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ConsideraçõesTatogartas

Considerações para o projeto "Tatogartas: taxonomia impossível"

Dar nome, inserir o objeto na linguagem, é o ponto de partida para o conhecimento. Desde o nascimento da ciência moderna, entretanto, não basta mais o simples nomear, é essencial que o nome seja suportado por esquemas rígidos e universais que postulem métodos para confrontar caracteres comuns com específicos, permitindo encaixar o objeto de estudo no menor agrupamento cujos membros ainda mantenham características comuns. Em qualquer classificação, identidades incluem o espécime em um nível, enquanto idiossincrasias o tornam elegível para um nível mais interno na hierarquia, no qual o que era particular torna-se comum. Quanto mais profundo, mais sutil a característica a ser procurada, de forma que também o corpo do espécime tenha que ser desmembrado. No processo de obtenção do esclarecimento tornou-se compulsório para a inteligentsia dissecar, classificar e organizar.

O mundo contemporâneo, entretanto, parece viver um dilema classificatório: na medida em que aumentou nossa capacidade de organização e classificação, graças principalmente aos computadores, aumentou também a quantidade e o refinamento das informações de tal maneira que terminou por colocar em xeque a própria possibilidade de classificar. As “lentes” aproximam mais e mais, forçando-nos a reconsiderar como particulares caracteres que antes pareciam comuns. Além disso, novos avanços teóricos em todas as áreas colocam sob suspeita a eficácia dos métodos rígidos e pretensamente universais.

Concomitantemente, o homem comum, principalmente o trabalhador técnico, sofre com o acúmulo de informações e a impossibilidade de organizá-las por não ter ou o acesso a ferramentas adequadas ou o conhecimento necessário para classificá-las. A agenda de papel, por exemplo, não se tornou obsoleta porque foi substituída por programas de organização pessoal, mas porque suas características não atendem mais às necessidades “organizacionais” do mundo do trabalho. O surto de teorias e técnicas que abordam a eficiência e o gerenciamento, tanto privado quanto público, e sua contrapartida no âmbito pessoal (livros de auto-ajuda que ensinam a ter sucesso profissional, por exemplo), demonstram justamente que instituições e indivíduos sentem-se incapazes de lidar com o mundo atual usando as ferramentas disponíveis.

Na fruição da arte um fenômeno semelhante acontece em duas vias. A primeira delas, mais óbvia e há muito analisada, tem relação com o que Adorno denominou “regressão do gosto”: a massificação da cultura transformou tudo em igual, substituindo a classificação, agora impossível, pelo simples reconhecimento. A outra via parece poder ser verificada na recepção da arte contemporânea, esse exemplar da “alta cultura”, principalmente pelo erudito não especializado. A publicidade e os artigos de vulgarização sobre arte contemporânea raramente citam critérios que não sejam os da moda ou os econômicos; mas, inversamente ao que acontece com a Indústria Cultural, parece existir por parte do espectador dificuldades para perceber identidades, impedindo tanto a classificação quanto o reconhecimento.

Taxonomia e esquecimento

Toda classificação é arbitrária, já que os métodos utilizados para praticá-la são axiomáticos. Árvores classificatórias são geralmente derivadas da experiência e da observação; mas os critérios para determinar quais características devem ser consideradas são apenas especulações do que parece ser mais eficaz para comprovar teorias, em dado momento do conhecimento. Como um método de classificação é necessariamente rígido, se muda o homem, muda necessariamente o método. As classificações escolásticas soam hoje ridículas, mas sem dúvida funcionaram em sua época. Da mesma forma, as classificações atuais também sucumbirão, e disso já estão dando notícia há algum tempo.

Em alguns casos, a classificação cujos critérios foram comprovados antiquados é mantida por simples conveniência. As vitaminas, por exemplo, são classificadas em hidrossolúveis e lipossolúveis; mas o desenvolvimento das técnicas de síntese demonstrou que grande parte das consideradas lipossolúveis possui compostos hidrossolúveis. A classificação permanece ainda em uso porque, funcionalmente, acaba refletindo diferenças reais. Fica claro, portanto, que a característica analisada (solubilidade) só coincide com a realidade, não a determina. Pior, vem sendo demonstrado que boa parte das vitaminas são também hormônios: a vitamina A age como um ou outro, dependendo do local de atuação; já a vitamina D não atua nunca como vitamina, apenas como hormônio. [Conversa com Ilto Nunes, mestre em nutrição animal.]

Em outros casos, é necessário propor uma outra forma de taxonomia ou acessória ou substitutiva, mesmo. A espécie de borboletas Astraptes fulgerator intriga os entomologistas há algum tempo: larvas de hábitos e morfologias distintas metamorfoseavam-se em borboletas quase idênticas; existia a suspeita de que a “espécie” escondia várias outras, mas a partir das chaves de classificação em uso não havia possibilidade de distingüi-las. O uso de um novo método de classificação biológica baseado no gene citrocromo C Oxidase I comprovou a suspeita, possibilitando a identificação de dez novas espécies. [PIVETTA, Marcos. Assinatura molecular. Pesquisa FAPESP, São Paulo, n. 110, p.56-7, abril 2005.] Esse novo método, chamado “assinatura molecular”, difere radicalmente do tradicional e parece, inclusive, negar um dos princípios da taxonomia: a hierarquia. O gene seria usado como um código de barras, como o índice de um banco de dados de espécies; e bancos de dados são “planos”, já que uma das características ontológicas do dado é a ausência de análise qualitativa prévia ou integrada.

Museus, zoológicos e herbários de todo o mundo têm se integrado ao chamado “Consórcio para o Código de Barras da Vida”; o que acaba implicando em mudanças nas características do que definimos como museu ou coleção: a possível mudança do que significa classificação aproximaria estes conceitos ao do de arquivo, já que a característica deste é justamente a exclusão de caracteres qualitativos prévios; a ausência de hierarquias.

Tal mudança provavelmente será observada também nos museus históricos e artísticos. Nos últimos séculos a taxonomia aplicada à memória funcionou, permitindo o devido acesso cognitivo às coleções e aos museus. Por mais filiadas que fossem ao poder estabelecido, as características observadas eram compatíveis com a tradição histórica e artística.

Hoje em dia, entretanto, os museus e coleções de arte contemporânea parecem velhos e, pior, dão a impressão de envelhecer os exemplares que abrigam. Como nunca ir para o museu significa morrer. Isso porque mesmo a mais empreendedora e criativa instituição sucumbe à rigidez, já que ainda não inventaram uma organização ou desligada da classificação ou pelo menos ligada a classificações compatíveis com nosso tempo.

Tatogartas: seres inclassificáveis

Em 2004 criei a primeira “Coleção de Tatogartas”, retângulos pretos de mesmo formato, pintados a nanquim, acondicionados em caixa de madeira com vidro, própria para coleções de insetos, e alfinetes entomológicos, medindo 7,5x63x44cm. Além da coleção, outros trabalhos e inúmeras anotações abordaram indiretamente o tema:

Contrariando a lógica da coleção e da taxonomia, antes do espécime havia o seu nome, “Tatogarta”, um dentre os diversos que encontrei em um erro de composição do livro de “Entomologia Para Você”, de Messias Carrera, que usava como guia para a coleção de insetos que mantive até a adolescência, quando infelizmente perdi o interesse. Considerava esse livro perdido assim como a coleção - irônicamente devorada por outros insetos - mas acabei recuperando-o no final de 2003. Reavivando a memória da infância, abri na página que ainda estava marcada: “Ordem dos Lepidópteros”. Comecei a ler, saboreando novamente a aridez do texto científico:

“Entretanto, a grande maioria das lagartas de mariposas apresenta sôbre o nho” e “sauí”, são fogo”, “cachorri-ranas”, “lagarta-chamadas “tatogartas peludas, nuas) Estas lametridae são Sphingidae e Geo-tas das famílias ficados (as lagar-simples ou rami-que podem ser sa como espinhos zes esparsa…” [CARRERA, Messias. Entomologia para você. 2. ed (?), São Paulo (?): S.I., 1963 (?). p. 235]

Desde então, urgiu criar este novo “inseto” e colecioná-lo. Após algumas tentativas de inventá-lo, mesclando aleatoriamente características morfológicas de diferentes insetos, acabei optando por um personagem tão hermético e opaco que, mesmo visível, não desse qualquer notícia de seu real significado. Nas Instruções… (2003), escrevi:

“A ANALOGIA É IMPOSSÍVEL […] cada tatogarta é um campo significativo. Olhar mais atento revela seu significado. Em caso de dúvida, siga o diagrama abaixo ou a chave taxonômica a seguir.”


TatogartasCachorriranas