Desde 2004, está circulando uma corrente com imagens do artista inglês Julian Beever. Muitas vezes, vêm misturadas obras similares do artista norte-americano Kurt Wenner. Cf. também: Wikipedia:Julian_Beever e Wikipedia:Kurt_Wenner.
Coincidentemente hoje recebi essa corrente, e por isso resolvi continuar o assunto da representação da representação, abordando um outro aspecto: representar para a representação; isto é, pintar para fotografar, que seria a via inversa do que discuti ontem (cf. 2008-02-21).
O vídeo Youtube:IZ41c6omVWk é didático. Repare o papel da câmera fotográfica no processo de elaboração de um dos projetos de Julian Beever: a máquina sempre determina o ponto de vista.
No frame acima, a pessoa de chapéu branco está olhando pelo visor da câmera, demonstrando a necessidade de uma mediação pela máquina até mesmo in loco. Isso é importante.
Não se trata de uma simples questão de construção da perspectiva. Os frontões e a própria arquitetura greco-romana, desde a Antiguidade, e as pinturas de teto e retábulo das igrejas e outros monumentos, desde o século XVI, já consideravam o efeito ótico necessário para que o observador em um ponto de vista baixo pudesse apreender a imagem como se estivesse em um ponto de vista médio, “natural”. A novidade é que Julian Beever considera não o espectador presente, mas o espectador mediado pela fotografia.
A questão não é nada sutil. No monumento greco-romano ou na igreja há um espectador estático; mas na calçada das grandes cidades, ele está sempre em movimento: ele vem fora do ponto de vista ideal, alheio até à imagem, e passa por ele rapidamente. Na presença da obra, ela só existe em sua intencionalidade por alguns segundos. Imediatamente o espectador sem mediação desvenda o ilusionismo e o trompe-l’œil perde toda a força.
A fotografia não é, portanto, apenas registro de uma obra urbana e efêmera (feita com giz na calçada), mas a mediação necessária para a plenitude da obra.
Isso, acredito, engrandece a obra de Beever, que, de outra forma, cairia no limbo da pirotecnia pictórica. (Talvez seja uma boa discussão: qual o papel e a importância do trompe-l’œil hoje?)
Um outro exemplo disso, mas fora do contexto da arte urbana, é o trabalho metamorphose de Roberto Cabot, apresentado na 25ª Bienal de São Paulo (2002). Na foto abaixo, estamos eu, Wanda e Luciana tentando compreender do que se tratava a obra enquanto esta se realizava: