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PropostaPalácio

Primeira proposta: intervenções

Primeiro email

Olá Savinho,

fiquei muito excitado com nossa conversa sobre a possibilidade de intervir nas exposições do Palácio após o bate-papo e o lançamento do catálogo. Desde já, muito obrigado pela abertura em me ouvir.

Sondei o Adriano só para ver se seria ou não complicado convencer os expositores a cederem um pouco de seu espaço nos últimos dias da mostra. Acho que com alguma conversa não será muito difícil; até porque faz parte de minha proposta resgatar um pouco da subjetividade do artista nesse ínterim exposição/catálogo da exposição.

Se for possível, gostaria de já intervir na exposição da Aretuza, depois do bate-papo, que é dia 28. Eu precisaria, claro, dar uma olhada no catálogo e conversar com ela um pouco antes.

A seguir, explico melhor minha proposta, como você pediu. Se você precisar, posso redigir uma carta formal: é só me enviar, por favor, os termos necessários.

Minha pesquisa de mestrado é sobre o que chamo “cultura de catálogos”, que seria uma cultura substitutiva de acesso à arte em periferias artísticas como Belo Horizonte. O que busco é a plausibilidade de se criar “pinturas para catálogos”. Não sei se vem ao caso a justificativa e a teoria por trás da pesquisa: discuto os catálogos segundo a perspectiva do arquivo, incluindo aí certas questões sobre dissolução do sujeito em favor da memória institucional. Nesse momento, é essencial para mim descobrir se ocorre (e em que grau ocorre) um gap de autoria entre a exposição e o catálogo. Considero ambos como lugares e tenho tateado uma idéia que chamo catalogue-specific, onde procuro atravessamentos entre catálogo e cubo branco, nos dois sentidos.

O Palácio das Artes tem papel fundamental nessa proposição, principalmente por ser a única instituição belorizontina que publica catálogos regularmente e que é dedicada unicamente à cultura. Só através do Palácio conseguirei evitar o que chamo “galerias-sala-de-espera” ou “galerias-vitrine”, cujos catálogos são espécies de publicação de finalidade dúbia. Para sondar aquela descontinuidade, preciso, então, experimentar em lugar o mais idôneo possível.

Além disso, sua iniciativa de lançar o catálogo no bate-papo com o artista tem catalizado indagações muito pertinentes para mim. As muitas palestras a que pude atender e os catálogos lançados nelas têm sido ótima fonte de projetos. Seria sensacional materializá-los justamente onde são gestados.

Minha proposta é intervir discretamente na montagem da exposição (e não nas obras) a partir de questões suscitadas pelo catálogo e pelo artista. Penso em “discreto” como modesto, mas também como único. Cada trindade artista/exposição/catálogo ganharia seu próprio “culto” em dois lugares: na galeria e, depois, no catálogo. Depois das intervenções na galeria, trabalharei com os catálogos em meu arquivo, criando uma espécie de re-ciclagem da memória.

Talvez um exemplo facilite: no catálogo e no bate-papo com a Mônica Sartori, destacou-se muito “Carta a John Cage” como marco. Essa questão já aparecia no texto afixado na galeria (que é o mesmo do catálogo, acho), mas ficou muito mais relevante após a anuência da artista. Uma intervenção possível aí seria destacar tal marco histórico nos “paratextos” da exposição: destacar de alguma forma a legenda da obra ou grifar a menção no texto do curador. Mas talvez a questão mais relevante seja o que mudou. Nas palavras da artista: “- Eu passei a desenhar a linha.” Outra intervenção, então, seria acrescentar a declaração no texto ou na legenda.

O acréscimo pressupõe a falta (nos dois sentidos: ausência e erro), questão extremamente relevante para minha pesquisa. No caso da Mônica, eu proporia suprí-la também no arquivo, criando uma errata (minha, que não precisa ser distribuída) para o catálogo também; aproximando assim os dois lugares (exposição/catálogo) da proposta autoral.

Savinho, peço muitas desculpas pois a carta ficou muito longa. Espero ter conseguido esclarecer o que conversamos tão rapidamente. Se puder ter seu apoio, serei muito grato.

Segundo email

Contar com o apoio da instituição e com o consentimento do artista me parecem aspectos essenciais para o bom andamento da pesquisa. Enquanto escrevia a primeira parte da dissertação, não vi outra opção senão abordar o tema mantendo-me próximo, para, assim, realizar uma anamnese no arquivo. Não há como fazê-la afastando as fontes da memória.

Para cada intervenção, pretendo esboçar um projeto justificado e discutí-lo com você. Seriam mini-projetos, dentro das possibilidades: o prazo entre o bate-papo e o fim da exposição geralmente é muito curto. De qualquer maneira, eles e nossa discussão serão muito úteis para a escrita posterior.

Com o artista, minha idéia é, se possível, já iniciar o contato desde a montagem, explicar a pesquisa, entrevistá-lo etc. Mantê-lo próximo, em suma, para conseguir acessá-lo quando o catálogo estiver ainda no prelo.

Será mantendo diálogo constante com todos os envolvidos na trindade artista/exposição/catálogo que encontrarei a justa medida e o ponto certo da intervenção. Creio que o consentimento será, então, uma consecução quase natural.

Terceiro email

Olá Savinho,

tudo bom? Dia 12 agora é o bate-papo com o Adriano e dia 13 o encerramento da exposição. Quando nos encontramos, você falou que estavam apreciando a proposta. Você já tem alguma resposta? Se for afirmativa, gostaria de ver o catálogo ainda amanhã, para já propor a intervenção no dia 12 e realizá-la no dia 13 pela manhã. No caso, ando pensando em algum “adendo” no vácuo entre o olho mágico e a imagem; algo que talvez nem precise ser visto, apenas documentado.

Quarto email

Ontem a discussão foi muito boa e me fez repensar algumas questões. O que eu tinha projetado para a exposição do Adriano, por exemplo, supria aquela falta de explicitação de que falei e que realmente não está no catálogo, como eu já previa. Mas o Adriano não parece querer explicitar nada. Então, no lugar de recuperar a voz do artista, eu estaria impondo a minha como se fosse a dele.

Isso me fez rever a necessidade de as intervenções permanecerem em exposição, com o risco de concorrer com as poéticas dos artistas. Como minha intenção é, principalmente, documentar para criar outros catálogos, agora me parece bastar uma sessão de fotografias durante o desmonte da mostra. Isso, acho, é mais factível e reduz a quantidade de autorizações. Da Fundação, eu precisaria de autorização para participar do desmonte. E, do artista, para usar suas obras como matéria-prima para outras imagens. O resultado final seria semelhante e até mais agudo, talvez.

Assim, a caixa de lenços de papel, sem ser exposta, só fotografada, não concorreria com a poética do Adriano, justamente por já estar em outro contexto. Nisso eu estaria me aproximando do que a Louise Lawler faz. A diferença seriam os adendos, remoções, “poses”, etc. antes da foto.

Vou, então, escrever a proposta formal já nessa segunda versão e mando o mais rápido possível.

Segunda proposta: arquivo das exposições em dobra

Interessante abismo entre o que preenchi no item “linguagem” da ficha de inscrição e o título da proposta. A aporia “linguagem a ser construída no processo” não é relativa à pintura, mas às palavras que a sucedem no título – “para catálogos” – e à que deveria explicitar, por aposição, a declaração na ficha – “/impressão”. A hesitação é necessária porque o que proponho não é criar obras impressas – não no sentido usual – mas atuar sobre impressões de obras. A inversão não é mero jogo. “Impressões” adquire aqui toda a dubiedade: a ação de uma superfície sobre outra, seu traço, e também a noção geralmente vaga que temos sobre algo ou alguém: as duas dimensões que venho privilegiando em meu estudo/ação sobre catálogos de exposição. São várias aporias justapostas para tentar fazer entrar na linguagem o objeto complexo de minha pesquisa de Mestrado na EBA-UFMG, para a qual escolhi o Palácio das Artes como laboratório essencial.

No último ano, tenho comparecido, salvo impedimentos graves, a todos os lançamentos de catálogo e “bate-papos com artista”, buscando nessas oportunidades escavar mananciais de temas para a análise do catálogo e sua relação com a exposição, seu artista e com a instituição. Meu objetivo foi sondar o que o catálogo retém de cada um deles e como os re-apresenta na formação da memória – de arquivo, principalmente.

A intenção dessa proposta é tornar mais efetivo esse processo, deixando uma posição inicial de neutralidade para passar a atuar como artista que tem – e as comunica – impressões sobre outros artistas e sobre a relação destes com a instituição que os abriga e produz seus catálogos.

Uma outra forma de preencher a ficha seria “crítica institucional”; mas isso levaria a supor que pretendo me posicionar no papel do crítico (ou crítico-artista), o que não é o caso. Minha proposta é fazer uma exposição em dobra de todas as exposições, de todos os artistas, fazendo-os deixar em mim e em meu catálogo suas impressões. Uma exposição desapropriada de mim e também com apropriações por mim, cuja forma final depende do processo que os senhores da Comissão de Seleção instauram agora.

Para cada exposição selecionada, até a data de minha exposição, pretendo documentar todos os processos desde a negociação, montagem e elaboração do catálogo, até o bate-papo e a desmontagem. Em cada um destes momentos meu foco serão os sujeitos envolvidos e como a relação entre eles determina a forma da memória (e do esquecimento) do processo de criação e apresentação da obra de arte na instituição. Este acervo documental somado aos arquivos já existentes no Palácio – a totalidade das impressões e o peso da máquina de arquivo – formarão minhas obras em dobra e meu catálogo a ser arquivado.

Catálogos na Arlinda Corrêa Lima

A escolha da Galeria Arlinda Corrêa Lima tem uma razão pouco usual: sua forma e localização – na borda, perto do fundo, soterrada, taciturna até; e próxima dos outros arquivos – me parece a topologia ótima para o arkheîon co(n)signado.

Um projeto expográfico completo é impossível, já que a proposta é construir o arquivo. A seguir, algumas idéias – a partir do senso comum sobre arquivos:

  1. abrir a porta para a reserva técnica (o que tem lá dentro?);
  2. seção da exegese (ou o lugar do arconte), no fundo da galeria (um bureau com os equipamentos da profissão: dicionários, lupa, bloco de notas, carimbos, séries);
  3. seção dos índices, no corredor, atrapalhando a entrada (fichas e outros documentos com este formato e função: móvel de fichário típico);
  4. seção da negociação (projetos, recortes, cartas: pastas suspensas em trilhos ou no móvel típico);
  5. seção dos duplos (estante ou caixas de arquivo com catálogos já existentes, criados ou adulterados);
  6. parede: textos (reaproveitados, reescritos) e obras consignadas das outras exposições;
  7. gavetas, pastas, caixas, vãos: tudo estará, a princípio, aberto e acessível (as medidas de segurança e acompanhamento, típicas de arquivo, poderão ser implementadas, dependendo das consignações);
  8. o que foi esvaziado continuará assim (ver a exposição significará revirar mais e mais o arquivo).