No artigo A Multiplicação dos Materiais da Bravo! deste mês (nov. 2002), Daniel Piza, comentando a exposição Matéria-Prima no Novo Museu Curitiba, tangenciou um assunto que vem me preocupando há algum tempo:
Muito da arte contemporânea, na verdade, padece desse elogio ao truque plástico, como se o fato de alguém usar bambu ou vinil, digamos, pela primeira vez (ou daquele modo pela primeira vez), fosse suficiente para dar a seu trabalho um lugar na história da arte.
Costumo dizer que vivemos um período parecido com o Maneirismo, no qual a sensação comum a todos os artistas é a de que tudo que havia para se fazer já foi feito.
Os artistas lá do século XVI faziam diferente deformando, fazendo composições inusitadas e retratando temas que um artista renascentista jamais pintaria. Os artistas cá do século XXI tentam fazer diferente ou adotando materiais inusitados, lixo, restos, e instalando-os, ou desenvolvendo novas técnicas e tecnologias.
A grande diferença é que hoje tentamos romper a ruptura da ruptura. Temos que romper com a arte da década de 70 e 80, que foi a que rompeu com o Modernismo, que, por sua vez, rompeu com o Neoclássico. É difícil ou não é?
E como grande parte de nós ainda não achou a forma de fazê-lo, cai na experimentação puramente matérica ou na experimentação metalingüística, deixando de lado inovações reais.
Lá no início do século XX, o máximo eram as experimentações matéricas: papier collé, quadros-objeto, contra-relevos, as pesquisas da Bauhaus... E esse procedimento continuou bastante importante por todo o século, excetuando talvez a Post-Painterly Abstraction, nos anos 60.
A novidade, nossa novidade, é fazer da experimentação matérica um fim em si mesma? Ou a nossa novidade é não ter novidade nenhuma?
Não estou dizendo que devemos parar de experimentar (claro que não!); acontece que, para mim, tem algo mais interessante nessa coisa que vaga por ai chamada espírito.
Olhe para o mundo, ele mudou ou não?
O espírito (num sentido bastante materialista, não religioso) é a única coisa que, sem dúvida, pertence ao tempo.
Apesar de poder ser legada a outras gerações, uma obra espiritual (um quadro, um livro) é sempre revista e revivida de forma condizente com o presente pois essa ação não ocorre em outro lugar senão na mente daquele que frui a obra. É como a metáfora do rio.
Outro dia interrompi uma boa conversa de bar afirmando que morrer é bom. Não para quem morre, claro, mas para a humanidade. É essencial que as gerações morram; ou os cérebros nunca mudariam. (Deus me livre!)
Pois é, nós somos novos cérebros e quem vai ver nossas obras também. O espírito se renova automaticamente. Mesmo que as ações e pensamentos sejam retrógrados, o espírito nunca é.
É no espírito que surge o novo: da interação entre o espírito que criou a obra e o espírito que a frui. A materialidade da obra (sua história) é apenas um complemento.
Se pensarmos em termos espirituais, o rompimento com o passado é inexorável, justamente pelo tempo. Mas só um tipo de obra resiste nesse fluxo de criação, recriação e ruptura: a obra aberta.
Considero ruins aquelas obras que dizem a mesma coisa a todo mundo (de interpretação invariável, engessadas) e aquelas que não dizem nada a ninguém, ambas fechadas em si e por si, sem possibilidade de intercâmbio com o fruidor.
Uma metáfora é a obra de arte que vai para o cofre do milionário. Lá dentro ela deixa de ser obra de arte e passa a ser, por exemplo, pano e tinta. A cada segundo sem ser vista, ela se materializa e, com isso, perde valor (aquele valor que a fez ter valor monetário). Uma obra trancada deixa de se recriar na mente de quem frui.
Uma pintura que é obra aberta tem vários autores. Depois que o artista termina seu trabalho, ela é constantemente repintada no espírito das pessoas. E isso é muito belo!
Já se passaram 4 meses e continuo pensando na Bienal. É para isso que elas servem, certo?
Na 25ª Bienal de São Paulo (Iconografias Metropolitanas), experimentei a angústia dos leigos numa exposição de arte contemporânea. Argüido, por meus companheiros de viagem, o que era e o que queria dizer cada obra, respondi na maioria dos casos: — Não sei, o que você acha?
Essa resposta meio automática poderia significar que considero a obra em questão como uma obra aberta. Devo confessar, entretanto, que respondi isso justamente quando me referia às obras que considerei fechadas.
Revendo o catálogo e a memória, sempre chego à mesma idéia: as obras mais ricas em inovação técnica ou pesquisa de materiais são as mais fechadas...
É claro que há exceções e muitas! Mas vou dar dois exemplos do que estou falando.
Sarah Sze, sem título (vista da obra na Asian Society, Nova Iorque), 2001.
Segundo o catálogo,
Sarah Sze realiza móbiles/instalações delicados com os materiais os mais diversos, os mais simples (como varas de pescar, sucata). Arranjando estes elementos — o que parece ser feito de modo improvisado — ela constrói estruturas inteiras, nas quais o equilíbrio é um dado concreto e fundamental.
Acabou!, caput!, pronto!, a obra não diz nada além do que diz o catálogo... Triste né?
Maurício Dias; Walter Riedweg, Belo Também Era Aquilo Que Não Foi Visto, 2002, vídeo-instalação e projeto de arte pública com indivíduos com deficiência visual.
Entrei numa sala escura, morrendo de medo de ver mais um vídeo. Demorei a entender o que se passava ali. Uma série de gavetas. Algumas com relevos, outras com pequenos monitores de vídeo. Aquilo me intrigou... Esperei o vídeo recomeçar e ele mostrava deficientes visuais falando sobre seu dia a dia. Pouco atento, fui bisbilhotar os relevos; fechei os olhos, inclusive, para tentar apreender o que era aquilo.
Desatento, ouço do vídeo um cego falando sobre o espelho, dizendo que sem o espelho ele acha difícil se arrumar. Outra diz que antes de sair dá uma olhadela no espelho para ver se está tudo no lugar. Um homem diz que sem espelho é difícil fazer a barba; e que se não tiver nenhum por perto, a faz pelo tato.
O quê? Como é? Eles tão falando de quê? De outra pessoa que lhes guia ou de uma estrutura mental? Não havia lá nenhum espelho. Essa era a chave! Os relevos eram “pinturas” (eram?) para serem “vistas” com o sentido do tato... Bonito, não é?
200710 — Maria Monica e Silva (Universidade de Brasilia, Instituto de Artes, aluna de graduação) diz que não devo me meter a falar sobre arte e defende Sara Sze como grande artista.
Hoje não diria o que disse sobre Sze... :)
Unless otherwise expressly stated, all original material of whatever nature created by Hélio Alvarenga Nunes and included in this website is licensed under a Creative Commons License.