Diário de Bordo Mudanças Recentes www.dedalu.art.brTagsRSS RSS

Diário

2008-09-09

Publiquei aqui no site meu artigo sobre o contexto artístico de Belo Horizonte, publicado no jornal Papel das Artes, nº8.

Não é, de longe, um artigo polêmico. Nem sei se alguém ficou contrariado. Mas se ficou, foi porque explicitei minhas preferências; principalmente pela Bolsa Pampulha – que, dizem, está sob “ataque”. Como não tenho certeza de tal ataque, optei pelo elogio rasgado.

O engraçado foi que o lançamento do artigo coincidiu com algo que identifico como um retrocesso dentro do MAP. A forma como a exposição da Varejão foi montada parece um retorno a anos atrás, com aqueles tapumes brigando contra a arquitetura. E o melhor foi o texto do panfleto distribuído na ocasião: “[…] o grid das telas de Adriana Varejão, tomado pela imensa ortogonalidade das linhas, dissolve-se nos reais elementos arquitetônicos do antigo cassino […]”.

Parece até o Galvão Bueno narrando futebol: ele vê um jogo, a gente outro. O Ronaldinho perde a bola e ele “QUAAASEEE que o Ronaldo faz um gol! Quaaaseee! Que pena: está tão bem…”: “QUAAASEEE que a pintura da Varejão se dissolve na arquitetura! Quaaaseee! Que pena: não fossem os tapumes… a gente veria isso acontecer.”

Adicionar Comentário

2008-06-14

Fui ao Inhotim, inicialmente para participar do Seminário Cildo Meireles e principalmente para ver a palestra de Paulo Herkenhoff. Mas não resisti e fui percorrer o museu. Em qualquer outro lugar, teria ouvido Herkenhoff com toda atenção que ele merece… Ali, entretanto, aquilo parecia um contra-senso.

Antes, no carro, fomos Laís Myrrha, Léo Dutra e eu conversando com Jorge Menna Barreto, que ia pela primeira vez. O Léo encontrou um “atalho” que nos permitiu conversar muito antes de chegar. Falávamos sobre como é espantoso, quase indescritível. A transição de Brumadinho a Inhotim é como um curso relâmpago sobre distribuição de renda no Brasil. E Brumadinho não é assim tão pobre.

Mas como bem disse o Léo, ao menos Bernardo Paz não está colecionando Ferraris. A concentração de renda é gritante, mas por que não temos direito a um museu como esse?

O que mais choca, acho, é o jardim, que costumo descrever como jardins ut pictura poesis, um Lorrain redivivo. Não fosse ele, ou se ele fosse como o do Cemitério Bosque da Esperança, talvez não houvesse essa sensação ruim de traição às minhas convicções socialistas. Mas isso passou logo, como aconteceu todas as outras vezes que fui lá. E como, acho, ocorrerá nas que virão.

Ao chegar, me dirigi, resoluto, ignorando tudo o mais, direto para Neither, de Doris Salcedo. Mas é impossível ignorar o jardim, o “entorno”, como dizemos no jargão. E isso foi determinante na minha relação com a obra. Eu já havia visto fotografias e descrições, e tinha criado a expectativa de uma obra angustiante e opressiva. Entra-se e, depois de um curto corredor em L, vê-se somente uma grande galeria branca com grades incrustadas nas paredes, saindo e voltando a entrar em alguns cantos, como se fosse necessário demonstrar o que é aquilo que a parede engole.

Andei de um lado a outro, ouvindo meus passos e tentando desconhecer a presença da monitora. (Nunca estamos sozinhos em Inhotim, o que às vezes é inquietante, mas geralmente muito útil: todos são bem instruídos e respondem prontamente a qualquer pergunta, até mesmo às mais abstratas). Me senti muito desconfortável com a companhia. Como se ela estivesse impedindo a satisfação de minhas expectativas. Fui tomado de certa irritação, desisti da solidão e finalmente falei à presença que procurava não estar presente: “— É menos opressivo do que eu esperava. Talvez seja esse teto, assim tão iluminado, com amplas…” “— Clarabóias”, emendou a moça, continuando: “— A opressividade é uma das questões… Na montagem anterior, o teto era mais ou menos assim, talvez as clarabóias não fossem tão amplas, ou o espaço, não sei, menor ou maior… Mas a opressividade não é a única questão.” Ela se referia, acredito, ao paradoxo “cubo branco” versus campos de concentração. Me despedi, o mais cortês que pude, tentando esconder a cólera contida e que parecia já transpirar. Parei no corredor e tentei ler o parágrafo curatorial. A moça saiu, mas não respirei aliviado, e nem sequer intentei voltar. Anotei: “intervenção na arquitetura, relação com o “cubo branco”, campos de concentração”. Saí.

O jardim (ut pictura poesis, Lorrain redivivo, Poussin, talvez) também me irritou: “— Que merda essa figueira! Que idiota essa plaqueta, Ficus carica!” Uma família feliz se afastou um pouco alarmada. Sentei ao sol e anotei: “… tem uma espécie de retrogosto que só percebemos quando voltamos para o jardim.” Tive vontade de voltar ao pavilhão e pedir desculpas, mas preferi tomar um café e comer um pão-de-queijo olhando os patos e a penugem branca ao redor do pescoço de um deles, talvez um macho.

Pela primeira vez achei realmente ridículo pintar paisagens.

Entrei na Galeria Mata e fiquei brincando com chapéus (ou coisas de vestir) de Laura Lima. Jivago Salles apareceu do nada, com uma matalotagem de dar gosto e uma câmera fotográfica de quase meio metro. Deviam ser lentes, tripés etc. Conversando com o típico fotógrafo, nem pensei em pedir-lhe que tirasse uma fotografia minha com um chapéu daqueles. Provavelmente não deixariam… “— Como está, o que anda fazendo”, conversávamos. “— Ela podia ter experimentado outros materiais, não acha?” Estava pensando na Lygia Clark. Despedi e me mandei.

Fui parar perto da palestra sobre o Cildo, pisando em cacos de vidro e rodeado de cercas – farpadas, de prender galinhas, de circundar quintais, de ser feliz, de prender, de fazer mal. Dois peixinhos, um em cada aquário; os aquários espelhados, assim como as cercas. Tudo tinha um duplo, exceto a bola de papel crepom no centro de Através. Herkenhoff estava ali do lado falando sobre a formação ética do artista – perdi uma palestra importante. No seminário, Lynn Zelevansky mostrou uma montagem de Através no Palácio de Cristal, em Madrid. Na volta, no carro, Laís falava sobre a Modernidade, sobre as Passagens de Benjamin: o Palácio de Cristal quebrou e pisamos nos cacos de vidro, pensei ou fui levado a pensar.

Entrei no Desvio para Vermelho só para ver se as paredes eram vermelhas como me lembrava. Eram brancas como nas fotografias. Perguntei ao monitor e ele tentou explicar porque minha memória estava me enganando. Fiquei olhando os quadros vermelhos dos outros artistas. Confirmei Rosângela Rennó com o moço e depois com o panfleto que ele me deu. Desvio é um museu vermelho num museu verde. Tinha medo de escuro na infância e me lembrei disso enquanto me aproximava da pia que fica no fundo da instalação. O moço me deu um baita susto, sorrimos. Meus pais sempre falavam de deficiência vitamínica nesses contextos de adaptação ao escuro… “— Tenho que comer cenouras”, disse. O moço concordou. Os país dele também deviam falar sobre escuro e vitaminas.

Fui ver as bolas de Glove Trotter só por desencargo. Não me tocam.

Adriana Varejão. O pavilhão é um espetáculo arquitetônico. Um mausoléu, um Taj Mahal de cimento lustrado até parecer mármore. Perguntei o nome do arquiteto, mas esqueci. Um casal tirava fotografias aproveitando o espelho d’água. Será que pensavam na história de amor indiana? Não quis incomodá-los e saltei o primeiro trabalho. Entrei. Três andares.

No térreo, obras que já conhecia por fotografia e que se comportaram como eu esperava. “— Dá vontade de entrar”, disse, revendo, na série Saunas, cores que julgava ser de Alan Fontes (Alan, pára de procurar seu nome no Google: 2008-11-21). A parede recheada com carne, Linda do Rosário, é mais impressionante na obra de Sandra Gamarra, que a reproduz em pintura a partir de um catálogo. Toquei e senti uma certa maciez e porosidade de espuma sintética. Pareceu quentinha. Eu estava com frio. Tive vontade de ter à mão o termômetro de Porquê Não Espirrar Rose Sélavy, de Duchamp.

No segundo andar, uma surpresa. Celacanto Provoca Maremoto: “… referência à maneira desordenada e casual com a qual são repostos os azulejos quebrados dos antigos painéis barrocos.” Mas os azulejos-pinturas em gesso são enormes! Ampliações ad absurdum, um metro ou mais cada um. Uma sala de azulejos enormes nos faz ficar pequenos. O trincado típico do tempo, que, na escala real, tem a espessura de um fio de cabelo, faria desaparecer facilmente um dedo. Pensei no Museu Imaginário de Malraux e como ele discute a aproximação entre artes maiores e artes ditas menores. Ampliação e redução fotográficas. A moedinha colocada na mesma escala que o frontispício, a arte “menor” e menor (tamanho e importância) fazendo frente à arte “maior e maior. Imaginei como essa obra sairia na fotografia, sem uma referência humana. O piso, de um branco brilhante, tira nossa referência.

No terceiro andar, azulejos de pássaros. Um convite para olhar, de novo, o jardim? Não segui o fluxo e voltei para o térreo. Panacea Phantastica, também feito de azulejos, não me interessou muito. Arte maior na menor não me pareceu uma boa idéia naquele momento. Queria manter na memória o trabalho Celecanto…

Fui embora cansado e sonhei com sexo durante a noite. Tinha dado uma olhada nas fotografias de Larry Clark antes de sair do museu e lido um capítulo de Putas Assassinas de Roberto Bolaño antes de dormir.

Adicionar Comentário