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2008-04-17

Reunião do GrupoPesquisa. Discutimos o texto This Funeral is for the Wrong Corpse, do livro Design and Crime, de Hal Foster.

O tema é a “morte da arte”. Essa expressão nunca significou parar de produzir pinturas, esculturas etc.; “o que estava em questão era a inovação formal e a significância histórica desses meios”. É nesse sentido que Foster nos cutuca: “a arte contemporânea não parece mais ‘contemporânea’”. A partir desse punctum dolens, ele discute os dois principais campos envolvidos: um que chamarei “benigno” e outro, “mais à esquerda”.

Seriam “benignos”:

São noções que se apresentam benignas dentro de marcos liberais; mas nem tanto, dentro do neo-liberalismo: o “relativismo” aparece como a regra que o mercado requer.

“Mais à esquerda”, estariam:

A questão para Foster não é confrontar os dois campos. Há muito de acerto em cada uma das propostas, há sim uma espécie de “morte da arte” em curso. Mas, num movimento contrário (ou tangente), percebe-se também que a arte “segue vivendo” apesar de tudo. A impossibilidade de inovação nem é mais uma discussão que movimenta os meios artísticos…

Entretanto, fica a pergunta: ainda podemos vislumbrar “transformações formais que são também engajamento social” nesse “seguir-vivendo”? [Living-on – “Talvez este seguir-vivendo não seja tanto repetir, mas fazer-novo ou simplesmente fazer-fazer com o-que-vem-depois, um começar de novo e/ou em outro lugar”.] Haveria possibilidade de resistência (cf. 2008-04-03 e 2008-04-10) mesmo retomando a arte moribunda?

Foster responde que sim e propõe uma categorização desses retornos: “traumático”, “espectral”, “assíncrono” e “incongruente”.

O texto já está longo. Importa, então, resumir a discussão do GrupoPesquisa.

Tentamos localizar essas categorias no nosso contexto e percebemos que não temos tanto arte traumática, mas sim espectral.

Mesmo Carlos Zílio… Seria impossível para nós chorar? E a questão do imperativo da memória? Por que, afinal, não há na arte brasileira retornos traumáticos da Ditadura? Onde está o nosso October 18, 1977 (pinturas sobre o Baader-Meinhof, realizadas em 1988, por Gerhard Richter)? Por que a arte brasileira não comenta POLOP, Var-Palmares, PCBR, Colina etc.? Teríamos nós uma espécie de trauma de Portinari – do comunista que sempre trabalhou para o Estado?

Também não conseguimos localizar muitos trabalhos assíncronos ou incongruentes no nosso circuito…

Foster não pretende criar uma escala de pertinência, só uma categorização. Mas eu elegeria a arte traumática como a mais pertinente dentro do contexto da história recente brasileira. A idéia de “homem cordial” me irrita profundamente! Talvez alguns trabalhos de Rosângela Rennó alcancem essa dimensão de expor os traumas…

Para a minha pesquisa PinturaCatálogos, achei interessante o trabalho de Rachel Whiteread (exemplo de Foster para a persistência fantasmagórica). Está aí: eu também ando me reprimindo…