CLARK, Kenneth. Paisagem na arte. [2ed.] Lisboa: Ulisseia, [1949]
Paisagem de símbolos
- papel secundário na Antiguidade
- paisagem (como entendemos hoje) desenvolve-se a partir da Idade Média
- triunfo do símbolo sobre a sensação
- êxito da filosofia cristã medieval
- natureza percebida é pecaminosa
- natureza ou é trabalho duro ou perigo
- mentalidade medieval: objetos materiais são símbolos de verdades espirituais
- arte de símbolos -→ linguagem de decoração
- “microtheos”/Gótico: Deus se manifesta na natureza
- re-descoberta do jardim no século XII
- ornamentos vegetais nos capitéis e nos manuscritos
- Dante faz inúmeras referências à natureza
- Boccaccio – jardim é refúgio
- Giotto di Bondone (1267-1337, italiano)
- não deu atenção à paisagem
- Pietro Lorenzetti (1280-1348, italiano)
- primeiras paisagens (na acepção moderna), realistas
- Simone Martini (1284-1344, italiano)
- totalmente simbólicas e ligadas à arte gótica
- ligado a Petrarca (“o primeiro homem moderno”) que expressava o desejo de fugir para a vida pacífica dos campos
- MAS natureza ainda é perturbadora: necessidade de jardim fechado
- frescos e tapeçarias de Avignon
- exemplos completos de paisagens de símbolos
- decoração e sentido de textura herdado da arte bizantina
- “natureza como que bordada”, com qualidades imateriais
- montanhas, até século XV, ainda são representadas segundo tradição helenística e bizantina
- formas arbitrárias eram ótimas para os ritmos fantasiosos do gótico
- século XIV
- exploração das montanhas e florestas
- caça
- estilo aristocrático desenvolvido nas cortes da França e Borgonha
- calendário com episódios de caça e cenas de trabalhos nos campos é comum no século XV
- cenas da vida ao ar livre como decoração requintada
- conto de fadas
- jardins paradisíacos
- expande-se para a Itália, onde ganha nova profundidade
- prazeres terrenos tornam-se tema favorito da decoração profana
- ruptura
- nova idéia de espaço
- relação e comparação (medida) – Fra Angelico (1390-1455, italiano)
- nova concepção de luz (c. 1420)
- luz é unificadora – Gentile da Fabriano (1370-1427, italiano)
- Hubert van Eyck (1370-1426, flamenco) – primeira grande paisagem moderna (“Adoração do cordeiro”)
A paisagem dos fatos
- paisagens de percepção geralmente têm pequenas dimensões
- luz saturante
- Hubert van Eyck (1370-1426, flamengo)
- sutileza dos tons (comparável séc. XIX)
- sensação de entrar na paisagem
- Jan van Eyck (1390-1441, flamengo)
- paisagens mais factuais e menos imaginativas
- luz mais delicada
- paisagens distantes: miragens
- menos precursor que Hubert, mas, no fim da vida, chega a antecipar Pieter Brueghel (o Velho, 1525-69, flamenco)
- para o pintor flamenco, paisagem é forma de aumentar o sentido de bem-estar e ampliar nossa percepção
- Robert Campim (Maître de Flémalle, 1375-1444, flamengo)
- paisagem já ligada aos fatos, mas ainda presa à tradição
- preferia estações do ano em que as formas da natureza se assemelhavam à clareza linear do gótico tardio
- paisagens dificilmente pintadas de memória
- busca resoluta da verdade e estudo ávido de cada objeto
- provavelmente estudos cromáticos à aquarela e desenhos a ponta seca
- Conrado Witz (1400-46, alemão, atuou na Suiça)
- primeiras topografias
- obcecado pela estranheza de algumas formas
- Albrecht Dürer (1471-1528, alemão)
- curiosidade pelas características exatas de determinado local (curiosidade geral do século XV)
- aquarelas topográficas
- primeira representação exata de uma cidade
- delicada percepção da luz
- pintura flamenga cria novo sentido de espaço de maneira instintiva e empírica
- enquanto pintura italiana o faz de maneira matemática
- invenção da perspectiva científica por Filippo Brunelleschi (1377-1446, italiano)
- céu, entretanto, não podia ser dominado
- no século XV, caráter abstrato da perspectiva ainda era mal compreendido
- naturalismo científico
- não superavam flamengos na suavidade das transições
- dificuldade de associar matemática e observação naturalista resulta em percepção menos acurada do espaço
- irmãos Pollaiuolo (Antonio e Piero Pollaiuolo, 1432-91 e 1441-96, respectivamente, italianos)
- espantosa veracidade
- porém planos repentinos
- recurso de parapeito alto para ajustar a perspectiva
- Escola de Veneza
- poderia chamar-se Escola de Giovanni Bellini (1429-1516, italiano)
- reação emocional à luz
- efeito de luz é o principal tema
- do ínfimo pormenor à grandiosa perspectiva
- pouco depois de Bellini a paisagem dos fatos desaparece na Itália, só reaparecendo no século XVII
- registro da impressão visual da natureza deixa de ser finalidade em Giorgio de Caltefranco Giorgione (1477-1510, italiano), em Ticiano Vecellio (1485-1576, italiano) e em Veronese (Paolo Caliari, o Veronese, 1528-88, italiano)
- efeito heróico
- Miguel Ângelo (1475-1564, italiano) compreendia paisagem como inimiga de seu ideal artístico e como invenção flamenga
- neoplatonismo, razão, simetria, proporção
- Hieronymus Bosch (1450-1516, Holandês)
- sua fantasia se baseia na observação acurada da natureza
- como arte de seu tempo era insípida, volta à iconografia revivalista e para o prazer contemplativo
- Jan Brueghel (1568-1625, flamengo, filho de Pieter)
- único naturalista entre Bellini e o século XVII
- estudioso de Bosch com várias reminiscências da pintura flamenga
- Século XVII (influenciou diretamente a visão do século XIX)
- semelhanças com os fundos de Bellini e Pollaiuolo sem, entretanto, copiá-los
- razões da retomada:
- paisagem dos fatos é forma burguesa de arte – vistas não idealizadas do próprio país
- renascimento da ciência após Contra-Reforma – botânica, expansionismo, Newton, etc.
- sintoma de calma
- esgotamento da tradição maneirista
- Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-69, holandês)
- paisagem ideal
- entretanto arguto observador da natureza
- maestria nos efeitos de espaço e na transição dos planos
- observações, entretanto, não eram mais que matéria prima
- céu foi primeira inspiração dos pintores holandeses
- Jan van Goyen (1596-1656, holandês)
- influências artificiais mas observação delicada do céu
- Aelbert Cuyp (1620-91, alemão), Jan van de Capelle (1624-79, alemão) e Adriaen van de Velde (1636-72, holandês)
- Jacob van Ruysdael (1628-82, holandês)
- o maior antes de John Constable (1776-1837, inglês)
- luz assume novo caráter: movimento contínuo
- cidades e edifícios na pintura holandesa do século XVII
- renascimento dos princípios clássicos de composição em oposição aos maneiristas
- Vermeer de Delf (1632-75, holandês), Pieter de Hooch (1629-84, holandês), Gabriël Metsu (1629-67, holandês) etc.
- sem entretanto abdicar dos pormenores e da atmosfera
- Vermeer de Delf (1632-75, holandês)
- sentido acurado de tonalidade
- não fixava interesse demasiadamente
- procurava imparcialidade do foco
- em fins do século XVII a pintura de luz transformou-se em estratagema
- câmara luminosa era acessório habitual do artista
- resgate do humanismo: verdade por trás da aparência da natureza
- universo mecaniscista
- paisagem torna-se simples trabalho de artífice
- “… como disse Carlyle, tinha-se tornado um velho relógio que podia ser desmontado e montado de novo conforme o gosto.” p. 55
- Canaletto (Giovanni Antonio Canal, 1697-1768, italiano)
- se impactado por uma cena, excedia seu estilo normal
- primeiros quadros têm nova qualidade de luz, mas encomendas enfraquecem seu estilo
- torna-se hábil topógrafo
- grandes massas de luz e sombra
- Francesco Guardi (1712-1793, italiano)
- rapidez da visão impressionista
- preso ao princípio rococó de composição
- estilo caligráfico e decorativo de desenho
- impossibilidade de pintura naturalista no XVIII
- Thomas Gainsborough (1727-88) no princípio de sua carreira tinha sensibilidade de observação mas falta de tempo e noções da época o impediam de observar a natureza diretamente
- “… se Sua Senhoria deseja qualquer obra aceitável assinada por Gainsborough, o assunto assim como as figuras etc., devem ser inteiramene de seu próprio cérebro… fará muito melhor comprando um quadro de algum dos bons Mestres Antigos.”
Paisagem fantástica
- no século XV as antigas ameaças das forças da natureza já não existiam
- começa então o uso consciente do misterioso e do desconhecido para criar horror
- guerras religiosas e guerras camponesas
- trevas do espírito humano expressas em aspectos da natureza
- uso de certas formas e símbolos perturbadores
- Matthias Grünewald (1470-1528, alemão)
- florestas às margens do Reno e do Danúbio, assim como Albrecht Altdorfer (1480-1538, alemão)
- afetado pela literatura mística
- revivalismo que acompanha Reforma
- tudo o que pinta é concebido para ter efeito violento e imediato na emoção
- Albrecht Altdorfer (1480-1538, alemão)
- mais representativo do espírito germânico
- certa serenidade
- vegetação ameaçadora e orgânica
- sátiros muito diferentes dos clássicos
- noção de que a nossa vida começou no meio selvagem (ao invés da Idade de Ouro)
- noção de paraíso já não satisfazia imaginação e curiosidade científica
- Piero di Cosimo (1462-1521, italiano)
- interpretações imaginativas da vida primitiva a partir de relatos dos viajantes
- Século XVI dominado pela paisagem fantástica
- viagens e explorações alargaram o mundo
- Copérnico alargaria o Universo
- caráter conscientemente romântico que exprime espírito anacrônico da cavalaria
- efervescências e convulsões de luz
- extravagância e glória já antecipam Joseph Mallord Willian Turner (1775-1851, inglês, romântico)
- luz fantástica
- efeito de fogo já era parte do repertório de Hieronymus Bosch (1450-1516, Holandês) e também de Joachim Patinir (1485-1524, flamengo) e Lucas van Leyden (1494-1533, alemão)
- interesses estéticos criam iconografia e não o contrário
- Leonardo da Vinci (1452-1519, italiano) comenta sobre o fogo em seu Tratado, associando paixão pelos efeitos fantásticos e desejo de descrição científica do real
- Giorgio de Caltefranco Giorgione (1477-1510, italiano) busca pretextos para usá-lo
- o “Naufrágio” antecipa Théodore Gericault (1791-1824, francês, romântico) e Turner (1775-1851)
- Lorenzo Lotto (1480-1556, italiano) diretamente influenciado pelos alemães (principalmente Dürer)
- forma fantástica
- até século XIV:
- norte: árvores retorcidas
- mediterrâneo: tradição bizantina das rochas dentadas
- posteriormente unem ciência e fantasia
- Leonardo da Vinci (1452-1519, italiano)
- primeiro a fazer estudos geológicos
- conhecimento científico usado para servir à imaginação
- manchas nas paredes, fogo, nuvens ou lama são fonte de inspiração à fantasia desde que se conheça todas as partes do que será representado
- qualidades rítmicas da água
- fascinação estética leva a estudo analítico
- desenhos do Dilúvio: mundo diferente do Apocalipse medieval: símbolo e realidade se confundem
- El Greco (Domenikos Theotokopoulos, 1541-1614, grego, ativo na Espanha)
- exceção ao repertório de truques sem observação direta do maneirismo
- expressionista e comparável aos românticos do séc. XIX
- mas ainda inclui tradições bizantinas e mecânica do maneirismo
- Pieter Pauwel Rubens (1577-1640, flamengo)
- esquema composicional do maneirismo
- prodígio observador dos pormenores naturais
- não é propriamente paisagem factual, mas também não tem caráter literário, nem recorr ao mito da Idade do Ouro
- “As Termas” introduz esquema de composição novo: ponto de vista baixo, massa, forma e contra-forma, movimento ondulatório e unidade – Barroco
- século XVII profundamente excitado pela beleza da noite
- paisagem fantástica degenera no pitoresco
Paisagem ideal (incompleto)
- “Ut pictura poesis” (Horácio)
- obediência a conceito ideal
- aspiração às altas espécies de pintura
- Virgílio: mito da rusticidade ideal, da Idade de Ouro
- formas da antiguidade clássica, mas influências do Gótico
- Giorgio de Caltefranco Giorgione (1477-1510, italiano)
- pintura que os venezianos chamavam “poesie”
- associação com poetas arcadianos
- profetizam o colorido próprio da pintura veneziana
- composição típica: massas escuras de árvores e rochas como bastidores de um teatro, centro livre e luminoso
- “Festa Campestre”: visão de perfeita harmonia com a natureza
- temas musicais
- Ticiano Vecellio (1485-1576, italiano)
- Annibale Carraci (1560-1609, italiano)
- Claude Gellée (Claude Lorrain, 1602-82, francês)
- verdadeiro herdeiro da poesia de Giorgione (1477-1510)
- pintava diretamente da natureza
- economia e prudência
- também desenhos de idéias, admirados pelos primeiros aquarelistas ingleses
- subordinava toda a percepção e conhecimento das aparências ao sentimento poético total
- sistema de composição: bastidor, volume central e plano luminoso
- Rubens (1577-1640, flamengo)
- Nicolas Poussin (1594-1665, francês)
- severo e cartesiano
- paisagens puras só a partir de 1648
- procurava dar forma lógica à desordem natural
- equilíbrio de elementos horizontais e verticais
- usava arquitetura como elemento vertical
- preferência por arquitetura de aspecto antigo
- relações rítmicas
- secção de ouro
- insistência em ângulos retos gera frontalidade
- penetração no espaço: esquema de diagonais
- obras maduras são menos geométricas, com certa compreensão sensual
- Escola Inglesa
- Constable (1776-1837, inglês)
- Turner (1775-1851, inglês)
- mais influenciada por Gellée
- Richard Wilson (1713-82, inglês): subordinação a um único estado de espírito
- John Robert Cozens (1752-97, inglês): aquarelas, visões nostálgicas, piedade romântica
- William Blake (1757-1827, inglês)
- Samuel Palmer (1805-81, inglês)
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