A pergunta de 1 milhão: na arte contemporânea (e na interferência contemporânea sobre a arte tradicional) a reprodução ganha status de obra?
Pergunta de 500: a crítica também ganha status de obra?
Minha pergunta baratinha: o catálogo (reprodução+crítica) pode ser arte por si só?
A primeira questão, quando pensamos em arte conceitual, tem relação com a tensão entre reprodução e original (efêmero / processo / acontecimento); quando pensamos em arte tradicional (mesmo que contemporâneas), com o conflito acesso versus restrição. Em ambas, será necessário envolver os conceitos de arquivo e de coleção… Na arte digital é necessário considerar a virtualidade; o fato de não existir original, apenas código que, executado, geraria uma “segunda natureza da reprodução”. Tenho que achar um termo melhor… que incorpore a possibilidade de infinita reprodução contraditoriamente sempre desigual porque dependente da plataforma que executa o código; isso sem mencionar a possibilidade de interação.
Desenvolver: tensão original / reprodução; reprodução como forma de “possuir” arte (restrição x acesso); discutir coleções?; reprodução como principal forma de conhecer arte…
Logo depois da exposição “A Bigger Splash” na Oca, um colega pintor que sempre havia admirado o quadro de David Hockney, me confessou certa decepção: o quadro não era tão “perfeito” quanto ele esperava. Na verdade, o que ele sempre apreciara eram características que, apesar de existirem no original, haviam sido super potencializadas nas reproduções que conhecia. Na reprodução não é possível perceber a fatura: múltiplas camadas aplicadas com rolo e o fato de haver áreas sem pintura, por exemplo. O chapado e a retidão das linhas são tão reforçadas na reprodução que acabam confundindo o desavisado: muita gente associa o “Splash” ao minimalismo. Pior são as citações a partir das reproduções: um trabalhão danado para conseguir aquele chapado e aquelas linhas – haja fita crepe!
Num email para a Mabe:
Estou pensando em abordar os catálogos como obras, discutindo a questão da reprodução e da crítica (e/ou literatura) como arte.
As hipóteses centrais seriam: Na arte contemporânea 1) reprodução ganha status de obra; 2) crítica ganha status de obra. O catálogo (1+2 ?) também ganharia status de obra?
A discussão giraria em torno da tensão original / reprodução, abordando principalmente a possibilidade de fruição a partir desta última. Isso porque, nas artes tradicionais só a reprodução resolve o problema do acesso; enquanto nas artes mais conceituais só o registro (reprodutível) suplanta o efêmero, o processual e o acontecimento. Vemos arte só pela reprodução; esta então, para todos os efeitos, acabaria substituindo o original, ganhando, inclusive, certa aura – como as reproduções emolduradas que se vende nos museus…
Como metodologia, além da literatura sobre reprodução, memória artística (catálogos são memória) etc., estudarei os 2500 catálogos que existem na biblioteca da EBA (falta definir melhor como) e, a partir daí, criarei “pinturas para catálogos”, incluindo crítica, usando o Marcel Oz – cuja carreira começou (vamos dizer) na década de 60.
É mais ou menos isso. Falta dar forma. O que você acha?
Minha idéia é pesquisar o catálogo. Primeiro como memória crítica e visual da exposição. Depois como obra mesmo.
Postulando que hoje reprodução ganha status de obra e que crítica (ou então a literatura que acompanha a obra) confunde-se com obra, poderia tratar o catálogo, em si, como a obra acessível e próxima? Minha hipótese é que sim: catálogos (entendidos como crítica+reprodução) tendem ao status de obra. Isto é catálogos seriam uma espécie de memória que acaba por substituir (justamente no tempo) seu objeto, fazendo-o prescindível.
Em alguns casos ele poderia substituir a obra inclusive no “espaço”. Penso assim levando em consideração o acesso. Se “tradicional”, objeto, matéria, é o catálogo que acesso ao que está na Europa ou nos EUA… O catálogo é hoje a base do nosso conhecimento sobre arte e acaba substituindo o original como objeto desse conhecimento. Se, por outro lado, efêmera, processual, acontecimento, então é só ele que dá a conhecer a obra; o registro substitui, inclusive no espaço expositivo, a obra rerum gestarum.
De memória da exposição, o catálogo poderia se tornar obra – primeiro pela ação do tempo, depois pela ação do espaço – pela impossibilidade. Podemos fazer uma exposição de Picasso, por exemplo, quando desejarmos… sem perder muito?
O que me levou a essa idéia foi uma conversa em que você falou en passant ser o catálogo mais importante que a exposição. Peguei daí e pensei sobre nossa “cultura do catálogo”, sobre como nós aprendemos pintura por fotografias de pintura. Isso sem falar na certa aura que as reproduções emolduradas (as que se vende nos museus) ganham…
Como material, pensei em utilizar os 2500 catálogos da biblioteca da EBA. Eles restringiriam muito bem meu âmbito de trabalho. Há catálogos da década de 50 até hoje, mas a maioria é de Minas. Teria muito material e ainda assim manteria tudo em um contexto verificável. Falta definir um método, mas minha intenção é estudar a forma que essa memória adquire, confrontando (onde possível) a crítica e a reprodução constantes do catálogo com a obra e a literatura que a cerca hoje.
A partir daí, pensei em criar um artista que nunca produziu nada além de catálogos. Seriam “pinturas para catálogos”, incluindo crítica, mas que remetem a falsas exposições. Nem sei se é realmente necessário criar um personagem… Poderia eu mesmo ser o protagonista?
Problemas. 1) Não encontrei nada sobre a história dos catálogos. Suporia que eles aparecem com a fotografia, não fossem as descrições dos críticos (desde o século XVII) e as gravuras uma espécie de catálogo. 2) As discussões sobre a tensão original x reprodução são uma base para o projeto, mas são também um assunto muito repisado. Preciso “provar” para a banca que sei o necessário ou posso evitar ser enfadonho? 3) Catálogo está relacionado a museu e a coleção, parte da minha pesquisa de iniciação científica; mas o que pretendo discutir é mais específico. Na pesquisa sei que vou, mas no projeto deveria incluir algo sobre as instituições que “produzem” o catálogo?
Os lugares de exposição ainda o são ou se tornaram produtores de catálogos?
Posso usar o catálogo como uma calibragem assim como Krauss usa a fotografia para a arte contemporânea? O catálogo (no todo) é um índice da exposição, um ícone, o quê?