Discute o atual contexto artístico de Belo Horizonte e o boom de boas exposições que experimenta em 2008.

Artigo originalmente publicado como NUNES, Hélio Alvarenga. "Visibilidade na periferia", Papel das Artes, nº8, Rio de Janeiro, set. 2008, p. 8-9. (Artigo ilustrado por Paulo Nazareth).

Paulo Nazareth e seu embornal.

Paulo Nazareth, 2008. “Louco ou sábio, continua andando com seu embornal carregado de objetos misteriosos.” (Piti)

Galinhas d'angola no Palácio das Artes

Paulo Nazareth, 2008. Galinhas d'angola no Palácio das Artes. A gente pisava na bosta das galinhas do Paulo e depois levava a sujeira para a exposição do acervo Roberto Marinho, que ocorria nas galerias adjacentes.

O panorama artístico brasileiro continua polarizado, apesar das inúmeras iniciativas que têm como proposta abarcar a multiplicidade de manifestações de nosso país-continente. O recém lançado catálogo do Projéteis Funarte traz, dentre 23 projetos, nove do Rio de Janeiro e três de São Paulo, dando a impressão de existir uma espécie de sistema de quotas para artistas de outros estados. E, apesar da ênfase no mapeamento nacional e do esforço por divulgar o programa em 19 capitais, muito provavelmente ocorrerá o mesmo com o Projeto Rumos, pendendo talvez mais para São Paulo.

O problema de grande parte dessas iniciativas, incapazes de despolarizar efetivamente, não é tanto o sistema de quotas, mas o fato de que “nacionalizar” parece significar apenas levar os artistas da periferia para o centro. O Projéteis realizou cinco exposições, todas no Rio. E o Rumos provavelmente só realizará uma em São Paulo, apesar de o edital prever a possibilidade de itinerância. As tentativas de dar visibilidade à diversidade nacional continuam seguindo uma lógica polarizada.

Como moro em Minas, não foi sem razão, portanto, que a primeira proposta da editora Cleusa Maria para o tema desse artigo fosse contar sobre os artistas que vivem e trabalham aqui, ainda sem a visibilidade que seus trabalhos merecem. É sem dúvida um tema de vital importância. As duas escolas de arte de Belo Horizonte formam aproximadamente 60 profissionais por ano. Nem todos atuarão como artistas. E só uma ínfima parcela terá alguma visibilidade nacional ou internacional. Muitos entre os invisíveis têm bons trabalhos, sem dúvida. Mas hoje é difícil para mim escrever sobre eles, pois venho notando uma mudança significativa no panorama mineiro.

Belo Horizonte ainda é uma periferia artística, mas muita coisa está mudando. Há pouco mais de dois anos, quando propus minha pesquisa para o mestrado, esbocei um quadro sombrio sobre a carência das instituições daqui. Diagnosticava tantos problemas de visibilidade, a ponto de propor ser o catálogo de exposição, o souvenir, mais importante que a exposição em si. O que me interessava na época era a impossibilidade de um contato mais duradouro com a produção contemporânea; não só mineira, mas nacional e internacional. Minha preocupação era a formação dos jovens artistas mineiros, que só podiam ver arte no catálogo ou no livro, e como esse olhar de segunda-mão afetava suas poéticas.

Inhotim ainda não era uma realidade tão palpável e dinâmica como é hoje, responsável por um salto de qualidade surpreendente, principalmente, entre os estudantes de arte que lá trabalham como monitores. Eu tinha a impressão de se tratar de uma extravagância que logo iria desaparecer; no que, ainda bem, me enganei redondamente, já que continua expandindo sua coleção e sua importância, com os dois novos e sensacionais pavilhões: o de Adriana Varejão e o de Doris Salcedo.

Por isso, na época, boa parte de minhas preocupações se voltaram para a inadequação do Museu de Arte da Pampulha (MAP), que, tendo sido projetado para ser um cassino, não podia mostrar seu acervo. Mas hoje percebo que justamente esse problema foi uma das causas da virada mais importante de Belo Horizonte nos últimos anos, a Bolsa Pampulha. Agora em sua terceira edição, ela reformulou o modelo deformado dos salões em uma residência artística que não só deu grande visibilidade para os artistas mineiros contemplados, mas estabeleceu Belo Horizonte como um centro de formação e convivência para artistas de outros estados, inclusive os centrais. Morar em BH pode vir a ser uma boa alternativa para o jovem artista em busca da tão desejada visibilidade nacional e internacional.

Outra instituição importantíssima, o Palácio das Artes, por mérito próprio, mas no mesmo vetor, reestruturou seu setor de artes plásticas, substituindo um sistema exclusivo de convites e propostas, para o qual era necessário ter um certo cacife, por concorrência aberta (para a metade das exposições, ao menos), tornando-se assim mais democrático e acessível aos jovens artistas e à produção contemporânea.

Até mesmo o Museu Mineiro, que era uma instituição apagada e anacrônica, cristalizada em torno de uma exposição permanente de obras barrocas e de algumas pinturas modernistas pouco importantes, tem promovido iniciativas para acolher nossa produção contemporânea, na forma de intervenções e instalações.

Talvez seja temerário afirmar isso, mas depois de quase 40 anos, ocorre hoje em Belo Horizonte uma efervescência artística tão notável quanto a histórica manifestação Do Corpo à Terra, que ocorreu em 1970, no Parque Municipal, ao lado do Palácio das Artes. Há hoje um boom de boas exposições e muitas outras ações interessantes, demonstrando que as melhores iniciativas de despolarização vêm justamente da periferia.

O aumento da participação de artistas residentes em Minas nas bienais e nas exposições de vulto, nacionais e internacionais, parece resultar dessa nova força que adquire hoje o contexto artístico mineiro e suas instituições.

E isso continuará. Novos artistas, como Paulo Nazareth, que ilustra o artigo, estão sendo formados nessa efervescência. Sua participação na edição passada da Bolsa Pampulha, para onde levou sofás velhos e onde vendeu “bosta de artista emergente”, sua exposição recente no Palácio das Artes, onde criou galinhas d'angola, e a quase simultânea intervenção no projeto Mesa de Queijos do Museu Mineiro, para onde levou uma cabra para dar leite, renderam ao Paulo uma visibilidade sem igual; mas não só. Seu trabalho, quase impossível de categorizar, mas que orbita a crítica institucional, tem se tornado cada vez mais contundente e maduro, algo que seria impossível na Belo Horizonte de alguns anos, de instituições cambaleantes, quase invisíveis e cristalizadas em torno dos “artistas mineiros de renome”.

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