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2008-02-21

Alan Fontes, A Casa, 2005. (Galeria de Arte da Copasa, Belo Horizonte, out. 2005)
Alan Fontes, A Casa, 2005. (Galeria de Arte da Copasa, Belo Horizonte, out. 2005)

Hoje, no Brasil, a figuração parece reinar nos ateliês de pintura das escolas de arte, sem qualquer espanto para os professores que se formaram na década de 80 – último grande fôlego da abstração e, talvez, da pintura.

Aqui perto de mim, na EBA-UFMG, Alan Fontes, Leonora Weissmann e, mais recentemente, Marcel Diogo se destacam. Mas o interessante é que nenhum deles se atém à pintura (talvez Juliano Caldeira, outro, mas perdi contato com ele): todos trabalham a pintura figurativa e algo mais – é isso o que me interessa aqui.

Analisar A Casa de Alan Fontes como instalação, por exemplo, me parece perda de tempo. O interessante em cada uma das versões e até na animação de mesmo nome é como tudo se integra como pintura. Juliana Monachesi analisa esse fenômeno segundo a noção de que a pintura hoje caracteriza-se como pós-produção, dando uma pista de onde quero chegar: “Alan Fontes é um artista que pesquisa a linguagem pictórica na era da imagem técnica” (“Microbricolagens clandestinas” em http://alanfontes.blogspot.com/).

O algo mais atende justamente aos novos paradigmas criados com a nova forma da imagem técnica. Não estamos mais na era da simples fotografia: imagem programada, escâner, fotografia digital, internet e principalmente blogs e fotologs; tudo isso vem criando novos paradigmas visuais que acarretam na arte hoje um fenômeno – quase – inverso ao que ocorreu há um século.

Lembremos do papel da fotografia nos primórdios do Modernismo: o fato de terem encontrado uma tecnologia que “tira” imagens da natureza foi um dos fatores que liberaram a arte do naturalismo e, depois, da figuração. Muito se disse sobre a reação dos impressionistas à fotografia; mas pintar ao ar livre e preocupar-se com a luz significava justamente uma aceitação daquilo que a fotografia tornou visível. Em O Fotográfico (Gustavo Gili, 2002), Rosalind Krauss verifica isso nas sombras “fotográficas” do quadro Mulheres no Jardim (1866-1867) de Monet. Talvez mais contundente seja a análise de Laura González Flores em Fotografía y Pintura: ¿dos medios diferentes? (Gustavo Gili, 2005). Para ela, a fotografia nada mais é que a satisfação técnica de uma “Visão Objetiva”, que se acredita “natural”, mas que é produto da sociedade ocidental pós-Renascimento. Disso resulta que a fotografia também representa o mundo, não o apresenta; sendo, portanto, meio muito semelhante à pintura.

Mas o que vem acontecendo hoje? Os termos seriam “aceitação” contra “reação”? O retorno da figuração seria somente uma reação à irresponsabilidade da abstração da década de 80, uma resposta ao mea culpa dos professores? Ou seria uma virada no mercado, a necessidade de novos parâmetros para a valoração de uma obra: a exaustão do modelo Clement Greenberg sem a devida substituição para a arte contemporânea?

Acredito ter encontrado um fio da meada ao ler, no artigo Novos artistas alemães conquistam mercado mundial da arte:

Além do caráter representativo de lifestyle que a arte assumiu, nos últimos anos, as razões deste sucesso se encontram na reação estética provocada pela revolução digital na pintura e na fotografia e nos temas abordados pelos novos artistas.
Poucos são os fotógrafos que não trabalharam suas fotos em computadores, poucos são os pintores que não pintaram suas telas a partir de fotografias. […]

Em setembro de 2007, assisti a uma apresentação de Sara Moreno Rocha sobre sua pesquisa de iniciação científica Processos, Procedimentos, Percursos: o aluno-artista (Lúcia Gouvêa Pimentel, orientadora). Sua proposta foi usar a fotografia da pintura no processo de sua execução como meio de verificar o aperfeiçoamento do aluno-artista, propiciando uma espécie de crítica genética nas artes visuais. Disso resultou uma animação mostrando o “embate” com a pintura, mas que chamou minha atenção pela presença constante de fotografias coladas na tela. Os três graus de representação (fotografia-gabarito, pintura, fotografia-documento) pareciam integrar-se em um só.

Na mesma ocasião, Raquel Souza Borges, que é do GrupoPesquisa, apresentou sua pesquisa sobre pintura de retratos (Maria Angélica Melendi, orientadora). Durante o relato de seus procedimentos, surge uma maçã. Tratava-se de uma “adição” ao retrato que não constava da fotografia inicial. O interessante foi como ela solucionou o problema de adicionar a maçã à sua pintura: ela fotografou a maçã!

Juntas, fizeram uma bela exposição na galeria da EBA-UFMG: A Pintura e a Outra (4-14 set. 2007). Desde então não saiu da minha cabeça essa compulsão de fotografar para, então, pintar… qualquer coisa, até mesmo uma simples maçã.

Todos estes artistas têm a capacidade técnica para pintar “ao vivo”. Então a justificativa para o uso da fotografia seria a disponibilidade: poucos modelos topariam várias e intermináveis sessões de pose… Mas a maçã, ela sim, ela toparia.

Impossível não pensar em uma – quase – inversão do que fizeram os impressionistas; o que sugere estarmos lidando com um novo paradigma visual. A questão não é mais representar o mundo, mas representar a representação do mundo.

Nesse sentido, sim, a pintura transforma-se em pós-produção. Há que se pensar, então, um novo termo: o rótulo “pintura figurativa” não atende bem.


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