MARIN, Louis. “Ler um quadro em 1639, segundo uma carta de Poussin”. In: —. Sublime Poussin. São Paulo: Edusp, 2000. p. 19-37.
→ DiárioB:19 | 2006-09-05.
"Lede a história e o quadro"
Atentar para:
- pressupõe mímesis como produção de imagens e dá a entender como “dupla via”;
- noção de texto como falta (ambos os sentidos);
- noção de apresentação (extra-mímesis) como pressuposto para a “leitura” do mímema;
- carta de Poussin é fonte histórica (abordada de forma heurística) para um problema delimitado historicamente (baixa Antiguidade até séc. XVIII).
Leitura e “leitura”
- Ler um texto e “ler” um quadro?
- Superposições entre legível e visível.
- Existe algo legível no quadro? Seriam signos sistematizáveis?
- Na análise, descarta-se:
- ser além da enunciação lingüística e ter representamen (Pierce) independente do interpretante.
- Cabe verificar as relações de determinação dentro do representamen.
(Representamen)
- Um signo que está conectado de certa maneira a um segundo signo, seu ‘objeto’, de forma que leve a um terceiro signo, seu ‘interpretante’, num encadeamento ad infinitum onde vão sempre entrando novos signos, sempre relacionados ao mesmo ‘objeto’.
- No caso, a imagem que se refere ao texto, mas que abre para outros encadeamentos. O que determina: texto ou imagem?
Características da empresa
- Caráter operatório:
- se apropriado para ambos os fatores.
- Metodologia:
- pesquisa da relação entre pintura e literatura;
- níveis e campos de pertinência de um discurso.
- Dimensões e modos das:
- semelhanças e diferenças entre leituras;
- ligações e oposições entre legível e visível.
Importante
- Ler também é compreender e dotar de significação essa operação (de compreender, de ler).
- Em pintura, após reconhecer o signo, o compreendemos? Há uma estrutura discursiva em pintura?
- Adiantando: não.
- “Contemplar”: interação recíproca entre legível e visível que pressupõe apresentação.
- Fruir o deleite teórico (dotar de significação a operação).
Ler quadro e texto
- Ler um quadro (até séc. XVIII) seria ler no quadro o relato histórico-cultural.
- Artista leu um texto para pintar e espectador só vê “realmente” se lê o quadro como este texto.
- Texto escrito tem presença visual: quadro falante (e quadro gravado).
- Preeminência do texto sobre a pintura.
- Texto supre falta (ausência e/ou erro) na imagem.
A carta
- Protocolo explícito para leitura.
- Cinde pintor em autor e espectador em leitor;
- mas não duplica o quadro, nem o acompanha, o anuncia;
- a visão é prevenida e anunciada.
- Substitui o quadro ausente; O Maná é:
- nome próprio, título, frase nominal, enunciado de assunto, abreviação de um relato e, também,
- algo que remete a uma série, a um gênero etc.
Hoje
- Quais os efeitos do “Sem título”?
- O discurso crítico (me interessa, p.ex. o do catálogo) in praesentia cumpre também a função de preencher uma falta, de criar no intervalo imagem—texto (note a inversão) um significado útil?
- Texto crítico inaugura um novo encadeamento representamen (agora ad nauseam?)?
- Nesse encadeamento, o que é objeto?
Verdade da pintura
- Valor passional de um lado e valor cognitivo, de outro.
- Um legível e um visível em interação recíproca.
- A carta é instrução, regra, esquema;
- e também persuasão:
- deseja instaurar um tipo novo de relação com a obra de arte.
Moldura, ornato
- Essencial quando olhar do pintor é substituído pelo do espectador.
- Papel integrador: quadro não é um objeto.
- Marca uma passagem: o quadro passa a exigir sua própria teoria.
- Meios não miméticos do icône (apresentação): são condições (e condicionantes?) para a contemplação, para a finalidade de ser espetáculo.
Hoje
- A questão do “cubo branco” (O’Doherty): quando o modernismo se propõe a “tematizar a superfície”, cai a moldura junto com a janela e, na falta delas, coube à “estética da parede” o papel de “artificar”.
- Trata-se de uma simples substituição dentro da mesma teoria do quadro?
Contemplar:
- percurso pelo olhar:
- dentro de um sistema fechado de visibilidade;
- constituição de um texto legível:
- reconhecer nas figuras mostradas as figuras de uma história;
- repetição diversificada de ambos:
- deleite teórico da obra;
- (significação da operação).
- “De resto, se o senhor se lembrar da primeira carta que lhe escrevi, referente aos movimentos que eu lhe prometia ali fazer e, em conjunto com isso, considerar o quadro, creio que facilmente reconhecerá quais são aquelas que esmorecem, que admiram, aquelas que têm piedade, que fazem um gesto de caridade, de grande necessidade, de desejo de saciar-se, de consolação e outros, pois as sete figuras à esquerda dir-lhe-ão tudo o que está aqui escrito e todo o resto é do mesmo teor: leia a história e o quadro, a fim de conhecer se cada coisa é apropriada ao tema”. (Poussin)
Legibilidade
- Movimento, representação da figura
- Gestos como as letras do alfabeto:
- linguagem universal do corpo: discutível! (Poussin → Le Brun → Descartes?)
- Discernir o signo e enunciá-lo (ainda não é narrar).
- Memória concomitante com visão:
- iconizar o texto e textualizar o ícone.
Parte pelo todo
- Sete primeiras figuras (a sinédoque):
- primeiras vistas;
- primeiras lidas;
- primeiras ouvidas.
- O resto:
- para cada paixão, pluralidade de figuras (papéis intermediários);
- atua como a moldura.
Saber ler a narrativa
- De-cifrar a série passional-gestual: ícone se realiza no simbólico, na alegoria.
- Alegoria (enunciação das “atitudes naturais”) faz ver.
- Mas é saber ler (na disposição complexa), é conhecer, o que realmente dá o prazer.
Reflexividades
- Moldura: sui-reflexivo do objeto “teórico”.
- Sinédoque: sui-reflexivo do enunciado.
- A figura da esquerda, a admiração, por sua vez reflete o espectador diante da “Caridade Romana”:
- faz ler a verdadeira visão.
- Da sinédoque para o quadro: admiração e caridade: deslocamento da alegoria para exemplum: Moisés sem seus atributos.
Ler a história e ler o sentido
- Sem o “nome” Moisés, para ler bem não basta conhecer o Êxodo, mas também um segundo texto: Exempla de Valério Máximo.
- Define um “público”: os cristãos eruditos humanistas (que conjugam texto bíblico e letras antigas).
Outra história
- A carta tem por objetivo colocar seu leitor em condições de ser espectador do quadro:
- criar condições para o visível;
- fazê-lo re-conhecimento de um programa de pintura;
- introduzí-lo no discurso das figuras (meta-narrativas).
- Leia a história e contemple o quadro para alcançar (no intervalo, na distinção entre visível e legível) outra história.
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