Diário de Bordo Mudanças Recentes www.dedalu.art.brTagsRSS RSS

PensamentoFora

Notas sobre

LEVY, Tatiana Salem. A experiência do Fora: Blanchot, Foucault e Deleuze. [Conexões.] Rio de Janeiro: Delume/Dumará, 2003.

“Concordamos igualmente com o que Foucault, a propósito de Blanchot, denominou ‘o pensamento do fora’. Fórmula que não deve ser entendida nem como genitivo objetivo (o fora não é aqui o tema do pensamento), nem como genitivo subjetivo (não se poderia pretender que o fora pensa), mas como o pensamento que efetua a passagem ao fora, que faz que o sujeito passe para fora de si mesmo, torne-se estrangeiro a si mesmo, sem esperança de redenção dialética. Pensamento que se mantém, então, no fora, como uma força exterior a toda subjetividade.” (Nordholt, citado por Levy).

O que leva o pensamento a pensar

O pensamento do Fora é uma tentativa de explicar o pensamento não como uma faculdade inata do ser humano, mas como um processo disparado por fatores externos estranhos e opacos ao reconhecimento e à ordenação. É uma noção materialista de pensamento, uma crítica ao ideal socrático-platônico, à relação objeto → modelo → imagem, na qual se agrega a noção do estranhamento, da diferença.

Nessa noção, pensar contradiz qualquer racionalidade; pensar é alcançar o não pensado. “Pensar não é mais conhecer a verdade, mas produzi-la.”

Uma conseqüência, para a arte, dessa noção deleuziana é que ela deixa de ser representação para ser real, funcionando como veículo para retomar o vínculo rompido do homem com o mundo. Outra é a desmistificação do papel da subjetividade na criação. Se a origem está Fora, a criação é impessoal.

Um aspecto interessante tratado pela autora é a definição da montagem descontínua do cinema contemporâneo como uma espoleta para o pensamento: a descontinuidade produz um Entre que, substituindo a simples associação das imagens, nos permite vislumbrar o tempo “em pessoa”.

Outras correlações importantes são possíveis. A noção de pensamento do Fora pode subsidiar boas discussões sobre a sensação de impossibilidade de ruptura na contemporânea, tendo como ponto de partida uma dissecação do processo criativo segundo a ótica da exterioridade impessoal.