PERRONE-MOISÉS, Leyla. A criação do texto literário. In:___. Flores da escrivaninha: ensaios. ???: Companhia das Letras. p.??--??.
- título já implica determinada teoria da literatura
- “criação” supõe tirar do nada – idealismo romântico: criar outra natureza / completude autônoma
- “texto” – materialidade do escrito
- “invenção” – não é absoluta (até algo pejorativo)
- habilidade mais que inspiração
- circunscrita no tempo
- “produção” – materialista – se liga mais homogeneamente a “texto” – equiparado a produto industrial
- “representação” ou “expressão” – exclui “texto” por remeter a algo anterior, um mundo ou um indivíduo
- representação: mimesis
- expressão: psicologia, romantismo tardio, sujeito emissor
- literatura
- apesar:
- da impossibilidade de a linguagem expressar/representar um real prévio
- da impossibilidade de criar/inventar/produzir objeto auto-suficiente
- a partir de um real, falha, mas essa falha revela outra coisa mais real: “A literatura nasce de uma dupla falta: uma falta sentida no mundo, que se pretende suprir pela linguagem, ela própria sentida em seguida com falta.”
- real insatisfatório (sempre) – maior capacidade de conhecer sem, entretanto, possibilidade de visão de conjunto
- imaginação compensa essa insatisfação causada pelo real
- atividade artística: dar forma completa ao imaginado; refazer o real
- não se trata de uma “literatura idílica”
- as obras negativas acentuam a falta para torná-la perceptível e generalizada
- “Trágica ou epifânica, negativa ou positiva, ela está sempre dizendo que o real não satisfaz”.
- “A literatura empreende suprir a falta por um sistema que funciona em falta, em falso: esse sistema é a linguagem”
- “dizer as coisas é aceitar perdê-las, distanciá-las e até mesmo anulá-las”
- narrar uma história é reinventá-la
- poema: “ritmar as palavras como um convite a ritmar o mundo”
- o horizonte da literatura é o real; mas por ser linguagem, ela nunca pode ser real
- realismo: linguagem assume estatuto de artifício e ilusão para parecer real
- artifício/formalização não é alienação; selecionar/atribuir valores => reordenação do mundo => atinge uma verdade do real
- “A forma é, assim, uma espécie de rede ardilosamente tramada para colher, no real, verdades que não se vêem a olho nu, e que, vistas, obrigam a reformular o próprio real.” p.107
- Aristóteles, verossimilhança => “revelar as possibilidades irrealizadas do real” => literatura pode ser revolucionária: “… levantar, por suas reordenações e invenções, uma dúvida radical sobre a fatalidade do real, sobre o determinismo da história”;
- leitor
- escritor é o desencadeador
- “saber inconsciente circulando a linguagem”
- entre a proposta e sua recepção: “construção do real e convite reiterado ao seu ultrapassamento”
Anotações de um outro texto que, acredito seja do mesmo livro:
- sedução: desviar
- palavras seduzem por si/infinitos desvios/palavras são diabólicas
- “A reflexão sobre a sedução é inseparável da reflexão sobre a linguagem”
- Don Juan:
- enunciado performativo “Eu prometo…” => ilusão referencial sem referente no real
- diálogo entre surdos?
- desejo de linguagem
- psicanálise não trata muito sobre sedução
- não promessa na, mas de linguagem
- sedução != delírio
- sedução: saber que o outro caminho é imaginário
- delírio: ver (que é) real
- primeiro, fantasia => obj. do sedutor e do seduzido é “operar um corte no inconsciente do outro e fazer advir a possibilidade de uma linguagem”
- desejar a linguagem do outro
- importante na sedução é a diferença
- sedução e poder
- escrita seduz por ela mesma
- interlocutor ausente
- ambiciosa
- o seduzido não é presa do seu sedutor, mas de seu próprio desejo