vestido “verde” e ele imediatamente vira “azul-sei-lá-qual”; e permanece assim até que outra amiga diga alguma outra cor. E por aí vai, mas um dia a dona do vestido se convence sobre qual é a “cor verdadeira” dele. Nesse dia, ela diz para o marido: “Vocês homens não sabem nada de cor!”
Na verdade, isso resulta de duas questões paralelas. Nosso cérebro cria uma regularidade sem a qual o mundo seria psicodélico (e essa é justamente a falha das teorias puramente físicas da cor, como a de Newton): os objetos mudariam de cor o tempo todo, já que intensidade e incidência determinam ou distintos pacotes, ou distintas larguras de onda. Depois, nossa percepção não é dada, é sempre interpretativa (deixo para o Merlau-Ponty essa discussão).
No metiê da imagem isso já foi um problema grave: tal como no caso do vestido, era necessário convencer o gráfico sobre a “cor verdadeira” (a cor local) e para isso era necessário um Pantone® (um código de cores) e/ou um colorímetro, isolando cada cor da composição de forma que o resultado equivalesse ao original.
Mas a briga com as impressoras atuais é um pouco diferente: ela sabe o código da cor local, nós é que não sabemos: no lugar da equivalência, desejamos a igualdade entre dois tipos de cor intrinsecamente diferentes: cor-luz e cor-pigmento. É importante caracterizar e calibrar os dispositivos, mas isso só adequará a conversão dos espaços de cor RGB para CMYK, não facilitará nada o verdadeiro trabalho de composição das cores.
O tema da área de trabalho torna-se um fator importantíssimo, pois nossa relação com a mistura dos pigmentos na paleta de pintura muda radicalmente. Antes dosávamos a cor à mão: se eu misturava um monte de amarelo com um pouquinho de azul, sabia que o resultado era mais amarelo que verde e isso me fazia nomear tal cor “amarelo”. Esse “amarelo” poderia até parecer verde quando cercado por um azul, um vermelho e um marrom, não importava: eu havia misturado, então eu sabia a cor. O Pantone® era só para convencer o gráfico.
No computador, a não ser que eu trabalhe substantivando as cores, escolhendo-as pelo código e não pela visão, nunca terei a certeza (da mão) sobre qual é a “cor verdadeira” (a cor local) do que resolvi nomear “amarelo” em um caso específico. Essa é a questão: o abacate pode mesmo estar verde pálido e eu tenho que aceitar isso como fato inelutável se sondo o código RGB e encontro #98FB98.
Então, no lugar de encontrar a “cor verdadeira” (a máquina fará isso), nosso problema é encontrar as verdadeiras relações entre as cores; isto é: criar uma relação estável até na mudança de meio. As cores locais não serão as que eu esperava, mas o conjunto resultante será equivalente ao meu intento criativo.
De nada adiantará um monitor caracterizado e calibrado se, ao redor da imagem que estou criando, vejo um amarelo-ouro rajado com algum azul, e uma série de botões multicoloridos, que piscam etc. Quando vier a imprimir, tudo isso terá desaparecido e, em vão, inconsolável, tentarei entender porque aquilo que é lindo na tela é bobo e sem graça na página impressa. Seu Huey® (colorímetro) não tem nada com isso…
Fazer sumir as ferramentas do Gimp ou do Inkspace não adianta muito. Em algum momento você irá vê-las e se elas não forem cinzas isso atrapalhará seu intento.
Sem moldura
Pensando o tema como parede, somos levados à importância que a parede adquiriu na exposição quando o modernismo abdicou da moldura. Nesse sentido, é interessante notar o papel clássico da moldura: antes do modernismo, ela marcava a saída do ateliê e transformava o quadro em objeto com uma teoria própria (cf. 2010-05-05 Dissertação em pdf, p. 17). Ou seja, enquanto o artista pintava, não deveria jamais haver moldura.
No computador, essa questão se inverte: enquanto pintamos sempre há moldura; e o que marca a saída do ateliê é ou a ausência da moldura, ou a possibilidade de inúmeras molduras diferentes.
Como é impossível trabalhar sem a decoração das janelas, é melhor que elas se assemelhem a uma moldura barata, dispensável. Ter uma certa impressão de profundidade é bom, mas a coisa toda não pode fugir do plano. Nisso o Ambience é nota 10: o ressalto pronunciado na barra de título não ocorre nos demais lados da janela, havendo aí apenas uma pequena sombra.
Mas talvez a inovação mais importante no Ambience seja o uso dos cinzas claros e escuros, distinguindo a decoração da janela e os painéis (ambos cinza muito escuro) do lugar onde realmente se trabalha, as ferramentas e os botões do aplicativo (cinzas mais tradicionais).
No lugar de moldura, é como se olhássemos uma folha de caderno!
Sem legenda
Essas metáforas já estão cansando. Apenas uma última. Considero também quase impossível usar outra fonte que não sem serifa (sans serif – o nome técnico desse tipo de fonte é “grotesca”, sabia?). Trata-se de uma questão de costume e de legibilidade, mas as serifas me parecem formas pouco neutras e se estão na parede, interferem com o quadro como se fossem legendas.
Na ordem da leitura
A única modificação que fiz no Ambience foi recolocar os controles da janela à direita. Se a escolha de colocá-los à esquerda foi uma questão de ergonomia, o cara era chinês! Se eu não fecho, maximizo e minimizo janelas com tanta frequência, por que colocar um círculo vermelho no lugar da primeira coisa que vejo (na ordem da leitura) na tela?
Então, gconftool-2 --set /apps/metacity/general/button_layout --type string menu:minimize,maximize,close neles!
