Todo arquivo tem limites históricos, esse não poderia ser diferente.
Por vários motivos, sendo o principal uma ansiedade cada vez maior por escrever e ser lido de forma mais responsável, estou construindo um novo site com o intuito de substituir inteiramente o atual, selecionando e revisando o conteúdo mais importante – o que acarretará em um bom descarte do que escrevi nestes últimos anos.
Nesses tempos de mal de arquivo, é sintomático – mas também salutar – empreender algumas queimas de arquivo para possibilitar um salto de qualidade na carreira de pesquisador: há muito, vários textos que escrevi na graduação vêm me incomodando por serem ainda consultados, comentados e citados sem a devida consideração – isto é, são textos de um graduando, mas muitas vezes atribuídos a um mestrando e, agora, a um doutorando. Então, desde o ingresso no doutorado, tornou-se importantíssimo para mim deixar claro o caráter cumulativo desse site.
Mas também devido ao mal de arquivo parece inelutável manter o arquivo tal como ele é, com sua arquitetura intacta, deixando à vista todas as rachaduras que o tempo acabou produzindo. Daí a decisão de manter o www.dedalu.art.br no ar indefinidamente, mas sem novas atualizações.
Oportunamente, noticiarei a mudança definitiva, incluindo um sonoro aviso sobre isso.
Fim de férias… Ainda não totalmente.
A maioria das pessoas procura um viés artístico como parte de suas férias. Afinal, arte é uma necessidade do tempo livre. Melhor dizendo: arte é uma necessidade, ponto. Mas boa parcela só pode necessitar dela em seu tempo livre. (Caso a pensar: maioria, parte, parcela: viva a língua portuguesa!)
Bom. Como minha profissão é arte, minhas férias são mais ou menos sem arte. Mais ou menos porque é necessidade, então há alguma arte, como o caso do grupo Rubim do Bandolim que provou que Timóteo (cidade do interior de Minas Gerais, não tão interiorana) não só faz samba também, como faz melhor que os sambas burocráticos que andei ouvindo em Belo Horizonte (capital de Minas). Vai aí um e-mail de um ótimo sábado: rubimdb@uai.com.br, bem como dois telefones: 3848-1776 e 9126-1959 (o código, acho, é 31, 55 31).
Ainda não fui à reedição da Bienal de SP em BH, vou amanhã e comento.
Mas vi uma boa exposição, daquelas que gosto, isto é, sem a pompa que a arte anda exigindo: Imagens de Afeto na COPASA, na galeria vitrine da empresa COPASA, que é parte (maioria, parcela) do que sobra aos artistas de Minas para expor: duas paredes. Algum dia alguém vai entender essa minha implicância, indo à empresa COPASA (e a qualquer outro espaço expositivo de BH) e percebendo que são apenas duas paredes em ‘L’ para as quais há concorrência…
Fui porque duas amigas minhas estão expondo, senão continuaria de férias.
Há um quê de dor em todas as obras, nalgumas dor explícita, noutras, latente. Nas que gosto mais, a dor aparece como uma sorte de desconforto.
Camila Otto alcançou uma regularidade interessante, talvez uma síntese cujo alcance é um abismo: fotografias de rostos e mãos, separados uns dos outros, uma série de sorrisos meio amarelos e mãos postas meio tímidas, de pessoas não tão jovens, donde depreendemos mortas. Há uma retícula nas fotos, “artificação” desnecessária, acho.
Nilcéa Moraleida é pintora, caso raro. Mas faz fotos, digo, retratos, não, fotos. Faz buracos onde se cai, retratos de família pintados, num exercício que nos diz que as obras de arte (em geral) terminam sempre autobiográficas. Me explico: tenho intolerância com autobiografias de artistas, digo que as obras terminam sempre autobiográficas porque, no fim, é a própria vida o que o espectador coloca na obra que admira.
Rachel Leão faz pintura, mas é desenhista. Diz algo em francês sobre o tempo e a inevitabilidade da perda; explica o que são esses retratos que não precisavam explicação, do que gostei. Só não gostei do exagero dos penduricalhos pulmão, estômago e coração: eles morreram disso? de que mais morrem as pessoas? Bastariam os retratos, acho, suficientemente pungentes.
Bom quase fim de férias, vale a pena ir à COPASA e ligar para os sambistas de Timóteo.
Como sabem, faço parte do grupo de pesquisa Estratégias da Arte numa Era de Catástrofes (Grupo), coordenado pela Profª Maria Angélica Melendi (Piti), da EBA-UFMG. Há muito tínhamos intenção de fazer um novo site para o Grupo, bem como publicar uma revista eletrônica, a Lindonéia. Depois de muito trabalho, vamos lançar ambos nesse dia 3 de dezembro:
O site http://www.estrategiasarte.net.br foi desenvolvido por mim, usando o Drupal. Ainda estamos preenchendo os conteúdos, mas o site já se destaca pela qualidade das imagens publicadas pelos membros do Grupo.
A convite da Profª Drª Yacy-Ara Froner, participarei do 1º Seminário Ciência e Conservação, que ocorre entre 1º e dia 3 de dezembro. Confira a programação e demais informações em: http://www.eba.ufmg.br/pos/teoriacontexto/.
Minha comunicação, que ocorrerá dia 3, será Hipótese da dupla substituição / duplo registro em um museu-limite, cujo resumo segue:
“Mercado de arte” sempre foi um tema espinhoso e geralmente muito mal compreendido, dadas as posições sintomaticamente antinômicas: negação, aceitação tácita, aceitação comemorativa etc. (Seria uma proposta válida criar uma disciplina específica nos cursos de arte?)
Some-se a isso uma das características mais essenciais da fotografia, a reprodutibilidade técnica, que bem serviu de arma contra a reificação das obras de arte, pela possibilidade de desfazer o fetichismo; mas cujo controle – tiragem e encarniçamento dos direitos autorais – transforma-a tão-só num mecanismo de equilíbrio do valor de mercado, resultando na capacidade de transformar uma produção, por definição, ilimitada quantitativa e qualitativamente – me refiro aos inúmeros formatos e materializações possíveis de uma mesma foto – em um objeto artístico ou artificado (por definição, limitado e com aderência de alguma aura, por mais fina que seja).
Ora, então “fotografia e mercado” é um tema dos mais emocionantes e é muito bem-vindo o simpósio A Fotografia e o Mercado das Artes, promovido pela Fototech-MG, “junto ao Departamento de Fotografia, Teatro e Cinema da UFMG”, segundo email que recebi.
Não creio que o tema venha a ser tratado nesses termos que expus, mas confio, principalmente, que o amigo João Castilho – cuja palestra é “O fotógrafo e a obra artística” – trará boas questões para o debate.