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2008-02-22

Desde 2004, está circulando uma corrente com imagens do artista inglês Julian Beever. Muitas vezes, vêm misturadas obras similares do artista norte-americano Kurt Wenner. Cf. também: Wikipedia:Julian_Beever e Wikipedia:Kurt_Wenner.

Coincidentemente hoje recebi essa corrente, e por isso resolvi continuar o assunto da representação da representação, abordando um outro aspecto: representar para a representação; isto é, pintar para fotografar, que seria a via inversa do que discuti ontem (cf. 2008-02-21).

O vídeo Youtube:IZ41c6omVWk é didático. Repare o papel da câmera fotográfica no processo de elaboração de um dos projetos de Julian Beever: a máquina sempre determina o ponto de vista.

Frame do vídeo Transformers, Julian Beever Sidewalk Art (in Theaters, 7-4-2007)
Frame do vídeo Transformers, Julian Beever Sidewalk Art (in Theaters, 7-4-2007)

No frame acima, a pessoa de chapéu branco está olhando pelo visor da câmera, demonstrando a necessidade de uma mediação pela máquina até mesmo in loco. Isso é importante.

Julian Beever, Make Poverty History, (2005?)
Julian Beever, Make Poverty History, (2005?)
Julian Beever, Make Poverty History, (2005?) (Fora do ponto de vista ideal)
Julian Beever, Make Poverty History, (2005?) (Fora do ponto de vista ideal)

Não se trata de uma simples questão de construção da perspectiva. Os frontões e a própria arquitetura greco-romana, desde a Antiguidade, e as pinturas de teto e retábulo das igrejas e outros monumentos, desde o século XVI, já consideravam o efeito ótico necessário para que o observador em um ponto de vista baixo pudesse apreender a imagem como se estivesse em um ponto de vista médio, “natural”. A novidade é que Julian Beever considera não o espectador presente, mas o espectador mediado pela fotografia.

A questão não é nada sutil. No monumento greco-romano ou na igreja há um espectador estático; mas na calçada das grandes cidades, ele está sempre em movimento: ele vem fora do ponto de vista ideal, alheio até à imagem, e passa por ele rapidamente. Na presença da obra, ela só existe em sua intencionalidade por alguns segundos. Imediatamente o espectador sem mediação desvenda o ilusionismo e o trompe-l’œil perde toda a força.

A fotografia não é, portanto, apenas registro de uma obra urbana e efêmera (feita com giz na calçada), mas a mediação necessária para a plenitude da obra.

Isso, acredito, engrandece a obra de Beever, que, de outra forma, cairia no limbo da pirotecnia pictórica. (Talvez seja uma boa discussão: qual o papel e a importância do trompe-l’œil hoje?)

Um outro exemplo disso, mas fora do contexto da arte urbana, é o trabalho metamorphose de Roberto Cabot, apresentado na 25ª Bienal de São Paulo (2002). Na foto abaixo, estamos eu, Wanda e Luciana tentando compreender do que se tratava a obra enquanto esta se realizava:

Roberto Cabot, Metamorphose, 2002 (25ª Bienal de São Paulo).
Roberto Cabot, Metamorphose, 2002 (25ª Bienal de São Paulo).

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