Diário de Bordo Mudanças Recentes www.dedalu.art.brTagsRSS RSS

Diário

2009-05-06

"Homenagem" aos artistas plásticos na seção Ensaio da revista Viver, v. 8, n. 12, 8 de maio de 2009.
Homenagem aos artistas plásticos?

Vi essa caricata “homenagem” para o Dia do Artista Plástico (próximo dia 8) numa tal revista Viver Brasil (v. 8, n. 12, 8 de maio de 2009) que recebi outro dia aqui em casa. Nada contra Angela Geo, que protagoniza a cena, pois muitas vezes é difícil perceber o limite do ridículo diante da ansiada divulgação. Eu mesmo já passei por esse constrangimento do clichê com pincéis em uma entrevista.

Numa outra situação, me pediram para fazer algumas poses segurando um quadro; ao que neguei peremptoriamente. A jornalista perguntou então: “Mas você não quer aparecer na televisão com seu trabalho?” Minha resposta foi mandá-la à merda – “Quer dizer que para aparecer na televisão tenho que fazer papel de bobo?” Claro, a moça se espantou com isso; à televisão nada se nega…

Estava ali havia 4 horas montando um trabalho e estava cansado. Senão responderia que essa coisa de fazer o artista assumir uma persona é na verdade uma agressão.

Há, claro, artistas que são verdadeiras “figuras”, excêntricos por natureza; alguns despojados, outros janotas. Já havia de todos os tipos e a moda trouxe ainda os “modernos”. Muitas vezes até, manter a tal persona todo o tempo faz parte da proposta de trabalho do artista. Gosto disso quando o ponto de vista é crítico. E odeio quando tem um ar de busca do artista romântico, nos seus dois pólos: deprimido ou tresloucado. Odeio ainda mais quando a busca pelo bas-fond acaba numa cara constante de enfado. Não foram poucas as vezes que tive vontade de perguntar se a comida estava ruim, se a cabeça doía, se eu estava com mau hálito… Mas isso são opções pessoais.

Meu problema com esse ensaio – que tem até stylist!: “Andreia Pimenta | Assistente: Carol Breviglieri | Foto: Nélio Rodrigues | Assistente: Pedro Coelho | Texto: Márcia Queirós” – é como conseguiram obter um clichê tão estereotipado, mas tão chavão, mas tão “4. Fig. Chavão, molde, lugar-comum, vulgaridade que a cada passo se repete com as mesmas palavras” – dicionário! Essa suposta “homenagem” é uma afronta a todos os artistas plásticos.

A legenda diz: “Ela faz do corpo sua própria tela. Cobriu-se de cores e riscos abstratos. Protesto, irreverência, alegria? A arte não impõe limites para quem cria e sempre terá algo a dizer. Oito de maio é o Dia do Artista Plástico. Sem ele, o mundo, certamente, seria cinza e coerente demais para se viver.”

Não conheço a artista, não sei nada sobre ela e não estou falando dela pessoalmente; vou apenas enunciar o que vejo nessa fotografia.

Uma jovem senhora segurando dois pincéis. Ela é pintora e temos a prova disso pelos seus instrumentos de trabalho, que ocupam a parte inferior-direita da composição como uma assinatura: pincéis organizados em buracos de tijolos (o que é uma boa ideia) e tubos de tinta cuidadosamente desorganizados em uma maleta.

Atrás dos tubos há um espelho, que pode ser o d’ Las Meninas, ou um arranjo para demonstrar o apuro técnico da stylist.

Suas roupas estão sujas, mas não é a sujeira da roupa de um pintor; não há o acidente e o efeito acinzentado da lavagem. Os pintores geralmente lavam suas roupas (alguns não sabem disso) e os respingos adquirem um tom cinza; a legenda estaria errada nisso: o artista faz o mundo ficar menos cinza, exceto por suas roupas. Mas a legenda nos explica que essa pintora dá atenção especial também às roupas: (confundiram corpo com roupa, mas tudo bem:) ela as pinta com “cores e riscos abstratos”. Então para ela, não há exceção: nada cinza, nem as roupas!

A pose também é digna de nota: ela apoia um dos pés descalços em uma lata decorada. Pode ser até que a artista use esse apoio para pintar pois sofre de dores nas costas; ou então essa lata foi habilmente colocada ali pela stylist para que as “cores e os riscos abstratos” apareçam melhor. Uma das duas opções pois essa pose está longe de ser grega: o corpo está com uma tensão que não é clássica e vemos isso pelo pé esquerdo instável.

Ou é mesmo uma tentativa de pose clássica, mas o homem contemporâneo não sabe se postar sem sapatos. Mas se fosse isso, a capacitada stylist teria constatado. Não sei. Talvez a modelo esteja sem sapatos porque os pés doíam demais. Mas isso seria muito pequeno! A sagaz equipe deve ter abdicado da perfeição para demonstrar o arquétipo do despojamento artístico…

Olhamos então o rosto. Ele está cortado por a sombra abrupta. A razão disso me escapa. Li outro dia sobre as sombras abruptas de Monet influenciado pela fotografia; pode ser isso, ou uma referência ao Barroco. Difícil saber ao certo, mas, pelo apuro da composição, certamente a iluminação foi muito bem medida. O que espanta nesse rosto é que não há olhos, mas um enorme par de óculos escuros. Talvez a artista tenha chorado comovida pela homenagem, talvez goste de pintar en plein air e os óculos são para o sol inclemente. Ou a estupenda stylist tapou-lhe os olhos para criar um oxímoro: a pintora cega. A legenda diz: “A arte não impõe limites para quem cria”. Genial!

Mas genial mesmo é esse indefinível sorriso remetendo ao quadro mais famoso de todos os tempos! Nós não merecíamos!

Ou será que esse rosto indefinível é um rosto de constrangimento? Será que ela ouviu a tal frase? “Não quer aparecer na revista com seu trabalho?”

Afinal o trabalho dela apareceu: está no pulso.

A que custo?

Adicionar Comentário