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2006-09-05

Apresentei texto de MarinSobrePoussin na aula da Profa. Wanda Tófani. Uma boa discussão sobre a “leitura”/legibilidade de obras de arte hoje ficou no gérmen.

Acredito que o texto crítico seja um lastro essencial para a obra de arte contemporânea. Mas ainda assim, há que se considerar ‘lastro’ ipsis litteris: aquilo que restabelece o equilíbrio, mas que é de pouco valor em relação à carga do navio. O que quero realmente dizer com isso: não se trata de banir ou proibir texto e “leitura de texto” na obra, mas de percebê-los como um segundo momento; trata-se de acreditar numa completude imanente da obra de arte sozinha, mesmo que isso resulte falso na maior parte dos casos contemporâneos – é fácil notar que boa parte hoje precisa de um texto para ao menos se diferenciar em arte (uma outra e longa discussão seria esse ‘diferenciar-se’).

Mas nestes casos entra uma nuance: há obras que contêm em si textos; obras cujos ‘textos críticos’ não são ‘críticos’, mas corpus integrado. Corpus na acepção “conjunto de documentos sobre determinado tema”, junto com “estrutura com características ou funções especiais no corpo” (tiradas do Houaiss). Uma boa discussão seria se o Grande Vidro inclui a Caixa Verde, por exemplo.

Essa totalidade imanente da obra evitaria qualquer determinismo extra-artístico – muito comum nas “leituras” da obra de arte visual – e além disso autonomiza a arte como conhecimento em si e por si (já há muito sobre isso desde Croce). Há que se ter como certeza, entretanto, que tais determinismos não são de forma alguma inúteis: eles dão acessos (diremos:) extra-artísticos à obra de arte.

Isso é importante: não há nada de errado em usar a obra de arte como fonte histórica e dessa forma “lê-la” segundo princípios heurísticos. A arte dá a conhecer sobre seu tempo, mas não (idealmente) possui em si apenas seu tempo. Vai daí que compreender a obra a partir do tempo (note a inversão: usar história como fonte da obra) resulta parcial.

O texto do Marin é interessante justamente por propor uma relação entre texto (a carta de Poussin) e quadro (O Maná) dentro de um contexto histórico específico: o século XVII. Não há qualquer tentativa de universalização dos achados sobre “leitura” de um quadro. Os conceitos de “lê a história e o quadro”, frase de Poussin, são analisados dentro de um escudo histórico. E é justamente essa característica da análise de Marin o que nos dá conforto para propor relações anacrônicas a partir do duplo movimento “iconização do texto e textualização do ícone”.

Era mister para o espectador do século XVII procurar no quadro o texto. Marin recoloca a questão muito bem em relação a Poussin, concluindo que isso não era suficiente; afirmando que O Maná exigia uma erudição humanista para a qual a carta de Poussin era guia. É justamente essa delimitação sólida – século XVII, carta de Poussin, O Maná – o que nos dá liberdade para anacronismos:


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