Hélio Alvarenga Nunes (EBA, bolsista PROBIC); Profa. Mabe Machado Bethônico (EBA, orientadora)
O bom de morar em casa é a distinção entre dois foras: o “lá” e o “ali fora”. Ali fora pode ir descalço e aterrar, e ter boas sinapses. Tem sol e aquela porção particular de céu cujo muro perpendicular é a medida. Os outros ângulos servem para saber se vai ou não chover… visar 360 graus procurando aquele chumbo! Mas sem necessidade de precauções, já que tirar a roupa do varal com dois minutos de folga é bem mais engraçado.
O importante mesmo de ter um ali fora é que a vida fica bem horizontal, sem empilhamentos – de gente – pois do resto é o que mais tem. Amontoar faz parte da natureza das coisas que vivem ali. O quebrado, o gasto, o enferrujado ficam mais seguros em pilhas que ganham mais coesão a cada chuva. Coisas que sabem muito bem a diferença entre ali e lá…
Ali me pareceu um bom lugar para procurar letras. Hum… costumes congregativos… Se tem letra perdida aqui em casa, é ali que foi parar, pensei. Tiro e queda! Um monte delas. Mas houve um problema: seria politicamente incorreto capturá-las e isolá-las. A solução seria compô-las, decidi.Ainda bem que ali também havia minha pilha de papéis usados. Dito e feito.
De Edgar Allan Poe, no conto “O escaravelho de ouro”: “… Considerei logo a figura do animal como espécie de assinatura figurada ou hieroglífica. Digo assinatura porque sua posição no velino me sugeriu essa idéia. A caveira no canto diagonalmente oposto tinha, do mesmo modo, o aspecto de um sinete, ou selo. Mas fiquei tristemente perturbado com a ausência de mais qualquer coisa, de um corpo para meu imaginado documento, do texto de meu contexto.”
No Glossário, DOCUMENTAR: “1. Criar ou apresentar registros, quase sempre escritos, que comprovem formalmente algo doravante considerado verdadeiro ou legítimo. Pressupõe autoridade capaz de outorgar signo de verdade, mas não a garante de forma absoluta e/ou perene. Por dar fé, no tempo, acaba substituindo o fato e/ou seu protagonista sendo por isso uma das principais operações formadoras de memória.”
preletras funciona aqui como exergo Derrida: “Um exergo estoca por antecipação e pré-arquiva um léxico que, a partir daí, deverá fazer a lei e dar a ordem contentando-se em nomear o problema, isto é, o tema.”