Me impressiona como, vira e mexe, me sinto atraído por Dubuffet, principalmente por suas últimas séries. “Teatros de memória” caem muito bem para meu processo. Nada melhor que uma boa dose de Dubuffet na veia burocrática da qual andamos sangrando!
“Ao dar aos conjuntos o nome de Teatros de memória, não pensava na memória dos diferentes ciclos dos meus trabalhos, mas queria referir-me ao reagrupamento que se faz constantemente na memória de cada um de nós e que, num mesmo instante, mistura recordações de diversas cenas e diversos acontecimentos numa espécie de sopa composta” (2, p. 34)
“Memória”, “Lugares e personagens”. Não é coincidência, é admiração! A série “sítios”, de 80:
“Meu objetivo não é representar um objeto ou um lugar, mas representar o pensamento, fazê-lo sentir. Sinto que uma obra deve dirigir-se imediatamente ao pensamento, pô-lo em movimento e, por isso, falar a sua linguagem, ou, pelo menos, falar uma linguagem na qual o pensamento se possa reconhecer. Algo que não pude fazer nas imagens que se denominam realistas”
O primeiro contato que tive com Dubuffet foi seu texto “Empreintes”. Se bem me lembro, este foi o tipo de afirmação que me cativou:
“… o papel capta num instante todo um mundo formigante de fatos e acidentes que existe na realidade, mas que os olhos do homem não podem ver. Por que não podem? Porque é um mundo muito cambiante, seus estados são por demais breves.” (1)
No mesmo texto, ele afirma não haver no seu trabalho o acaso. E ainda:
“… há uma chave para os mecanismos físicos […] e por esta razão afirmo que as formas de pássaros gritadores que aparecem sobre a minha folha manchada de tinta têm em parte pelo menos origens comuns, são em parte verdadeiros pássaros.” (1)
Uma forma mais direta de chegar ao mesmo ponto! Vislumbro em suas obras o que Blanchot chama de “o outro de todos os mundos” (ver PensamentoFora):
“Pensava que ao despersonalizar os meus modelos, ao transportá-los para um plano muito geral de elementar figura humana, ajudava a desencadear, para o utilizador da pintura, alguns mecanismos de imaginação ou de promoção que aumentam muito o poder da efígie” (2, p.7)
É sua busca pelo “ponto zero” da cultura o que mais me importa. Tendo a rejeitar o rótulo “bruto”, já que é contraditório falar em “brutalidade lapidada” quando olhamos para suas últimas séries: “Teatros da memória”, “Sítios” e “Miras e não lugares”. [Uma puta contaminação no meu trabalho!]
Notável o “Paragem com 5 personagens”! Cinco humanos gerais, três individuos e um casal, cada qual em seu conjunto unitário ou binário, com claras linhas demarcatórias, e inteiramente avessos ao ambiente. [Poderia descrevê-los como seres sem lugar juntos, mas não relacionados, com lugares sem seres?]